fbpx

Ser magro é tão importante quanto ser honesto?

Por Maya Santana

Antes era a moral que nos aprisionava. Hoje é a estética

Antes era a moral que nos aprisionava. Hoje é a estética

Esta crônica da jornalista e escritora Leila Ferreira foi publicada na revista Marie Claire com o título “Magreza é virtude?” Fala de uma ditadura estética, que cobra das mulheres serem magras. Uma cobrança implacável. “Antigamente, nós, mulheres, não podíamos ter apetite sexual. Hoje não podemos ter apetite -ponto final. É por isso que eu sempre brinco que nos tiraram de Bangu 1 e passaram para Bangu 2. O endereço da cadeia mudou, mas continuamos prisioneiras. Antes era a moral que nos aprisionava. Hoje é a estética.”

Leia a crônica:

Ontem comi doce de leite com queijo. Anteontem tomei sorvete. E, entre uma e outra sobremesa, temperei minha vida com duas fatias de bolo de coco. Enquanto desfrutava do sabor maravilhoso do doce, do sorvete e do bolo, tentei me lembrar de como é comer o que existe de mais gostoso sem sentir culpa. Não consegui. Aquela felicidade plena, aquela sensação maravilhosa de saborear um doce que se ama sem pensar em mais nada, sem sentir nada além daquele sabor, foi riscada do cotidiano das mulheres. No dicionário feminino, o verbete ‘prazer’ vem sempre acompanhado da palavra ‘culpa’ -pelo menos quando se fala de alimentação. Antigamente, nós, mulheres, não podíamos ter apetite sexual. Hoje não podemos ter apetite -ponto final. É por isso que eu sempre brinco que nos tiraram de Bangu 1 e passaram para Bangu 2. O endereço da cadeia mudou, mas continuamos prisioneiras. Antes era a moral que nos aprisionava. Hoje é a estética.

Estive na Índia recentemente e passei um bom tempo lendo a seção ‘Matrimonials’ dos classificados dos jornais. No país onde a imensa maioria dos casamentos ainda é arranjada pelas famílias, os pais recorrem aos classificados para procurar seus futuros genros e noras. Eles descrevem o filho ou a filha que vai se casar como a mais perfeita das criaturas (claro), mas em contrapartida exigem uma série de predicados dos candidatos a entrar para a família. O processo todo é muito curioso, por causa das diferenças culturais -a questão da casta, por exemplo, ainda pesa muito. Mas o que mais me chamou a atenção nesses classificados foi justamente um ponto de coincidência com a nossa cultura: a valorização da magreza feminina. Quase todos os pais exigem que a futura nora seja magra. Num país em que o índice de obesidade deve ser insignificante, a exigência é ainda mais surpreendente. E ela reproduz um conceito que nossa cultura já conhece bem: a magreza como virtude.

Ser magro, hoje, é tão importante quanto ser honesto. Aliás, vamos passar a frase para o feminino: a magreza nas mulheres hoje é tão valorizada quanto a honestidade. Sim, porque nos homens a magreza é apreciada e admirada. Mas, se eles forem cheinhos, a gente perdoa. O que nossa cultura não aceita é a mulher acima do peso -e o peso em questão é ela, a própria cultura, que define. Se a mulher não é magra, ela pelo menos tem que mostrar que se esforça 24 horas por dia para emagrecer. Se não luta contra os quilos, é vista como fraca, desleixada, indisciplinada, ou seja, o julgamento estético ganha um caráter moral. De volta ao começo? Mais uma vez a moral nos aprisionando? Clique aqui para ler mais.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

dois × 3 =

1 Comentários

Avatar
Ana 20 de março de 2015 - 20:30

acho que quem deu este grito de libertação estética, deve ser gordinha. Coma querida mais um delicioso chocolate e fique mais …gordinha ainda. Tudo bem, né?

Responder