
Ricardo Bastos
50emais
Outro dia, precisei trocar o refil do filtro de água de casa. Como não encontrei o manual, supondo que ele ainda exista, fiz o que todo mundo faz: peguei o celular. Parecia uma tarefa simples.
No primeiro vídeo, o sujeito dizia que era preciso fechar o registro. No segundo, isso nem foi mencionado. Um terceiro recomendava descartar vários litros de água depois da troca. Outro garantia que bastavam alguns minutos. Havia também uma discussão sobre o lado certo de girar uma peça que, até então, eu nem sabia que girava.
Em menos de cinco minutos, encontrei pelo menos seis maneiras “certas” de fazer a mesma coisa. Todas explicadas com uma segurança impressionante. Larguei o celular e deixei o refil sobre a pia. Isso acontece com frequência. A gente entra na internet querendo uma resposta e sai carregando seis certezas incompatíveis.
Hoje, há quem ensine de tudo: investimento, criação de filhos, saúde, casamento, alimentação, envelhecimento e, se sobrar um minuto, sobre o sentido da vida. Não reclamo do acesso à informação. É uma conquista enorme. O problema é o que fazemos com ela ou o que ela faz conosco.
Ler um artigo não faz de ninguém médico. Um documentário não transforma o espectador em historiador. E ouvir dois episódios de um podcast, por mais interessantes que sejam, não equivale a anos de estudo e experiência.
Mesmo assim, parece que as pessoas ficam constrangidas de dizer “não sei”. Nas redes sociais, quem hesita perde espaço para quem fala como se fosse autoridade no assunto. A dúvida soa como fraqueza. A certeza, mesmo quando vem sem fundamentação, rende mais seguidores.
Quem conhece profundamente um tema costuma dar uma resposta pouco empolgante: “Depende.” Depende de quem pergunta, do contexto, das circunstâncias e de uma porção de detalhes que não cabem em um vídeo de 60 segundos.
Isso não quer dizer que a internet seja um território ocupado apenas por palpiteiros. Há profissionais sérios fazendo um trabalho excelente e tornando acessível um conhecimento que antes circulava entre poucos. O difícil é separar quem conhece os próprios limites de quem simplesmente aprendeu a falar sem demonstrar dúvida.
A internet deu voz a quase todo mundo, e ainda bem. Mas autoridade não vem junto com a câmera, o microfone ou o número de seguidores. Ela demora. Exige estudo, prática, responsabilidade e alguma coragem para admitir que certas perguntas não têm resposta pronta.
Talvez estejamos precisando menos de especialistas instantâneos e mais de pessoas capazes de dizer, sem vergonha: “Não tenho certeza.”
Quanto ao filtro, continuo sem ter certeza também sobre como fazer. Mas o refil ainda está sobre a pia.
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