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Sala de Espera

Por Maya Santana
E se fosse tarde demais para a prevenção?

E se fosse tarde demais para a prevenção?

Elza Cataldo –

Depois de cinco anos, ela resolveu cuidar da sua saúde. Atualizou os exames tão inexoravelmente vencidos e fez pela primeira vez outros tantos que os amigos já haviam feito várias vezes. E se os exames detectassem uma doença avançada? E se fosse tarde demais para a prevenção? E se não tivesse mais tempo para realizar os seus sonhos? Foi lutando contra os pensamentos sombrios que chegou à recepção do consultório de um de seus (agora inúmeros) médicos.

O cômodo espremido não comportava o grande número de pacientes, talvez com os mesmos sentimentos e apreensões. Da sua temporada carioca, ficara a facilidade de comunicação com estranhos. No Rio, aprendera a trocar impressões, e até confidências, em elevadores, filas de banco, ônibus, táxis, restaurantes, sinais de trânsito fechados e… salas de espera.

Acabou por iniciar uma conversa com uma já amiga de espera. Tratava-se de uma senhora ainda bem apessoada, com uma velha revistinha de palavras cruzadas nas mãos. As outras, cibernéticas, despistavam a tensão com as variadas funções dos celulares. Foi quando ela fez um comentário sobre a demora do atendimento para a cruzadora de palavras. A senhora reagiu de modo natural e disse que o mais complicado era quando a obrigavam a levar acompanhantes. Pois acompanhantes ela não tinha. A filha morava em outra cidade e desde quando havia tentado suicídio não era mais confiável. Suicídio? Ela inquiriu assustada. Sim, mas desde que minha filha passou no vestibular de Medicina, mesmo em uma cidade muito distante, está melhor. O problema é que teve que fazer vestibular por cinco anos. Foi isso que causou a tristeza dela.

Quão infinitos são os motivos para alguém tentar o suicídio, ela pensou. E tratou logo de mudar de assunto: e seu marido? Meu marido está quase desempregado e não pode faltar ao fugidio emprego, respondeu a senhora na sua inabalável naturalidade. Dito isso, ela sacou uma foto da filha, do marido e do filho. Na melancólica foto familiar, sobressaía a figura esquálida de um jovem. A mãe logo explicou o estado lastimável do filho. Ele havia tido um acidente e tinha perfurado o intestino. Teria um buraco no estômago para o resto da vida. Ainda não podia se locomover.

Foi quando uma simpática recepcionista interrompeu a trágica narrativa e chamou a senhora para a consulta. De tão aliviada por chegar a sua vez, ela esqueceu na poltrona a foto de seus não disponíveis acompanhantes.

Quando a consulta terminou, ela foi abraçada pela filha, pelo marido e pelo filho. E saiu da sala de espera devidamente acompanhada.

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