Regina de janeiro, fevereiro e março

Por Maya Santana

Aos 58 anos, Regina Casé é a rainha da periferia

– Ô, dona Regina, diz o menino sorveteiro, nariz desconfiado, sorriso quase escapando pelos dentes alvos em contraste com a pele negra.

– Vou te falar uma coisa que eu não sei se a senhora vai gostar, mas tenho que falar.

E entrega o veredicto:

– A senhora é adorada nos piores lugares.

– Como assim, garoto? devolve uma Regina Casé provocativa, capaz de se mimetizar numa multidão de anônimos e ganhar sua confiança. De graça. Espontaneamente. Assim, como quase mais ninguém consegue fazer.

– A senhora é adorada na prisão, onde minha mãe está, no abrigo de menores e também lá onde eu moro, um lugar horrível mesmo. Para lá de Piri-Piri (grande favela no entorno de Salvador).

Apresentadora do programa Esquenta, um sucesso aos domingos

O dona e o senhora foram exceções. A intimidade despertada pela moça da televisão com cara familiar costuma ser ainda maior – tem quem a convide, sem cerimônia, para uma descidinha até o chão. Funkeira das boas essa Regina. Já o episódio da sorveteria de Salvador poderia ser um entre outros tantos colecionados morro acima, favela adentro, periferia afora. Não fosse pela feliz definição que carrega.

A verdade é que Regina não precisou se esforçar tanto assim para ser adorada nos piores lugares. Foi quase instintivo. Se hoje os cenários de novelas se alternam entre subúrbio e favela e o gosto pelo popular virou moda, Regina Casé, de 58 anos, não é mais uma recém-chegada a esse universo. “Tudo começou lá trás quando eu ia passar o fim de semana na casa da Marinete [empregada], quando convivia diariamente com o tio Haroldo, que transmitia o Carnaval do Rio, com a tia Mari, passista do Salgueiro, quando ia fazer teatro de bonecas com a minha mãe na periferia” conta.

“Meu pai, minha mãe e meus avós me deram uma educação de igualdade, diversidade, respeito às diferenças”, solta a frase com cara de feita. Mas, na sequência, já personaliza o que poderia ter sido dito por qualquer um. “Ninguém nunca me disse e eu nunca disse para a minha filha: olha você precisa ser muito amiga de pretos e pobres.” Termos que, em tempos politicamente corretíssimos, poderiam melindrar outra pessoa. Não Regina Casé. Leia mais em Valor Econômico.


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