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Sobre amor e intolerância

Por Maya Santana

Do filme Órfãs da Rainha,  de Elza Cataldo, em fase de captação de recursos

Do filme Órfãs da Rainha, de Elza Cataldo, em fase de captação de recursos

Elza Cataldo –

Ás vezes me pergunto a razão de trabalhar durante anos, com dedicação e paciência, no projeto “As Órfãs da Rainha”. Escutando de captadores, possíveis patrocinadores e distribuidores, que no Brasil não tem mercado para obras audiovisuais destinadas a adultos exigentes, com requinte estético, gosto pelo conhecimento e atração pelo entretenimento de qualidade. (Salvo algumas interlocuções parceiras, que, felizmente, tenho encontrado).

Primeiramente, porque não acredito nisso. Acho que essa é uma premissa muito perigosa que pressupõe uma plateia obtusa, sem interesse pelo seu país e, principalmente, sem sensibilidade. Ela nos rebaixa a selvagens ou idiotas. E significa um atentado à diversidade inerente ao cinema. Não, certamente não concordo com essa premissa.

Além disso, ao narrar a trajetória de três irmãs no século XVI, o projeto contribui, espero, para o resgate da história das mulheres no Brasil. Uma história ainda pouco conhecida. É comovente descobrir um rol de personagens fantásticas completamente esquecidas. Embora esteja trabalhando com ficção, a pesquisa histórica foi meu alicerce.

Por outro lado, porque acredito que o tema abordado pelo projeto encontra eco, tristemente, no contexto atual.

Ao abordar a chegada da Inquisição no Brasil, “As Órfãs da Rainha” nos transporta para a aurora brasileira quando mecanismos de confissão e denúncia foram instaurados pelo Santo Ofício, inaugurando uma época de medo e punição. Medo dos inimigos e dos amigos. Medo dos desafetos e dos amores. Medo dos estranhos e dos próximos. Medo dos filhos e dos pais. E, para todos, a punição dos poderosos.

Ao instituir uma perseguição sem direito de defesa, a Inquisição abre suas sombrias portas para acusações infundadas e confissões levianas. Por um intenso repúdio à alteridade, provocaram igualmente a fúria inquisitorial judeus, bígamos, homossexuais, blasfemos, feiticeiras e “hereges”.

Ao perceber indícios de intolerância nos tempos atuais, não podemos deixar de nos remeter ao quadro já pintado no século XVI. Entretanto, ao contrário daqueles tempos, vamos esperar que hoje sentimentos amorosos possam nos salvar das trevas.

Triste de uma nação que não permite a palavra livre, o sentimento leve e os vínculos entre diversos. Tristes de nós, que não escutamos o que nos tem a dizer Fernanda Montenegro, Chico Buarque e Marília Pera. Com respeito e gratidão.

E, finalmente, trabalho com afeto no projeto “As Órfãs da Rainha, por acreditar em relações amorosas, familiares e comerciais que não transformam a diferença em motivo de discriminação ou fonte desigual de poder. Clique aqui para saber mais sobre “As Órfãs da Rainha”.

Elza Cataldo é cineasta

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1 Comentários

Sonia Penna 15 de janeiro de 2016 - 12:04

Maya,
tenho muito carinho por você e vi como uma grande possibilidade o seu blog e pagina no Face.
Gostaria de ver mais materias voltadas para a saude e bem viver. Entretanto acho está ficando muito politizado e como a maioria dos mais velhos está furiosa com a situação economica e a corrupção, você não ganha muito em politizar seu blog. Precisamos de alguns oasis para beber aguá sem encontrar rancores e interpretações.
Chico Buarque está tendo atitudes políticas ostensivas de apoio a Lula e Dilma. No mais , sempre foi ouvido com devoção pela nacão brasileira, assim como Fernanda. Eles são artistas e não analistas poliíticos. Não podemos querer que os “famosos” sejam capazes de tudo, até de dar palpites publicos em governos.
Beijo carinhoso e suprapartidario.

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