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Fernanda Montenegro reflete sobre o envelhecer

Por Maya Santana

"Acho que uma hora quero morar perto da Nanda" - a filha, atriz Fernanda Torres

“Acho que uma hora quero morar perto da Nanda”

Faltando menos de um mês para Fernanda Montenegro completar 85 anos de vida – em 16 de outubro – decidi publicar aqui trechos de uma entrevista dada pela atriz ao portal G1 em março do ano passado. É uma reflexão sobre o envelhecimento de uma maneira geral e dela própria. Achei que valia a pena revisitar as palavras dessa mulher tão extraordinária. “Melhor idade? Imagina. Você vai perdendo a audição, a visão, o paladar, sua pele vai secando. Mas é uma realidade, que vai piorar se você começar a achar que é uma desgraça.”diz ela.

Leia a entrevista:

Aos 83 anos, Fernanda Montenegro emenda um trabalho atrás do outro, de Norte a Sul do país, mas não se queixa de cansaço.

— Eu me poupo desse charme de falar “não quero mais, daqui a pouco vou parar”. No máximo é um desabafo de uma tarde de verão. Fisicamente você pode até dizer “puxa, mais uma vez sair por aí afora”, mas o espírito te leva com muita alegria.

Ela não celebra nem lamenta a velhice. Como diz, nem idealiza nem deprecia a idade. Por isso, evita os extremos, seja eufemismos como “melhor idade”, seja palavras como “velho”, contaminadas pelo preconceito.

— Melhor idade? Imagina. Você vai perdendo a audição, a visão, o paladar, sua pele vai secando. Mas é uma realidade, que vai piorar se você começar a achar que é uma desgraça. É da natureza e ponto, vamos tocar a vida. Por outro lado, levou um susto outro dia quando alguém, falando a seu respeito, disse: “Mas é uma octogenária.”

— Achei a palavra horrenda. É verdade que sou, mas que palavra brutal.

A atriz como a adorável Dona Picucha, série da TV Globo

A atriz como a adorável Dona Picucha, série da TV Globo

Ela acredita que o segredo para encarar o envelhecimento é encontrar um canal, “algo que alimente o ser humano”. No caso dela, são dois canais:
— O primeiro é uma predisposição que tenho para a vida. O outro é ter uma vocação e realizá-la, porque ela é inarredável. Nos encontros com jovens atores, sempre digo: “Desistam. Agora, se você não conseguir se levantar mais da cama, comer e respirar, aí volte e vá fazer essa profissão.” Porque se você ficar à morte só pode voltar para viver. Mas aguente as consequências, porque é uma profissão marginal e marginalizada, e vai ser sempre. No caso do teatro, seu trabalho só existe enquanto alguém que viu você fazer estiver vivo.
— Eu me ofereço ao teatro, vou em busca dele, fustigo-o. Bato na porta e peço para entrar. Nos outros meios de arte, eu sou solicitada. Não saio me oferecendo para o cinema e para a TV.
O que não é tão comum hoje em dia.

Ela fala de como é “muito pesaroso” ver as mortes em sua geração, aquela entre 80 e 90 anos, formada por atores que se “forjaram buscando personagens”.

— De uns poucos anos para cá, morreram Paulo Autran, Sérgio Viotti, Gianfrancesco Guarnieri, Sérgio Britto, Italo Rossi, Renato Consorte, Chico Anysio, Walmor Chagas, Fernando (Torres, seu marido). É uma limpeza assustadora. São peças que não têm reposição. Fernando foi um louco por teatro, uma vida de entrega, dirigindo, atuando e produzindo.

Com a filha "Nanda"

Com a filha “Nanda”

Foram 60 anos ao lado de Fernando, que morreu em 2008. Ela não quis se mudar do apartamento onde moraram juntos nos últimos 12 anos, em Ipanema.

— A casa tem muito dele. Poltrona, livros, há toda uma memória aqui dentro que me acompanha com muita emoção. Tem os retratos dele. Converso com Fernando. Mas não sou uma velhinha maluca — diz, com bom humor. São coisas como “poxa, mas está difícil o dia hoje”, “hoje foi pesado”, olhando para as fotos. Sair do apartamento que acumula tantas lembranças não vai ser fácil, mas faz parte dos planos.

— Acho que uma hora quero morar perto da Nanda (sua filha, a atriz Fernanda Torres), na Lagoa. Para estar junto dela e ela junto de mim. E também pelo Cláudio (seu filho, o diretor Cláudio Torres, que mora no Humaitá). A família é muito interligada, e uma hora você vai precisar de um suporte. Você tem que se organizar para isso, sem morbidez, mas com objetividade.

Fernanda conserva a independência física, mental e financeira. Quando não está viajando, anda diariamente pelo calçadão de Ipanema. Na hora de subir três ou quatro andares, usa a escada. E ainda tem as exigências da profissão.
— Nada é mais solicitante para o físico do que o palco.

Com os três netos - dois de Fernandinha e um de Cláudio Torres

Com os três netos – dois de “Nanda” e um de Cláudio Torres

Mas, como diz, nem todos chegam à idade avançada com “pujança de vida”.
— E aí precisam de assistência, de alguém que cuide.
Apoio que muitas vezes não vem. Ela explica que, no caso de uma criança, que ainda não tem domínio de sua estrutura, as pessoas ficam muito felizes em cuidar porque ela está a caminho da vida. Mas, quando se trata de cuidar de alguém que está nos últimos instantes, que só vai piorar, tudo muda. Fernanda reclama desse descaso com a “velhice desvalida”.

— A pessoa não entende que vai para o mesmo lugar. A Humanidade nem sempre tem uma visão da sua falência.

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3 Comentários

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Marisa DonizeteSouza Cruz Dionizio 21 de setembro de 2014 - 07:08

Lindo sem palavras

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Nenez 19 de setembro de 2014 - 18:43

um exemplo!

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lisa santana 19 de setembro de 2014 - 11:43

Amo Fernanda.

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