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Tenho o direito de voar enquanto tiver asas

Por Maya Santana

Dali_purgatorio_o-reino-dos-penitentes

Déa Januzzi

Sabe o que está me incomodando nas pessoas e no meu sentimento do mundo? Aos 60 anos, com quase 40 de jornalismo na redação do jornal Estado de Minas, sempre me preocupei em aprender, em ouvir os entrevistados e transmitir o melhor deles e também de mim. Nos anos 1970 vivi a ditadura, participei do III Encontro Nacional dos Estudantes, fui barrada pelo Exército, corri dos soldados, mas fui parar na Igreja da Boa Viagem, onde padre Bartolomeu abriu as portas para mim e para os estudantes em fuga. Fiz um dos melhores textos da ditadura sobre o padre Bartolomeu.

Depois, vivi os anos 1980 engajada na luta dos meninos de rua. Conheci o irmão Mesquita, um salesiano que falava a minha linguagem sem que eu me preocupasse em mostrar pra ele o quanto eu sabia. Como fonte, irmão Mesquita me levou para as ruas, onde falamos a língua do pê com os meninos de rua, que estavam marcados por cigarros apagados em suas costas e braços.

Conheci o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa que, na época era presidente da Febem e dizia que essa instituição era o AI-5 do menor. Com Antonio Carlos chegamos ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Depois aos projetos de responsabilidade social, ao mesmo tempo em que aprendia com meu mestre do jornalismo Roberto Drummond. Lembro-me que ele lia algum texto meu que não gostava, rasgava a lauda e me dizia que eu tinha capacidade de escrever melhor. Um tanto zangada, mas em silêncio eu reescrevia. Até que um dia ele me deu de presente a ideia da coluna Coração de Mãe, cujos leitores se identificaram como se fosse a oração de domingo.

Aprendi com cada companheiro de trabalho. Aprendi com Magui sobre o sagrado feminino. Aprendemos a conversar uma com a outra, sem julgar, sem pré-conceber. Estabelecemos papo de coruja e não de maritaca.

Sempre fui livre,apesar do feminismo, que também abracei. Nunca precisei casar para ser aceita pela sociedade, nunca investi em homem algum, nunca formei capital com matrimônio.

De alternativa, eu sempre tive um pouco desde os acampamentos selvagens aos organizados. Dormi em sleeping bag em Ouro Preto, conheci as performances de Julian Beck e Judith Malina. Tomei banho de cachoeira sem roupa, desnudei a minha alma e até hoje carrego o manto das minhas cicatrizes.

Mas hoje não sei o que fazer, estou perdida, todo mundo tem um tanto de coisa pra dizer e eu me calo. Todo mundo sabe tudo. Ninguém quer ouvir o outro. Ninguém sabe o que é o silêncio. Todo mundo quer ensinar, sem perguntar se você, pelo menos, conhece o assunto.

O que me incomoda às vezes é essa certeza das pessoas que se acham no direito de dizer que tem que ser assim ou assado, que eu estou dispersa. Elas não sabem que eu tenho o direito de voar enquanto tiver asas. Eu acredito no sonho e não na lógica irracional dos seres humanos atuais. Prefiro estar na pele de Frida Khalo, do que na de uma estrela bem-sucedida de Holywood. Dinheiro é ótimo, mas se eu gostasse tanto dele assim, já estaria rica.

Depois que resolvi me afastar do emprego formal, me vi diante de um muro de Berlim, porque a única coisa que me dá prazer, que eu gosto, minha querida amiga, é escrever, mas com poesia, com lirismo, com paixão e emoção. Estou naufragando em mar revolto.

Nunca estive tão serena quanto às minhas decisões, mas preciso fazer uma outra revolução – a do envelhecimento, com a sustentabilidade dos velhos que são árvores frondosas, mas correm o risco de ser exterminadas com as serras elétricas da vaidade e do egoísmo;

É isso que eu queria dizer sobre o meu momento. Não quero mais encontrar o homem da minha vida, mas as parcerias certas para essa etapa nova da existência, que tenho certeza com as pessoas certas vai florir em breve nesse jardim de incertezas.

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8 Comentários

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Regina Célia Coelho 16 de novembro de 2015 - 07:51

Déa,
Conheci você por meio de minha irmã Genoveva, que sempre me mandava recortes de jornal dos textos de “coração de mãe”…como canceriana nata ainda guardo alguns até hoje…realmente, como disse minha irmã, vocês tem muito em comum…amei o texto, a sinceridade que sempre coloca em suas palavras é coisa de fundo de alma…Dia abençoado prá ti…bjim

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Mariza Raidan Winter 16 de novembro de 2015 - 01:26

Olá Dea… Gosto muito dos seus escritos… Senti muito quando deixou de fazer o “coração de mãe”… falava por mim!!!

