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Ser atleticano é para sempre, na alegria e na dor

Por Maya Santana

Ele repete o grito de uma paixão ancestral: “Galoooooooooooooooooooooooooooô –”

Ele repete o grito de uma paixão ancestral: “Galoooooooooooooooooooooooooooô –”

Déa Januzzi

O Clube Atlético Mineiro (CAM), ou melhor, Galo, para mim tem quatro nomes sagrados, tatuados na pele do meu coração: Guará, Reinaldo, Roberto Drummond e Gabriel.

Ah, preciso abrir um parênteses. Ontem, quando eu estava redigindo esse texto, tive uma dúvida se coração tem pele. Mesmo com licença poética, enviei uma mensagem para o meu amigo e cardiologista Marcus Vinícius Bolívar Malachias que, em 2016, será presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Já eleito e com uma agenda cheia, ele parou onde estava e me respondeu, porque ele entende de coração, mesmo os mais indisciplinados e inquietos. Ele disse: “Coração tem uma película que se chama pericárdio, mas não é bem uma pele. Mas que tal dizer que seu coração em vez de tum-tá, tum-tá, bate Ga-lo, Ga-lo”.

Fecho parênteses. Primeiro tenho que falar sobre Guará, meu pai, que até hoje é o quarto maior artilheiro do Galo, depois de Reinaldo, Dario e Mário de Castro. Com 168 gols. E olha que jogou pouco tempo, até aquele trágico 4 de junho de 1939, quando o Atlético e Palestra Itália (hoje Cruzeiro) se enfrentavam pela segunda rodada do campenato da cidade. Um dia que marcaria o final de uma carreira brilhante, o dia em que a estrela do centroavante Guará se apagou – e ele teve que se afastar, definitivamente, dos campos de futebol.

Vítima de traumatismo craniano, Guará nunca mais pôde jogar, apesar das muitas tentativas. Ele não era mais o mesmo. Tinha receio de pisar no gramado, depois de disputar aquela bola, de cabeça, com Caieira.
Mas o homem que cantava tangos de Carlos Gardel ao telefone para a sua amada, de nome Amélia, sobreviveu aos caprichos da fama. Conviveu com os percalços da vida, soube driblar as dificuldades e amarguras. Tocou a bola para a frente. O ídolo virou pai, cidadão do bem, que ensinou aos filhos conceitos de generosidade, solidariedade e respeito.

Nasci muito tempo depois daquele acidente, não o vi jogar, mas convivi com o pai Guaracy Januzzi. Sabia que o nome de Guará abria portas. Conheci a história de um “astro que parou de brilhar no velho engaste azul do firmamento, onde vive e viverá a saudade”, como disse Ary Barroso, seu conterrâneo em Ubá, no prefácio do livro “Vida de Glórias e Sacrifícios”, escrito pelo jornalista Antônio Tibúrcio Henriques, que em segunda edição mudou de nome; “Perigo Louro”, o apelido daquele menino franzino, loiro de olhos verdes, que fazia a rede tremer com gols apoteóticos.

A “fama teve inveja de Guará”, disse Ary Barroso. Que bem poderia repeti-la com Reinaldo, o Rei, o primeiro e único artilheiro do Galo de todos os tempos. Posso dizer que sou amiga do Rei, um guerrilheiro do futebol, eternizado e respeitado pelos gols e pelo gesto do braço esquerdo para cima, com o punho fechado, em plena ditadura. A cada gol, um gesto de protesto. Admiro Reinaldo desde que o escritor, jornalista e meu mestre Roberto Drummond, escrevia sobre aquele menino do baby-craque.

Em crônicas, Roberto acompanhou Reinaldo em toda a sua trajetória no futebol, da glória aos problemas no joelho que o tiraram para sempre do gramado. Mas Reinaldo continuou rei em meu coração. Andar com ele pelas ruas da cidade é ver que os torcedores do Galo jamais esquecem seus ídolos. Todos continuam a chamá-lo de Rei, rei, reiiiiiii, igualzinho ao grito de guerra que marcou a sua bela trajetória no gramado, porque o atleticano é assim: “Se houver uma camisa branca e preta, pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”, uma das frases de Roberto Drummond que virou uma espécie de hino do Atlético.

Meu mestre no jornalismo, Roberto Drummond fez literatura da crônica esportiva e desburocratizou os textos. O “Ser Atleticano” dele é digno de ser repetido mil vezes, principalmente agora que o Galo chega à final da Ccopa do Brasil. Eu sempre repito, como uma oração: “O atleticano é diferente de qualquer outro torcedor. É diferente, pois não se restringe a ser somente torcedor. Ser atleticano é como casamento. Na saúde e na doença. Nas alegrias e nas tristezas. Mesmo quando a doença parece não ir embora. E as tristezas teimam em permanecer. O atleticano é capaz de após uma derrota humilhante pegar a camisa no armário e sair às ruas, mesmo sendo alvo de piadas. Isso por que o atleticano não torce por um time. Torce por uma nação. E tal qual em uma guerra, um cidadão não renega um país mesmo que a derrota seja grande. O atleticano apoia seu time na derrota, pois os obstáculos engrandecem seu sentimento de nacionalismo. E que me perdoem os que têm apenas títulos. Claro que são importantes, mas o atleticano tem algo que os outros nunca terão. Tem paixão;”

Parênteses final: Ah, e o meu ídolo atleticano, com sangue preto e branco, meu filho Gabriel, que a cada vitória ou derrota do Atlético, repete o grito de uma paixão ancestral: “Galoooooooooooooooooooooooooooô –” e ri com os olhos e o coração.

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4 Comentários

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Ime Ribeiro Pinto Teixeira 27 de novembro de 2014 - 00:38

Lindas palavras, saídas do fundo do coração.
VIVA, ViVA nosso Galoooooooooooooooooo…….

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rosa maria de Jesus Werneck 26 de novembro de 2014 - 18:08

Brilhante como sempre. Déa escreve com maestria o sentimento do Atheticano.

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Regina Ananias 12 de novembro de 2014 - 17:13

Oi Dea querida, adoro suas crônicas. E como atleticana compartilho minha paixão e respeito pelo nosso CAM. Um abraço e votos de sucesso para você, sempre.

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Marcos Michel 8 de novembro de 2014 - 21:18

Dea que texto lindo. Traduz todo o nosso sentimento de “ser atleticano”. Em tempo sou sobrinho e afilhado da Tia Elza e Jacinto Januzi.

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