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Só a juventude é bela, com direito de ousar, de renovar e de amar?

Por Ricardo Bastos
Lya Luft, 82: amadurecer deveria ser visto como algo positivo

Selecionei esse trecho de Perdas e Ganhos, talvez o livro mais famoso de Lya Luft, porque ele nos induz a uma oportuna reflexão sobre o envelhecimento, não como uma fase de decadência, decrepitude. Mas realçando, chamando a atenção para pontos importantes da maturidade. “Um corpo maduro ou velho pode ser saudável e harmonioso assim como um corpo jovem pode ser doentio ou disforme”, afirma a escritora gaúcha, que completou 82 anos em setembro. Em outro trecho, ela questiona: “Nossa obsessão atual é, antes mesmo de dinheiro e posição social, a aparência física. Então viver não é avançar, mas consumir-se e definhar” Nada mais verdadeiro.

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Passaremos a nossa existência amarrados a um espantalho que em lugar de afugentar aves daninhas inibe a nossa possibilidade de voar. O jeito é virar o jogo. Aceitar como natural o que é natural, acolher bem o que não pode ser modificado. Há todo um leque de boas razões para viver bem e de coisas instigantes a descobrir, que antes 94 eu talvez não tivesse disponibilidade nem sabedoria para sequer tentar.

Somos tão frívolos que nos tornamos incapazes de amar a vida tal como nos é dada e conquistada em cada estágio. Somos dominados por uma inquietação que não é aquela positiva que nos leva a produzir, a nos abrirmos para novidades, mas agitação infantil de quem nunca se contenta porque não se encontra. Por isso se fragmenta e se perde. Se estamos fora dos padrões – convencionados pelos outros (nem sempre reais nem sempre muito respeitáveis) – por sermos muito grandes ou muito gordos ou muito velhos ou menos requintados ou menos ricos e menos poderosos, não nos permitimos ser naturalmente desejáveis e amorosos. Portanto, não nos deixamos ser amados. Um corpo maduro ou velho pode ser saudável e harmonioso assim como um corpo jovem pode ser doentio ou disforme.

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Mas compararmos um corpo maduro ou velho a um corpo na plenitude do seu frescor é infantil e cruel. Ter mais tranquilidade, mais conhecimento e fortalecer conceitos próprios, em suma, ser um indivíduo, exige reflexão, exige firmeza e individualidade. Mas tais conceitos são antiquados. Fora de moda. Somos constantemente convocados para o que se chama aproveitar a vida – o que quer que isso queira dizer. Quando eu era jovenzinha escutava (ainda hoje às vezes) coisas como: “Não casem cedo, primeiro é preciso aproveitar!” Isso valia só para os rapazes: as meninas preparavam-se para ser submissas e gentis. Hoje escuto: “Não me inventem de ter filhos logo, primeiro aproveitem!”

Eu mesma não saberia dizer o que penso dessa expressão, até porque não a emprego. O que sei é que aproveitar não há de ser essencialmente adquirir, comprar, gozar, ter, viajar, dançar, transar, consumir. Tudo isso faz parte, e é ótimo, mas o que será exatamente esse aproveitar?

Para alguns, estar sempre na moda, ainda que o modelo oferecido esteja totalmente além (ou aquém) da nossa mais remota possibilidade. Para outros, ter materiais de consumo que não combinam com seu próprio desejo. Atrelados como animais indefesos a idéias que nem sequer aprovamos, somos vítimas de fantasias criadas e alimentadas pela mídia, pela indústria, pela moda, pelo comércio – que nos quer vender essas mercadorias iconizadas, valorizadas sobre todas as coisas: a beleza do momento, e a eterna juventude.

