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Refeição em família, uma instituição que está acabando

Por Maya Santana

Não conheço melhor lugar do que a mesa de refeição para se  conversar à toa

Não conheço melhor lugar do que a mesa de refeição para se conversar à toa

Este artigo, escrito pela psicanalista Anna Verônica Mautner e publicado na Folha, me remeteu, assim como a própria autora, aos tempos de criança, quando almoçávamos todos juntos e éramos uma família típica do interior de Minas. A autora fala da perda desse hábito e da sua importância. Tenho certeza que os leitores do 50emais também viveram essa época em que ainda era possível nos reunirmos para almoçar e conversar.

Leia:

A conversa na mesa entre a família é reler, rever o dia que passou. A partir desse bate-papo podemos testar escolhas e até nos corrigir

Conversar é preciso, assim como é também bater papo, palpitar. Precisamos de conversa fiada –é conversando que construímos as imagens que temos uns dos outros.

Não conheço melhor lugar do que a mesa de refeição para esse tipo de conversa à toa. Mas como a mesa de refeição está sendo cada vez menos usada, por falta de tempo e de oportunidade, e como são poucos os que reclamam –esse espaço foi encolhendo devagar.

É em volta da mesa que se relata o cotidiano de cada um e também é compartilhado. E dentro do clima de “sem-cerimônia”, nos reconhecemos. É no “à toa” mesmo. Quando falta ou é rara essa rotina caseira, passamos a viver como se a vida se tornasse um texto que não foi relido. A conversa na mesa é reler, rever o dia que passou.

A partir deste bate-papo inconsequente, podemos testar escolhas e até nos corrigir. É nesse clima que os indivíduos se avaliam e são avaliados, gerando a família –entidade única e original.

Quando uma pessoa não tem este espaço, ela terá que fazer a tarefa de se avaliar, sozinha. Na sociedade em que vivemos, estamos imersos numa trama exigente e paradoxal. É tão diferente do clima em torno da mesa.

Aí captamos o significado de olhares, gestos, entonações que conhecemos bem, mas os detalhes mudam dia a dia. Se tivermos interpretado erroneamente o ocorrido, não tem importância –hoje ou amanhã a família estará junta de novo e tudo poderá ser esclarecido. É, pois, no “um dia depois do outro”, que são lançadas as sementes do respeito e do conhecimento mútuo.

Este mesmo mundo que pede pessoas conscientes, flexíveis e tolerantes inviabiliza, ou pelo menos dificulta, os rituais de família, em que se encontra a melhor e a maior probabilidade de vivê-las.

A agenda escolar de cada um dos filhos, as exigências do trabalho, os cursos extras, os hábitos de entretenimento fazem concorrência aberta à possibilidade de interação familiar. Cada um tem seu horário de ir e vir ou de aparecer, mas ninguém se ausenta eternamente. Faltar muito dá saudade.

Evocando aqui e agora o meu dia a dia dos meus tempos criança, vejo-me na minha casa –a gente se conhecia bem, nas profundezas da alma e nas coisas mais corriqueiras. Nas nossas conversas, qualquer um de nós era capaz de prever o rumo da conversa. A nossa escala de valores valorizava o bem pensar e o bem sentir.

Éramos tolerantes para quase tudo, menos para o mau uso do pensamento. Lá na minha casa, na casa da minha infância, o empenhar-se, o esforçar-se sempre foi mais valorizado que o sucesso. E eu, até hoje, julgo assim.

Não tenho dúvida alguma: é de famílias conversadeiras, afetivas, tolerantes, prolixas que saem as pessoas que sabem escolher bem –pessoas aptas a fugir da dominação cega que os fortes podem exercer– é esse o maior e mais importante legado das refeições em família.

ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (Ágora)

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1 Comentários

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Márcio 17 de setembro de 2015 - 17:42

Como era bom sentar-se à mesa para as refeições! Agora, tantos anos depois, isso é tão raro… Sinto falta. É alegre e prazeiroso comer junto, compartilhar a conversa – frequentemente fiada – esticar a refeiçào quando a mesa já foi tirada!

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