fbpx

Somos todas filhas, netas, bisnetas… de Simone de Beauvoir

Por Maya Santana

"Seria muito bom menos ignorância e mais respeito"

“Seria muito bom menos ignorância e mais respeito”

Elisa Santana –

De quem foi a feliz ideia de trazer a baila o nome de Simone de Beauvoir para a redação do ENEM? Aposto que foi de uma mulher. Ou tomara de um homem. Será? Até hoje, dado que coisas, pessoas e assuntos são voláteis nos tempos atuais, ouço falar no assunto e falar das idéias feministas da francesa, faz a mesa pegar fogo. Ótimo, sinal que temos lenha pra queimar quando o assunto é a mulher, “esta espécie ainda envergonhada”(?) e tudo que gira em torno dela.

No Comecinho dos anos 80, então com 22 anos, deixei o quintal da minha casa e me mudei pra capital “inocente, pura e besta”, mas cheia de curiosidade. Um mundo novo se abria: A mudança para um apartamento, a cidade, que naquela época já havia se configurado hostil e desumana, o teatro que já me dava guarida, os novos amigos , as novas idéias, a universidade … Eu que sempre gostei de ler, achei na estante da minha irmã, também recém- formada jornalista, dois tomos de um livro intitulado O Segundo Sexo – Fatos, Lendas e Mitos e Experiência vivida, de uma autora francesa , na época desconhecida para mim, chamada Simone de Beauvoir.

O primeiro tomo falava do papel da mulher através da história, contada por homens diga-se de passagem, e o segundo as experiências que ela, a autora, viveu e vivia como filha da história e da sociedade da época. E, de cara, me chamou a atenção a frase que, contextualizada ou não, me soava ambígua: “Não se nasce mulher, torna-se.” Bom, se nos livros ela narrava o papel que a sociedade, seja através da história ou no dia-a-dia dava a mulher, na vida real eu comecei a fazer a pergunta : Que mulher eu sou, já que mulher poderia ser um tornar-se para a sociedade ou para mim?

Vinda de uma família mineira, católica, interiorana, conservadora, onde a mulher é um ser de casa e o homem um ser da rua, isto me foi um choque irremediável. Já estava desterritorializada: morava fora da casa de meus pais e fazia teatro. Se deixasse que a sociedade escolhesse por mim, seria só mais uma mundana, uma vagabunda, afinal nos idos de 80, quando as mudanças do mundo ainda eram pouco sentidas, ser atriz para o Brasil da maioria, seria a pior escolha que uma mulher “de bem” poderia fazer. Em relação aos homens, ouvia muito de minha mãe, que teve 12 filhos, a fala: “Homem é assim mesmo, minha filha, tem que ter paciência”. E ela conseguiu manter uma relação conjugal de 58 anos com meu pai. Mantendo-se e mantendo-nos sob o pensamento de que o homem é o cabeça da casa e a única função dela era criar os filhos. O que não foi pouco, mas ela foi a mulher que o tempo dela permitiu.

O tempo anda, o tempo muda e cada tempo tem a sua sabedoria. Nos tempos de hoje, é pura hipocrisia a tentativa de manutenção do poder dos nossos governantes – quase todos homens – das igrejas, das cabeças tacanhas e pouco corajosas das muitas mulheres que sustentam o pensamento reinante da desigualdade humana da mulher no mundo. A mulher na sua maioria, principalmente a brasileira, ainda ignora sua história e morre de medo de criar uma nova. O conforto de um lugar conhecido é convidativo. Por puro medo ou conveniência, ela mantém e conserva muitas das vezes, uma roupa que não lhe cai bem. Eu tenho uma amiga que um dia me fez a seguinte observação: ”A merda é merda, mas é quentinha”.

Nada segura as mudanças que o tempo e as necessidades pedem. Estamos no tempo da homo, bi, tri, trans, da pan sexualidade e por aí vai. Para o bem e para o mal, nisto vão junto mulheres e homens. Conservadores, machistas, misóginos, homofóbicos, caiam duros! Como de Eva, Maria, Joana D’arc, Marylin Monroe,Leila Diniz, Betty Friedan, Marilena ShauÍ e outras tantas,somos também filhas, netas, bisnetas, tataranetas …de Simone de Beauvoir.

Portanto, atentem para o tempo e a história. Seria muito bom menos ignorância e mais respeito. E saibam, xingar a mãe não vai adiantar..

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

treze − onze =

2 Comentários

Elza Cataldo
Elza Cataldo 21 de novembro de 2015 - 12:17

Lisa, adorei o seu texto! Você conseguiu sintetizar tantos sentimentos e indignação de uma forma pessoal e ao mesmo tempo histórica. Gosto muito quando a narrativa une História e história. Parabéns!

Responder
Avatar
Beth cataldo 17 de novembro de 2015 - 21:43

Lisa, belo texto, sensível e muito atual.

Um grande abraço,
Beth

Responder