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Nesta crônica perfeita, Martha Medeiros fala desse fenômeno que nos aturde tanto que é o envelhecer. Se o destino não decidir de outra forma e ceifar nossa vida no meio do caminho, todos nós, sem excessão, vamos chegar à velhice. Talvez por ser esse o último estágio da existência, resistimos tanto a aceitar o envelhecimento.
“No espelho do banheiro, nosso rosto é o mesmo todo dia. Envelhecemos microscopicamente. De terça para quarta, nenhuma diferença,” escreve Martha, comentando: Até que você encontra na rua uma ex-colega de faculdade ou se depara na tevê com alguém que já fez parte da sua juventude e se pergunta: será que eu também perdi o frescor? Eles se perguntam a mesma coisa quando te veem.”
E a autora acrescenta: “O tempo tem rosto, o tempo tem mãos, o tempo tem voz — e nada disso permanece o mesmo. As superfícies espelhadas reproduzem uma imagem de aparente pausa porque, de hoje para amanhã, não se nota alteração.”
Leia a crônica completa, publicada por O Globo:
Assistia a um telejornal, distraída, quando apareceu na tela o depoimento de um coroa que eu não conhecia, mas, por algum motivo, a imagem me atraiu. Ao ler o nome dele nos créditos, pensei: já conheci um cara com este nome… Peraí… Não pode ser.
Caramba, é ele. Um amigo que sumiu de vez do meu radar. Pertencemos à mesma turma de praia quando tínhamos 20 anos. Lembro que ele surfava, tinha um jipe e era um gozador nato. E agora estava ali, sisudo na tela da tevê, de terno e gravata, com a pele acinzentada, um fiapo de cabelo, um senhor — da minha idade.
No espelho do banheiro, nosso rosto é o mesmo todo dia. Envelhecemos microscopicamente. De terça para quarta, nenhuma diferença. Até que você encontra na rua uma ex-colega de faculdade ou se depara na tevê com alguém que já fez parte da sua juventude e se pergunta: será que eu também perdi o frescor? Eles se perguntam a mesma coisa quando te veem.
O espelho do banheiro não conta a verdade pelo simples fato de que ignoramos o que é visto toda hora. Já fotografias antigas são espelhos retroversos, demarcam com precisão as diferenças entre o antes e o agora.
Outro dia mostrei para minha filha uma foto de nós duas em 1992, eu a segurava em meu colo. Ela ficou impactada: “Era uma criança!”. “Claro, você tinha um aninho”. “Estou falando de ti, mãe”.
É uma questão de perspectiva. Para os bebês, os pais são matusaléns. No entanto, naquela foto, eu tinha menos idade do que ela tem hoje — éramos não uma, mas duas crianças.
Um dia ela me verá com o rosto completamente craquelado, miúda, corcunda pelo peso dos anos transcorridos, e o susto será outro: serei um espelho do seu futuro. Será obrigada a encarar a velhice que, gostemos ou não, está sempre em nossos calcanhares.
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Mas quando encontro minhas amigas a intervalos de tempo, sou atravessada pela verdade óbvia de que não somos mais as meninas do pátio do colégio.
O que me consola é que estes espelhos vivos (a feição atual de nossos velhos afetos) trazem tanto más como boas notícias. Em vez de sofrer pelo que está arruinado, busco em cada rosto o sorriso moleque de antigamente, o olhar ainda curioso, a eternidade que mora nos detalhes.
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Aquele amigo que apareceu na tevê, tão concentrado em sua declaração em frente às câmeras, talvez tenha deixado escapar um filete de irreverência em meio aos verbos empolados que usava, e foi isso que me fez reconhecê-lo. Mesmo o mais implacável dos espelhos reflete algo em nós que não muda.
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