
Ricardo Bastos
50emais
Setembro chega com seu tom de alerta e acolhimento. Mais do que uma campanha, o Setembro Amarelo é um convite a olhar para dentro, reconhecer as próprias dores e valorizar a vida em todas as suas fases. Especialmente na maturidade, quando tanta coisa muda, e nem sempre temos com quem dividir nossos dramas.
Para muitas mulheres que passaram dos 50 anos, a vida parece exigir que sejam uma fortaleza constante. A filha que já saiu de casa. A menopausa que altera o corpo e a alma. A aposentadoria que chega com vazio. O fim de um casamento longo. O envelhecimento dos pais, que agora precisam de cuidado. A solidão que bate, mesmo quando há gente por perto. Tudo isso vai se somando em silêncio. E o silêncio, a gente sabe, pesa.
Entre os homens, o cenário não é menos desafiador. Muitos cresceram ouvindo que não podiam demonstrar fragilidade, que emoção era sinal de fraqueza. Ao chegar à maturidade, enfrentam a aposentadoria, o afastamento social, a perda de amigos, e, muitas vezes, um corpo que já não responde como antes. A solidão também pesa neles, mas muitas vezes não encontram espaço ou vocabulário para expressar.
Quando o idoso é afastado do convívio familiar ou tem sua fala desvalorizada, especialmente quando tenta compartilhar memórias e experiências de vida, instala-se um tipo de esvaziamento emocional. O sentimento de ser ignorado, de não ter mais utilidade, pode gerar um processo lento e silencioso de desistência da própria vitalidade.
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Como identificar sinais de alerta na rotina
Familiares e amigos podem — e devem — ficar atentos a pequenos sinais que indicam esse estado de apatia profunda:
- Afastamento repentino das pessoas queridas;
- Falas que expressam sensação de inutilidade ou fim da linha;
- Mudanças drásticas no sono e apetite;
- Recusa de convites para passeios, conversas ou atividades que antes eram prazerosas;
- Olhar distante, sem brilho, com fala repetitiva e sem entusiasmo.
É nesse momento que o diálogo verdadeiro precisa acontecer. Estimular o idoso a contar suas histórias, valorizar suas memórias, perguntar sobre seus desejos e emoções — mesmo que pareçam simples ou ultrapassados — é um ato profundo de conexão. Dar sentido à presença é tão importante quanto oferecer assistência prática.
Um chamado à escuta e ao cuidado
Ninguém precisa enfrentar seus fantasmas sozinho. Cultivar vínculos, manter pequenas alegrias diárias, se permitir descansar e falar sobre o que incomoda — tudo isso faz parte de um cuidado profundo. Um cuidado que começa dentro da gente, mas que se fortalece quando encontramos escuta verdadeira.
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A psiquiatra Maria Helena Silva, da ABP, costuma dizer que “o maior gesto de coragem é pedir ajuda antes que a dor transborde”. Pode ser uma amiga, um terapeuta, um grupo de apoio, uma roda de conversa, um profissional de saúde. Alguém que saiba ouvir sem julgar, acolher sem pressa.
No Brasil, o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188. Está disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana. Às vezes, uma simples conversa pode reorganizar um mundo por dentro.
Quando a escuta vira presença
Setembro Amarelo não é só para quem sofre em silêncio. É para todas e todos nós. Para lembrar que um “como você está, de verdade?” pode abrir portas que estavam fechadas há muito tempo. Que um abraço sincero, uma mensagem carinhosa, um café demorado com alguém querido são formas silenciosas de dizer: você importa.
Promover saúde mental também é isso. Criar espaços de afeto, desacelerar, permitir-se sentir. E, quando for preciso, buscar ajuda profissional. Isso não nos enfraquece — nos humaniza.
E se fosse com você?
Pense nas pessoas ao seu redor. Quantas vivem sorrindo para fora e caladas por dentro? Quantas sustentam casas, famílias e rotinas, mas esquecem de si mesmas? Quantas acreditam que já passou o tempo de pedir ajuda?
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Setembro Amarelo é também sobre recomeços. Sobre dizer sim para uma terapia, um novo ciclo, uma conversa sincera com o espelho. Sobre saber que nunca é tarde para cuidar da gente.
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