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O horror da diferença física está tão disseminado que não é incomum, indagando sobre alguma pessoa, ouvirmos a resposta no mínimo peculiar (acompanhada de um gesto significativo): “Como vai sua filha?” “Está goooooooooorda!” “E como está Fulano?” “Bom, este está imenso!” Não lhes ocorre que posso querer saber se a pessoa está viajando, se teve mais um filho, concluiu os estudos, está doente, ou alegre, que se aposentou, que voltou a se casar.

Nossa obsessão atual é, antes mesmo de dinheiro e posição social, a aparência física. Então viver não é avançar, mas consumir-se e definhar. No entanto, faz parte de crescer que na infância meus ossos se alonguem, que meu sapato não seja mais tamanho 25. Faz parte de crescer que na maturidade o corpo mude e siga se transformando mais. 96 Faz parte do processo da vida, não da morte, que aos 60,70, 80 anos meu andar seja menos ágil, minha pele enrugada, meu corpo menos ereto, meus olhos menos brilhantes. Mas não faz parte que eu me considere descartável e me oculte na sombra sem direito a me movimentar, agir, participar ativamente – dentro de minhas naturais limitações. “Eu não vou à piscina há muitos anos, imagina se vou deixar alguém ver o meu corpo do jeito que está!” Procurando-se tal como era vinte ou quarenta anos atrás, quem assim fala terá a sensação de que não existe mais. De que a pessoa do espelho é não uma continuação daquela anterior, mas uma traição da natureza.

Independentemente de genética, possibilidades reais, idade, estamos sempre frustrados porque não somos mais louros, mais morenos, mais magros, mais altos, mais atléticos, não temos pele mais lisa, olhos mais sedutores. Por que razão aceitamos e cultivamos a ideia patética de que só a juventude é boa e bela, com direito de ousar, de renovar, de amar?

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Direito de ser, de ter espaço? Boa parte dos nossos sofrimentos (falo dos dispensáveis) vem do fato de sermos tão infantis. Além da dor pelo que não somos fisicamente, sofremos pelo que ainda temos de fazer: Comprar todos os produtos. Frequentar todos os lugares da moda.

Sobretudo: nunca sossegar, nunca se contentar, nunca se aceitar. Parar para pensar, nem pensar: seria doloroso demais.

Isso não é sinal de uma mente inquieta, mas de uma alma precária. Isso não é viver a vida, muito menos aproveitá-la. Da mesma forma não se para de repente no meio dessa corrida para só então, subitamente, ter a consciência de que se existe como um ser humano complexo, com trajetória e destino. Não convocamos de repente, segundo nosso capricho, a hora de amar, hora de ser decente, generoso, de refletir, de olhar para dentro de mim e dos que vivem comigo. Hora de me questionar. Hora de mostrar aos filhos algo do que penso, hora de ser, com meu amor, um companheiro e cúmplice leal. Não funcionamos assim.

Nossas fases não se compartimentam em diques e represas: são fluxo, água corrente. Portanto a hora é sempre. Mas tem de ser natural, tem de fazer parte do convívio, não ser um instante inserido no cotidiano como um corpo estranho quando estamos inquietos ou culpados. O amor que dialoga é um hábito. Se nunca exercido, não produzirá inesperadamente uma fruta madura e boa. Mesmo na sexualidade, apesar do alarde, da liberação e da incrível multiplicação de informações (a maioria bastante questionáveis), continuamos muito primários. Acabamos nos submetendo à obrigação de sermos sexualmente fantásticos (quase sempre mentira e empulhação por insegurança), mas como seres humanos possivelmente seremos precários. Se a mídia me oferece como ser feliz na cama – ou fora dela – em dez lições a preço módico, talvez fosse bom analisar e concluir que isso é engodo, que a felicidade amorosa não vem do desempenho, mas da ternura que aprimora e intensifica o desempenho.

Precisaríamos aprender a lutar contra os modelos absurdos; a descobrir quem sou, do que gosto, como gosto de ser – como fico mais feliz. Isso não está nas revistas, na televisão, nos palpites dos amigos: é íntimo, pessoal, intransferível.

— Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006

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