
Ricardo Bastos
Ela abriu a bolsa como quem abre uma gaveta de casa, com a praticidade de quem já pagou boletos demais para romantizar improvisos. Chaves, documento, batom, um brilho que não pede licença. E, no canto, uma camisinha. Não escondida, não embrulhada em culpa, só ali, ocupando o lugar de um item comum, como um lenço de papel ou um par de óculos.
A amiga, dessas que ri com o corpo inteiro, viu e comentou, meio rindo, meio testando o terreno.
Você é uma mulher prevenida.
Eu sou uma mulher adulta, ela respondeu, e seguiu fechando o zíper com a serenidade de quem aprendeu que o ridículo, muitas vezes, é só o medo dos outros pedindo colo.
Tem uma liberdade que chega aos 50 como um sopro de ar. Não é a liberdade performática das frases prontas, é uma liberdade doméstica, prática, que resolve a vida. Você para de negociar com o constrangimento. Para de se explicar. Para de achar que desejo tem idade, ou que cuidado é sinônimo de desconfiança. E entende, sem discurso, que saúde sexual não é um assunto adolescente, é um assunto humano, do tamanho do encontro, do beijo e da escolha de ficar mais um pouco.
No Carnaval, essa liberdade se revela com mais nitidez. A festa é um grande corredor de encontros. Alguns duram o tempo de uma música. Outros viram conversa, viram troca de contato, viram um café na Quarta-Feira de Cinzas. E tem aqueles encontros que vão direto ao ponto, sem promessas, mas não sem responsabilidade.
A gente cresceu ouvindo que prevenção era um sermão. Hoje dá para olhar com outros olhos. Prevenção é gentileza com o próprio corpo e com o corpo do outro. É um combinado silencioso, do tipo que não estraga o clima, ao contrário, melhora. O Ministério da Saúde repete isso sem rodeio nas campanhas de Carnaval, camisinha e gel lubrificante, juntos, como parceiros de pista. O gel reduz atrito e diminui a chance de rompimento, é um detalhe prático que muita gente só aprende depois de passar aperto.
Ela não é ingênua. Sabe que o mundo não vira um comercial educativo quando a bateria toca. Sabe que o álcool embaça o julgamento e encurta o caminho até decisões que, no dia seguinte, parecem de outra pessoa. Por isso, prefere a regra simples. Se houver encontro, que seja com consentimento claro, e com proteção. Não é moralismo, é maturidade.
Maturidade também é aceitar que existem diferentes estratégias. Tem gente para quem a camisinha resolve a maior parte do caminho. E existe quem precise somar outras formas de prevenção, como a PrEP, profilaxia pré-exposição, disponível no SUS em serviços específicos para pessoas com maior risco de exposição ao HIV. A própria Organização Mundial da Saúde lembra um ponto importante, PrEP protege contra HIV, mas não contra a maioria das outras IST, por isso camisinha e lubrificante continuam sendo aliados valiosos.
O assunto, quando falado assim, sem susto e sem julgamento, vira o que deveria ser desde sempre, uma conversa normal. A conversa que muita gente não teve quando era mais nova, e agora pode ter, com direito a perguntas, risos e informações.
E se a vida escapa do combinado, porque a vida às vezes escapa, existe um caminho de cuidado também. Se houver relação sem preservativo, ou se o preservativo romper, a recomendação do Ministério da Saúde é procurar um serviço de saúde para avaliar a PEP, profilaxia pós-exposição ao HIV, que deve começar o quanto antes, com limite de até 72 horas após a exposição, e durar 28 dias. É um recurso de urgência, não um castigo, um cuidado possível quando o improviso vira risco.
Ela pensa nisso sem drama. Pensa como pensa em outras coisas da vida. Se algo acontecer, eu vou resolver. Sem culpa, sem novela, sem a ideia antiga de que mulher adulta tem que aguentar tudo sozinha e em silêncio.
No fim da noite, a música vai embora, a purpurina insiste em ficar, e a cidade volta ao seu ritmo de segunda-feira. O que ela leva para casa não é uma história para provar nada a ninguém. É só a sensação boa de ter vivido do jeito que escolheu, com prazer e com cuidado. E essa é uma estética que nunca sai de moda.
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