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Genoveva 15 de novembro de 2015 - 21:29

“Mas hoje não sei o que fazer, estou perdida, todo mundo tem um tanto de coisa pra dizer e eu me calo. Todo mundo sabe tudo. Ninguém quer ouvir o outro. Ninguém sabe o que é o silêncio. Todo mundo quer ensinar, sem perguntar se você, pelo menos, conhece o assunto.”

“Nunca estive tão serena quanto às minhas decisões, mas preciso fazer uma outra revolução – a do envelhecimento, com a sustentabilidade dos velhos que são árvores frondosas, mas correm o risco de ser exterminadas com as serras elétricas da vaidade e do egoísmo;

É isso que eu queria dizer sobre o meu momento. Não quero mais encontrar o homem da minha vida, mas as parcerias certas para essa etapa nova da existência, que tenho certeza com as pessoas certas vai florir em breve nesse jardim de incertezas.”

Dea,
As vezes até me assusto com quanta coisa ou maneira de pensar temos em comum …
Mais uma vez fico impactada com suas palavras que traduzem aquilo que penso, que sinto e na verdade vivemos algumas coisas semelhantes. Como é bom que alguem consiga verbalizar por mim!!!
Abraço de Genoveva

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Dirce Saleh 17 de novembro de 2014 - 12:13

Bom dia Déa Januzzi
rsrs!! Comigo por aqui , nunca estará só. Aqui encontra o velho que procura para fazer sua outra revolução Te apoio e estou com você nesta .
Estou na lista de espera ,mas não permito que me cortem, quero ser sua parceira, amiga, até o momento da minha passagem Antes quero participar de seu florir, desse seu momento lindo… E vivenciá – lo intensamente e se for meu último projeto de vida ,meu momento de partida vai ser lindo. Perfumado, colorido, alegre , assim que o precinto.
Sucesso…
Bjins,Dirce Saléh

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Laire Leão 16 de novembro de 2014 - 16:48

Gratificante, vc poder ler uma crônica q/ nos fala ao coração, hj lemos tanta coisa q/ não fala nada de bom e útil. Parabéns, continue nos brindando!!!!

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Carlos Cunha 16 de novembro de 2014 - 14:09

ASAS PARA VOAR. A Escritora cita Roberto Drummond e fala das asas que servem para voar para além dos limites da mediocridade. O Escritor ama a arte de escrever e deixa pegadas nas areias a beira mar. No coração das montanhas os pássaros voando sobre a copa das árvores e o Sol beijando as nossas janelas no clarão da aurora. No pranto da memoria conservo a Rua Goiás, era ali o inicio do nosso cais onde o barco da nossa existência descansava. Eu Carteiro e você Poeta, e era uma festa repetir teus versos e beijar a minha menina tão apaixonada. Notáveis são as cartas dos carteiros e incomparáveis são certas poesias e para a nossa alegria a vida reina no coração da Escritora que conserva na memoria as muitas historias que dão cor e sabor as nossas memorias. Como abandonar o Poeta e o Carteiro que vive dentro de mim. Ele sempre sussurra em meus ouvidos e diz: Filho é assim que se faz! Ontem encontrei Roberto Drummond na Savassi. Ele esta vivo nos versos que escreveu e uma imagem fala mais que mil palavras. O Artista Reproduziu Roberto numa linda obra de arte que nos remete o Poeta dando suas passadas na direção da Praça da Liberdade. A vida é esta subir Bahia e descer floresta. Enquanto descia Bahia encontro com o Poeta subindo Floresta. Evito descer a João Pinheiro, pois tenho a impressão que meu coração vai querer seguir as pegadas do Poeta. Além do céu azul ouvi dizer que há uma linda festa, mas amo estas ruas de barros e estes homens de barros. A mim consola o ouro destas lembranças e ouro destas mansões celestiais pode esperar. Afinal a arte de escrever e a arte de amar nos da asas para voar.

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magdala ferreira guede 16 de novembro de 2014 - 09:10

Belo,comovente,poético e fala da dor de uma geraçao que viveu e esteve em dia com a vida.
Parabéna Déa,vc é um acervo do jornalismo.
Você é uma luz que brilha no caos.
Você fala por todas nós ,mulheres da década de 50 que se encolhendo por nao ter onde falar e voar.
Parabéns!

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Monica 15 de novembro de 2014 - 20:24

Linda reflexao!

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