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Sou um barco a navegar nas intempéries da velhice

Por Maya Santana

Eu queria mais, mãe,  muito mais tempo

Eu queria mais, mãe, muito mais tempo

Déa Januzzi

Eu queria, mãe, segurar o tempo com mãos de ferro, para que a vida não escorra entre os dedos. , para te levar roscas cobertas de açúcar, montes de marta-rocha, bombons de licor da Lalka, cartões, mensagens e flores do campo.

Eu gostaria, mãe, que o tempo parasse – e nos teus anos derradeiros, eu pudesse te oferecer uma casa com jardins e plantações de quaresmeiras e flamboyants de todas as cores. Gostaria de ter ver, mãe, cuidando do teu imenso jardim secreto, que prolongaria a tua vida por muitos e muitos anos. Eu queria, mãe, que o tempo fosse largo, flexível, inteiramente despojado, para que eu pudesse pedir mais alguns anos dessa convivência amena que só veio no porvir da vida.

Eu queria ser dona do tempo, mãe, e parar os ponteiros do relógio nas tardes mansas em que toda a família se dirigia para a praia a brigar por espaço na areia, na casa, nas porções de comida. Eu queria, mãe, que o tempo não fosse tão inexorável e eu pudesse barganhar muitas horas a mais de alegria. Eu queria pedir tempo para que pudesses fazer mais uma centena de colchas, blusas, gorros de crochê, entrelaçando pontos e sonhos. Eu queria mais tempo, para que o doutor Li Xianhua pudesse restabelecer a tua energia vital através dos pontos da acupuntura.

Eu queria, mãe, agradecer ao padre João de Deus, da Igreja de Santa Luzia, por enviar, semanalmente, uma ministra da eucarista, para lhe oferecer a comunhão em casa. Mas confesso, mãe, preferia que comungasses mais com a vida, que pudesses deixar o apartamento para professares a fé no amanhã, nas caminhadas pelo Parque Municipal, com suas amigas Renée e Marina, como fazias há bem pouco tempo.

Mas teu corpo não responde mais, estás velha, mãe. As tuas rugas tomaram conta de tudo. O coração está flácido, as pernas não respondem mais aos chamados, às ordens das caminhadas. Não sabes mais se vais levantar no dia seguinte, depois de teres notícia da partida de outros amigos. Oh, mãe, se caíres, irás ficar no mesmo lugar por horas, até que alguém resolva abrir a porta e te encontrar perplexa, no mesmo lugar, com urgência de levantar. Mas precisas de um braço, de uma bengala, para escorar a tua velhice trôpega. Estás muito distante do mundo lá fora. Que luxo é esse, mãe, de não ter que fazer nada direito? Que privilégio é esse de falar o que quiseres? Para que pressa, mãe, se tens o dia inteiro pela frente?

Ah, mãe, estou diante de ti. Sou náufraga do tempo. Meu barco é a eternidade, a navegar nas intempéries da velhice. O que posso fazer por ti? Oh, mãe, preciso do teu colo, mesmo que árido, mesmo que semeado de rugas. Preciso do teu afeto que não envelhece nunca, preciso do teu olhar de admiração e respeito, preciso da tua consideração. Permaneça junto de mim por mais um tempo. Oh, tempo ingrato que vai travando o teu corpo, que vai oficializando o mistério da vida. Oh, mãe, fica mais um tempo junto de mim.

Preciso de ti, mãe do mundo, me acolha nos teus braços, me dê colo. Deixa que eu sugue o néctar da vida, a porção mágica do amor, deixe que eu experimente o auge do sabor, a tua seiva, o fruto desta árvore frondosa. Deixa, mãe, que eu prove o tempero dos teus 90 anos. O recheio do bolo vital que tem sabor de corte.

Oh, mãe, preciso correr contra o tempo.
Preciso te congelar no tempo.
Preciso congelar o tempo.
Preciso de mais tempo.

Esta crônica da jornalista e escritora Déa Januzzi foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas com o título de Túnel do Tempo.

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7 Comentários

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Judy 1 de novembro de 2015 - 12:06

Foi muito bom reler esta crônica Déa. Hoje fazem seis anos que o meu parceiro partiu.
Grande abraço, Judy

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REJANE LARA 5 de novembro de 2014 - 15:18

Á mãe q já não tenho a saudade q não dá trégua, nem tempo ameniza, se faz maior a cada dia, a cada cheiro de roupa lavada, abraço cheio de farinha, sorriso meio represado, solução automática p tudo….Ah! mãe q foi p o céu voar sem asas, mas faz revoadas plenas em minha alma, mãe minha q passeia na chuva q meus olhos teimam em derramar q toda e qualquer hora, mãe que navega minhas veias num sangue guerreiro, que nunca se recolhe, sempre enfrenta tudo…Não! Quase tudo, me falta a nau e o remo p navegar a saudade que você deixa impregnada em mim em cada acordar há mais de cinco anos….

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veraluciasantosellwanger 4 de novembro de 2014 - 21:22

Nossa, que linda mensagem..Eu ainda tenho minha mãe de 92 anos e lúcida,espirito jovem e duma simpátia,de bom humor,de uma saúde invejavel depois de uma vida de tanto trabalho…Deus abençoe e a proteja por o tempo que o senhor achar que ela deva partir..sem dor e um momento tranquilo e Feliz de deixar seus filhos que tanto ama..

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Elcina Belous 4 de novembro de 2014 - 21:20

Lindo texo,ñ conheci minha mãe, mas sinto saudades dela….amei,parabéns e obrigada

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stael 4 de novembro de 2014 - 18:36

Como sempre…….leitura obrigatoria, pura emoção!

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Dirce Saleh 2 de novembro de 2014 - 00:34

Eh ,Dea com esta crônica você bagunçou meu tempo de esperança. As mães são assim como descreve Se pudesse a gente gostaria mesmo de segurar o tempo delas ,tem razão e penso que quem leu seu texto deve ter sentido como descreve Ele é a foto do tempo de uma mãe que chega nesta idade ,tão doce , tão terna.
Mas um dia a gente entende porque as mães se vão rs! Pois vamos nos parecendo com esta fase que descreve tão lindamente Ai, querida , entendemos esse tempo delas, pois o nosso vai substituindo essas imagens .Posso lhe falar?
Que bom que o tempo não espera,pois , agora tenho a certeza que a minha deve estar ansiosa, esperando eu chegar para onde ela se foi E eu bem mais tranquila sabendo que nosso tempo se aproxima para nos abraçar e ter meu colinho de volta.
Lindo demais seu texto, muito reflexivo… Muito real.
Bjins , amiga Muita paz…Dirce saléh

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Déa Januzzi 1 de novembro de 2014 - 18:59

Ah, mãe quanta saudade de você quando se aproxima o dia de finados, mãe, como gostaria de ter você comigo outra vez, mãe. Ainda mais hoje que estou me recuperando de uma cirurgia queria você para cuidar de mim, Amélia, miinha mãe.

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