Responda: “Qual é o sabor da sua infância?”

Por Maya Santana
"Sou louca por sopas. Experimento qualquer sabor que apareça na minha frente"

“Sou louca por sopas. Experimento qualquer sabor que apareça na minha frente”

Desde que li pela primeira vez essa crônica de Flávia Yuri Oshima para a revista Época fiquei me perguntando qual é o sabor da minha infância. E o que me vem à memória é sempre a mesma coisa: as quitandas que a minha avó paterna fazia. O bolo de fubá e o biscoito de soda, assados naqueles fornos de barro construídos artesanalmente no quintal, nunca mais comi igual. Ficou na lembrança como o de melhor que provei na infância. Acho que todo mundo tem mesmo pelo menos um sabor que traz na memória dos primeiros anos de vida.

Leia a crônica de Flávia:

Sou louca por sopas. Experimento qualquer sabor que apareça na minha frente. Meu paladar acolhe sopas quentes e frias, cremosas e ralas, salgadas, amargas, apimentadas e doces (no meu critério, canjica é sopa). Se tiver sopa no cardápio, to dentro. Já vi muitos dos meus amigos tremerem de gastura por ver aquele caldo fumegante na minha colher num almoço de verão. Durante muito tempo, quando me importava mais com a opinião dos outros, tentei disfarçar. Mas a atração que sinto por uma tigela cheia de caldo bem temperado sempre foi maior que eu.

Tomei consciência da sopa em minha vida quando li A morte do gourmet, da filósofa francesa Muriel Barbery, em 2000. Não faço ideia se ela gosta de sopa. Também não é o tipo de alimento favorito do gourmet. Ocorre que, na história criada por Muriel, Pierre Arthens é um crítico gastronômico à beira da morte, que passa seus últimos dias recordando os sabores de sua vida. Cada um deles é relacionado a um momento ou a alguém. O livro é fino: 124 páginas. Mas toma tempo.  É impossível ler A morte…. sem pensar nos sabores da própria vida. Muitas vezes, as lembranças vêm acompanhadas de uma pausa para comer uma coisinha.

A brincadeira vai longe de acordo com as relações que criamos. Dá para usar os namorados como referências. Qual o sabor que mais me dava prazer quando namorava ciclano? Dá para usar estilos também. Qual o prato de que mais gostava quando era gótica? E quando era metida a bicho grilo de butique? Pode ser divertido, ridículo e emocionante ao mesmo tempo.

A ordem cronológica funciona. Tentei lembrar do primeiro sabor que me deu prazer. Cheguei à canja de galinha rala que a sogra da minha madrinha cozinhava todos os dias no jantar. Com uma avó japonesa e outra italiana, ambas exímias cozinheiras, pensar na canja rala da avó de outra pessoa soa como desvio de caráter.  Por minhas avós e por vaidade, tentei enganar a memória. Quem sabe me lembraria de algo mais sofisticado ou charmoso, ligado às minhas raízes, como um missoshiro com peixe seco e shiitake, ou um capeletti in brodo recheado. Não rolou. Não consigo me esquecer da  tal canja rala, feita com arroz, cenoura, pouco frango, sal e só.

Resolvi apurar as primeiras memórias de outros. Caldo verde era o gosto da infância do poeta português Fernando Pessoa (fonte: À mesa com Fernando Pessoa, de Luís Machado). A Nena, babá dos meus filhos, se lembra do bife que a avó fritava às seis da manhã para a marmita do tio. Quando sobrava um para ela, a pequena Nena se lambuzava. O quindim feito pelo avô português era o sabor mais saudoso do poeta Vinícius de Moraes (fonte: Pois sou um bom cozinheiro, de Vinícius de Moraes). Guimarães Rosa gostava de biscoito de nata e de biscoito de polvilho (fonte: ensaio sobre o livro Relembramentos, de Vilma Guimarães Rosa). Clique aqui para ler mais.


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2 Comentários

Namoro para Terceida Idade 12 de abril de 2017 - 17:27

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Alexandre Moreira 13 de junho de 2014 - 12:14

Pão de torresmo, feito em casa, num fogão à lenha chamado de “econômico”! Certamente a lembrança do aroma de pão assado se espalhando pela casa, a mãe cortando fatias grossas, recheadas de bons pedaços de torresmo, o sabor inigualável, ajudam a voltar no tempo todas as vezes que minha alma pede por isso.

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