
Ricardo Bastos
Há histórias que parecem rápidas só para quem chega no final. A de Tatiana Coelho de Sampaio, professora da UFRJ desde 1995, é o oposto disso. É uma história de tempo longo, o tipo de tempo que não vira trend, mas faz obra. E é, também, a história de uma mulher 50+ que atravessou décadas de pesquisa até ver o país pronunciar, com dificuldade, uma palavra que carrega expectativa e controvérsia: polilaminina.
Tatiana não surgiu agora. O que surgiu agora foi a atenção. Ela trabalha desde os anos 1990 com a laminina e seus desdobramentos, liderando o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ). A pesquisa avançou como avança quase tudo que dá certo, com hipóteses, repetição, frustração, pequenos acertos e muitos “ainda não”.
Em 5 de janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do uso da polilaminina em humanos. O desenho previsto é pequeno, cinco pacientes, com lesão medular aguda, com indicação cirúrgica em até 72 horas. A agência também foi explícita, essa fase não permite avaliar eficácia. O foco é segurança, monitoramento de eventos adversos e decisão sobre a viabilidade de avançar.
O dado técnico importa, mas ele não explica o coração da personagem. O que chama atenção, especialmente para quem vive a maturidade sem precisar de moldura, é a disciplina de sustentar um projeto quando o país oscila entre euforia e abandono. A maturidade, nesse caso, aparece como método. Não como pose. A maturidade que observa, registra, aguenta a demora, faz o que precisa ser feito, volta no dia seguinte.
Uma mulher 50+ na ciência brasileira não carrega apenas uma agenda de trabalho. Carrega o peso das interrupções. Carrega a exigência de provar de novo o que já provou. Carrega o desafio de liderar equipes, formar gente, manter laboratório vivo, criar projetos, negociar prazos, lidar com burocracias, e ainda seguir curiosa, porque ciência sem curiosidade vira rotina sem descoberta.
Essa persistência não tem nada de romântico. Ela tem corpo. Tem cansaço. Tem conta. Tem planilha de reagente. Tem reunião em que o “não há recurso” vira frase repetida. E tem uma espécie de fé que não depende de religião: fé no processo. Fé no trabalho bem feito. Fé no aprendizado acumulado. Fé no que se constrói quando se recusa o atalho.

A trajetória acadêmica de Tatiana ajuda a entender essa combinação de chão e ambição. Ela fez da graduação ao doutorado na UFRJ e realizou estágios de pós-doutorado fora do Brasil, nos Estados Unidos e na Alemanha. Essa experiência tem um efeito prático: ela conhece padrões internacionais de pesquisa e sabe o tamanho da régua. Ainda assim, construiu a carreira aqui, dentro de uma universidade pública que forma gente e produz ciência mesmo quando o ambiente parece adverso.
A polilaminina, por sua vez, também diz algo sobre paciência. Não se trata apenas de “ter uma molécula”. Segundo a Anvisa, a formulação em teste usa laminina extraída de placenta humana e o mecanismo de ação ainda não está totalmente esclarecido. Em outras palavras, existe promessa, existe hipótese, existe histórico, mas também existe um caminho regulatório e científico que precisa ser percorrido com calma.
Esse é um ponto delicado, e Tatiana virou personagem justamente porque o tema envolve uma esperança intensa, voltar a mover o corpo depois de ficar tetraplégico.
Há também um aspecto pouco lembrado quando se fala em “descoberta”, a descoberta quase nunca é solitária. A Capes explica que, nos anos 2000, bolsas e apoios ajudaram a viabilizar etapas iniciais, incluindo testes conduzidos no exterior por pesquisadoras ligadas ao grupo. É o tipo de detalhe que devolve a ciência ao seu tamanho real, uma construção coletiva, com orientação, equipe, formação, e continuidade.
Para o 50emais, Tatiana interessa por isso. Não apenas pelo que a polilaminina pode vir a ser, e aqui cabe sempre o verbo “pode”. Ela interessa porque representa um modo adulto de existir no trabalho: o modo que troca a ansiedade do resultado pela constância do caminho. O modo que valoriza a evidência sem desrespeitar a esperança. O modo que não precisa de holofote para seguir produzindo.
Há um traço de determinação nessa história que conversa diretamente com o nosso público. A mulher que chega aos 50 e 60 costuma ter colecionado recomeços, ter protegido filhos, pais, carreira, saúde, finanças, relações, às vezes tudo ao mesmo tempo. Ela conhece o peso da palavra “manter”. Manter um projeto, manter uma equipe, manter o foco, manter a cabeça erguida quando o ambiente muda. A ciência de Tatiana, com seus prazos longos, é um retrato desse “manter”.
O analista Bruno Drummond, que perdeu completamente o controle de braços e pernas aos 23 anos após um acidente de trânsito, voltou à rotina e frequenta a academia após passar por um tratamento experimental com Polilaminina.(@bfdrummond).
E há, sim, sonho. Sonho não como fantasia, mas como direção. O sonho que move uma pessoa a repetir o experimento mais uma vez, a insistir na pergunta, a recusar o “deixa pra lá”, a se comprometer com um trabalho que pode atravessar a própria juventude e chegar maduro. O sonho que não grita, mas sustenta.
A partir daqui, a história exige o mesmo que ela sempre exigiu, rigor. O estudo autorizado é o começo de uma etapa clínica regulada. Ele não entrega final feliz, nem derrota. Ele entrega dados. E dados, quando bem coletados, protegem pacientes e também protegem a própria pesquisa de virar promessa vazia.
Se a polilaminina um dia se confirmar segura e eficaz, o Brasil terá uma conquista importantíssima. Se não se confirmar, a história ainda fica de pé, a de uma cientista 50+ que fez da maturidade uma ferramenta de trabalho. E, em tempos de pressa, isso é uma forma de coragem.
Entrevistada pelo programa Sem Censura, da TV Brasil, Tatiana explicou como a polilaminina age na recuperação dos movimentos em casos de lesão medular:
Tatiana Coelho de Sampaio não é “a esperança” de ninguém. Ela é uma pesquisadora. E talvez seja esse o retrato mais forte que a gente possa oferecer, uma mulher que não vende atalhos, não se deixa reduzir a slogan, e segue fazendo o que sempre fez, trabalhando com seriedade, no ritmo em que a realidade permite, para aproximar um sonho do mundo em que vivemos.
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