Terra arrasada não é suficiente para definir cenário em Mariana

Por Maya Santana
Vista geral do distrito Bento Rodrigues,  em Mariana no dia 5 de novembro  (Fotos: Victor Moriyama/Greenpeace)

Vista geral do distrito Bento Rodrigues, em Mariana no dia 5 de novembro (Fotos: Victor Moriyama/Greenpeace)

O texto que você vai ler abaixo é um relato minucioso, feito pela organização ambientalista Greenpeace, do rastro de destruição, do cenário de tragédia deixada pela lama produzida pelo rompimento das barragens da mineradora Samarco na histórica cidade de Mariana – primeira capital de Minas, a apenas 10 km de Ouro Preto. Embora o desastre tenha ocorrido – 5 de novembro – há mais de 10 dias, ainda não se pode prever o total dos danos causados. Sabe-se, no entanto, que os prejuízos ao meio ambientais são gigantescos. “O fluxo de nutrientes de toda a cadeia alimentar de 1/3 da região sudeste e o eixo de ½ do Oceano Atlântico Sul está comprometido e pouco funcional por no mínimo 100 anos”, denunciou o biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES). Segundo ele, houve um “assassinato da quinta maior bacia hidrográfica brasileira.”

Leia o relato da Greenpeace:

Terra arrasada não é suficiente para definir o cenário desolador que deu lugar aos distritos da cidade mineira de Mariana. Contrariando os avisos de que todos os acessos ao arraial de Bento Rodrigues, primeira comunidade a ser atingida pelo rompimento das barragens da Samarco, estariam fechados, encontramos uma estrada privada – de mineração – que nos deixou a menos de 100 metros do pequeno vilarejo.

No caminho, cenas aterradoras de enormes porções de terra totalmente lavadas pela força da lama composta de rejeitos minerais. Pesquisadores do Greenpeace levantaram que um corredor de aproximadamente 500 hectares de lama foi formado no arredores do arraial de Bento Rodrigues, o equivalente a 700 campos de futebol.

Vista geral do distrito Bento Rodrigues,  em Mariana no dia 5 de novembro  (Fotos: Victor Moriyama/Greenpeace) Antônio Geraldo de Paula perdeu duas casas na tragédia, mas sua família inteira sobreviveu (© Victor Moriyama / Greenpeace)

A estrada estava de fato bloqueada, mas não pelo Corpo de Bombeiros ou Defesa Civil, e sim pela própria lama que engolfou parte do caminho. Hora de seguir a pé. Andamos dois quilômetros em meio a um mar mole de barro até alcançarmos um morro que nos colocou frente a frente com a comunidade de Bento Rodrigues. Segundo os moradores, cerca de 80% do lugar foi devastado, restando apenas escombros e animais abandonados que vagam pela destruição em busca de qualquer alimento.

Antônio Geral de Paula, conhecido como Bem Amado, morava há 40 anos no arraial com a esposa, cunhado, filhos e neto. “Não perdi ninguém, graças a Deus. Em 10 minutos lama veio de lá a aqui. Perdi duas casas… estamos voltando para tentar pegar os bichos. As galinhas e os cachorros tão tudo lá, passando fome. Eu até entendo ter que fechar o local, mas eles podiam deixar a gente tirar as coisas de lá pelo menos. Ou fazer pelo menos um grupo de voluntários para voltar com os bombeiros”. O agricultor de 52 anos aponta para a caçamba da sua caminhonete, onde dois bezerros trêmulos de medo e ensopados de lama se equilibram no piso frisado e irregular. “Elas tavam atoladas no barro, de hoje não passariam. Por sorte a gente conseguiu salvar”. Perguntado como conseguiu escapar da enxurrada de lama, Bem Amado diz que foi o grito dos moradores que salvou ele e sua família.

Entre o morro e o arraial de Bento Rodrigues, um antigo córrego se transformou num rio intransponível de lama. Conseguimos fazer imagens de longe e um sobrevoo com o drone. Quanto mais perto chegávamos, mais a perna afundava no solo mole e mais alto gritavam os trovões da chuva que se aproximava.

Seguimos então para o distrito de Paracatu de Baixo, o segundo arraial mais atingido pela tragédia. De um lado, estrada bloqueada por uma barreira de terra. Do outro, uma ponte que foi consumida e desaparecera após a violenta lama chegar à comunidade. Novamente um cenário desolador, monotom, onde os verdes morros de Minas Gerais foram substituídos por irregulares montanhas de lama cinza. Clique aqui para ler mais.


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