Só Sílvio Santos não envelhece – Luiz Ruffato

Por Maya Santana
Silvio Santos

“Compreendi que não há suavidade no curso do tempo”

Rememorando os tempos de infância e juventude, o escritor Luiz Ruffato escreveu esse texto forte, verdadeiro e melancólico, publicado pelo jornal El País.

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Almocei, no fim de semana, com um casal de amigos que há muito não via. E, como acontece em reuniões desse tipo, após falarmos de assuntos relativos ao presente (a filha deles embarcava para um intercâmbio no exterior), passamos a evocar coisas e gentes do passado, da época em que levávamos e buscávamos as crianças no jardim de infância. E um clima de alegre conivência se instalou à mesa, conivência de pessoas cujos caminhos se entrelaçaram um dia, marcando a ferro recordações comuns.

Voltei para casa melancólico. Afinal, nesses momentos, para além da satisfação do reencontro, ata-nos um peso às costas, como se os ombros suportassem o mundo. Repassei então os vários rostos sem nome e nomes sem rosto daquele período, procurando identificá-los no caos do calendário da memória, que, por capricho, não obedece às regras do tempo sucessivo, mas armazena cenas e paisagens desconexas, reanimadas, em meu caso, principalmente por cheiros e ruídos. E mergulhei na areia movediça das lembranças.

Num átimo, estava novamente em Cataguases, vestindo um corpo magro e pálido, o rosto vulcânico, triste como são tristes as manhãs de domingo de quem não tem ninguém para cuidar. Adolescente, percebia os sutis rastros do tempo nas flores que murchavam quando colhidas, no lento tiquetaquear dos ponteiros do relógio-despertador – percorridos os anos, no entanto, compreendi que não há suavidade no curso do tempo, ele é como as águas turbulentas de um rio, que arrastam todos os que vão peregrinos às suas margens.

Curiosamente, não foi a morte que me revelou a finitude de tudo. De quando em quando, partia alguém conhecido, por doença, acidente ou cansaço, jovem ou idoso, mas tratava-se de fato transcorrido dentro da normalidade da vida, que não tem sentido algum. A morte não me assustava ainda, talvez por não sabê-la cruel, injusta e arbitrária. A morte interrompia uma conversa, uma viagem, uma trajetória – mas ocorria longe de meus olhos, no silêncio dos hospitais, na solidão das estradas, nas profundezas da noite. Trágica, porém distante. Clique aqui para ler mais.


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1 Comentários

lisa santana 29 de agosto de 2014 - 16:30

Este texto é soturnamente bonito.

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