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Só é possível viver com leveza quando se sabe que a vida acabará

Por Maya Santana

Os atores Jean Rochefort, Sandrine Kiberlain do filme

Os atores Jean Rochefort, Sandrine Kiberlain do filme A Viagem do Meu Pai

Contardo Calligares, Folha de São Paulo

Fui ver “A Viagem do meu Pai”, de Philippe Le Guay, que me pareceu muito melhor do que diz a crítica. Espero que o filme continue em cartaz: é uma visão tocante (e não desesperadora) da idade avançada –na experiência do idoso e dos que convivem (ou conviverão, mais cedo ou mais tarde) com ele.

Claro, o filme só conta “uma” história. Em matéria de velhice, é bom lembrar o título do ótimo livro de Jack Messy, que imitava o bordão de Lacan sobre a mulher: “A Pessoa Idosa Não Existe” (ed. Aleph). Messy lembrava, assim, que cada um envelhece do seu jeito.

Uma frase de Julian Ajuriaguerra (grande neuropsiquiatra e psicanalista) circulava como um provérbio, no hospital Sainte-Anne: “On vieillit comme on a vécu” (a gente envelhece como viveu) –ao envelhecermos, seremos nós mesmos, só que velhos.

Lembro-me de uma conversa, nos anos 1980, com Jean Bergès (sucessor de Ajuriaguerra no hospital Sainte-Anne). Eu descrevia um caso de alexitimia num paciente idoso (alexitimia é uma extrema dificuldade em verbalizar, descrever e até viver sentimentos e emoções). Eu entendia a dita alexitimia como um sintoma da idade do paciente. Bergès observou que existia uma boa chance de que meu paciente não fosse muito diferente quando era jovem.

A velhice não é um tipo de personalidade e, se for um transtorno, seria reativo: o jeito de cada um reagir à perda da identidade profissional (que pesa desde a aposentadoria), à sensação de uma maior proximidade da morte, ao luto do casal e dos amigos, que vão morrendo, à perda da saúde (nem tanto pela chegada de uma grande doença quanto pela síndrome do carro velho, que começa a dar uma encrenca atrás da outra), à perda da autonomia (com necessidade de ter assistência ou de viver num quadro comunitário) etc. A lista é longa.

A reação a essas perdas, muito mais do que a idade, define o que é a velhice avançada. Há o idoso que se deprime, há aquele que se angustia, e quase todos começam a delirar. O idoso tem boas razões para ser paranoico.

Começa com a constatação de que, em tese, ele vai morrer antes dos outros: o que significa que os mais jovens o empurram para a saída. Passa pela sensação de que ele está sendo roubado por aqueles que ficarão com suas coisas (a casa e o relógio, por exemplo). E acaba na necessidade de se mostrar sempre desconfiado: não me deixo enganar significa, no caso, “ainda não estou morto”.

As mesmas razões que alimentam a paranoia do idoso produzem sua falta de interesse na vida dos outros. Frequentemente, conversar com um idoso é um exercício de humildade. O que a gente diz tem pouca importância, e o interesse do idoso é fingido –como se nada pudesse se comparar ao drama da vida dele que está acabando.

Agora, eu gosto dos idosos e de sua companhia, mas admito que esses meus “bons sentimentos” sirvam sobretudo a esperança de ser eu mesmo amado (e amável) quando serei idoso. Concordo, não vai ser fácil.

O idoso somos nós amanhã. Mas no sentido oposto ao que acontece com as crianças; sonhamos que as crianças venham a ser tudo o que queríamos ser e não fomos, enquanto o idoso é o fruto de uma espécie de idealização negativa: ele é o que não gostaríamos de vir a ser, é o retrato de um declínio que preferiríamos evitar.

Será que a grande idade, então, não traz nada de bom? O que há de interessante na experiência do idoso? Além do luto antecipado de si mesmo, além da sensação de superfluidade em fim de linha, além de um certo nojo de si e de um corpo que falha, além da desconfiança (vocês não me matarão e descartarão enquanto durmo)”. Não há nada que preste?
Em outras palavras, será que existe um jeito “legal” de ser idoso? Será que as perdas podem trazer algo diferente do ressentimento e do luto? Será que pode valer a pena viver até lá?

Gostei da última cena do filme de Le Guay. Justamente porque acho que deve ser possível envelhecer até ser idoso “pegando leve”. Explico.

Há um clichê que pergunta sempre como podemos viver sabendo que logo iremos morrer.

A velhice avançada poderia ser o momento em que a gente descobre que talvez esse clichê possa e deva ser subvertido, com a sabedoria que a grande velhice traz: saber que vamos morrer não impede de viver –ao contrário, só é possível viver com leveza quando sabemos que logo a vida vai acabar. Essa é a sabedoria do idoso.

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2 Comentários

MaGrace Simão 22 de agosto de 2016 - 15:54

Há já algum que isso não me incomoda mais. Vou morrer como tudo no Universo morre como as estrelas. Mas até que isto aconteça vou levando bem minha vida com leituras fantásticas que ando fazendo e vendo filmes também fantásticos. Leve muito leve e com bom humor. E nunca me esqueço do livro de Simone de Beauvoar (aí a velhice: não me lembro como se escreve o nome dela) “Todos os homens são mortais” com a angústia de um homem que não morre. E olha que aguardo a morte há mais de 20 anos, quando descobri meu HIV e ainda não havia o coquetel. Se ela quiser, pode vir, só não quero sentir dor, angústia e medo.

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Ninarosa Calzavara Cardoso 20 de agosto de 2016 - 13:32

Certa vez, no começo da epidemia de AIDS, participei como profissional de saúde de uma oficina sobre sensibilização para a morte. O instrutor fez uma dinâmica cuja conclusão foi que o bom da vida é que um dia ela acaba. Realmente acho que se tivéssemos toda a eternidade para viver, a vida se tornaria um peso.

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