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Tempo de aposentado não é feito para ficar na fila

Por Maya Santana

Com as medalhas de ouro que ganhou recentemente no Canadá: tratada burocraticamente

Com as medalhas de ouro que ganhou recentemente no Canadá: tratada burocraticamente

A filha, Cora Rónai, transformou as queixas e angústias da mãe, Nora Rónai, campeã de natação aos 90 anos, em uma crônica, publicada nesta quinta-feira em O Globo. Fico satisfeita ao ver alguém como Cora, jornalista e escritora respeitadíssima, trazer a público o que todo mundo sabe, mas nada é feito para mudar a situação: os velhos brasileiros são tratados pelos bancos como se fossem trastes, coisa inútil. Sou uma pessoa com mais de 60 anos. E sempre me aborreço quando vou a banco, principalmente, pelo tempo que me fazem esperar.E, muitas vezes, pela má vontade explícita, como é o caso de Nora. Ela reclama também de outras burocracias que infernizam a vida do velho.

Leia o relato:

Não é normal achar que o tempo dos aposentados foi feito para ser gasto nas filas.

“Você já reparou como todo mundo tem prazer em chatear velhinhos? — perguntou Mamãe.

— Não exatamente… O que foi que aconteceu?

— Você sabe aquele cartão que a gente recebe para andar de ônibus? E se lembra que, há um tempo, o meu cartão perdeu a validade, e que tive que ir lá pra caixa-prego para renová-lo? Pois aconteceu de novo. Entrei no ônibus, e o cartão não valia mais. O motorista e o trocador foram gentis, me disseram que isso acontece o tempo todo, me mandaram descer pela frente e pronto. Mas o que é que o governo está pensando? Que a gente fica mais nova com o passar do tempo? Dizem eles que fiquei três meses sem usar o cartão. E daí? É normal que isso aconteça com uma pessoa que não dá mais expediente no trabalho, que resolve tudo perto de casa a pé, que pega um táxi aqui e uma carona ali. O que não é normal é achar que o tempo dos aposentados foi feito para ser gasto nas filas de uma administração incompetente! Isso é maldade pura, mandar velhinhos para a fila só por mandar.

— Aí fui ao Banco do Brasil — continuou Mamãe. — Precisava tirar mais dinheiro do que o limite permitido pela máquina, e fui ao caixa, que pediu a minha carteira de identidade. Mostrei a carteira de habilitação, ele olhou e disse que estava vencida. Respondi que estava vencida para dirigir, mas não como prova de que eu sou eu, que era o que ele precisava. Ele empurrou a carteira de volta e disse que não adiantava, que eram ordens do banco. Mostrei então a carteira de identidade. Ele olhou e, com um tom de triunfo na voz, disse que também não servia, porque era xerox. Eu expliquei que sou alvo fácil para assaltantes, e que se me levarem os documentos vou ter que passar por uma verdadeira via-crúcis para tirar segunda via, mas ele só sabia dizer que eram ordens do banco e que ordens são ordens. “Espera, espera”, pensei com os meus botões. “Um dia você também vai ser velho…”

— E como você fez com o dinheiro?

— Fui para o outro banco e lá tirei o que precisava, sem qualquer problema.
Essa conversa aconteceu na terça-feira, quando liguei para me despedir da Mamãe, que viajava na quarta para Foz do Iguaçu para participar de um campeonato de natação. Perguntei se estava tudo OK para a viagem.

— Tudo em cima. As malas já estão prontas, já até guardei a passagem e o passaporte na bolsa.

— Passaporte? Pra quê? Você está indo ali na esquina!

— Ah, não quero facilitar não. Já vi que esse negócio de carteira não funciona.

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1 Comentários

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lisa santana 18 de setembro de 2014 - 17:24

Ótima crônica. E daqui a pouco seremos um país onde haverá mais velho que jovem. Eu sempre penso quando é que devemos mudar os paradigmas do envelhecer no país da juventude eterna.

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