Torturante Envelhecer

Por Maya Santana
Indignidade e humilhação na última etapa da vida

Indignidade e humilhação na última etapa da vida

Déa Januzzi

Não sei se emudeço para sempre ou se faço greve de fome ou se grito para o Brasil inteiro ouvir. Não sei se denuncio, se choro até que as lágrimas limpem toda essa sujeira acumulada no coração de algumas pessoas que têm a ousadia de cometer violência contra uma idosa que vai completar 103 anos no dia 20 de julho deste ano.

Não sei meu querido amigo e fiel leitor Roberto Gonçalves, que liga para me  contar que sua mãe de 102 anos, foi espancada por durante três anos por uma cuidadora de idosos, que tem o ambíguo  nome de Dvivina, que está mais para o inferno do que para céu.

O leitor, que além de poeta e escritor é um anjo da dança, que visita os idosos em asilos para acender estrelas onde existe escuridão, jamais pensou que sua mãe poderia estar  sendo vítima de crueldade. Minha primeira pergunta para Roberto: “Como é que vocês demoraram tanto para perceber o abuso?” Engasgado, ele disse que a mãe já não fala nem anda. Está presa a uma cadeira de rodas, apesar da lucidez; mas que nas visitas quase diárias na casa da mãe, ele percebia uma nova tristeza a cada manhã, a boca caída, os olhos baixos de quem não quer mais viver.

Ele, então, abraçava a mãe, pegava em suas mãos até perceber os hematomas nos braços,  Enfurecido, magoado, perdido, Roberto cobrava das pessoas que moravam com ela, mas ninguém sabia de nada. Ninguém queria assumir o desleixo, o despreparo, a omissão diante de uma atitude que hoje dá cadeia.  Pelo Estatuto do Idoso é crime abusar moral, psicológica, fisicamente, negar cuidados e alimentos às pessoas mais velhas.

Ah, Roberto, sei que você deve estar padecendo, penando, porque até hoje ainda guardo os versos que escreveu no dia que  sua mãe, Ana Freire Gonçalves, completou 100 anos: “É nada, quase nada,. São apenas 100 anos. O que isso diante do tempo? É quase nada. Ela não veio para vestir a opulência do mundo, e muito menos para ser assediada por luzes efêmeras. Não sorriu o sorriso das estrelas que retratam um mundo de facilidade e felicidade. Outra era a sua missão”, você poetisou para a  sua mã, sem saber que, já naquela época, ela recebia tapas no rosto durante o banho, sem poder se defender, porque não tinha mais voz para gritar.

Não, Roberto, não se cale diante de tanta covardia, de tanta falta de moral e de ética. Escancare os seus sentimentos, chore, Roberto, chore, porque não há explicação, não há desculpas para o que fazem com os idosos do Brasil, prometem a vida eterna, condenando-os à solidão da doença, do desespero, do abandono. Prometem longevidade, essa palavra tão bonita e tão forte, tão sonhada pelos que ainda são jovens, porque não sabem que envelhecer no Brasil é ser condenado à prisão e torturas domiciliares. É ver que os filhos não suportam o envelhecimento dos pais.

Grite, Roberto, grite pela  sua mãe que já não tem voz para denunciar a ingratidão dos filhos que se esquivam, que deletam o passado, que consideram a velhice um fardo, um peso, um estorvo. Grite, Roberto, pela sua mãe que já pode expressar a sua dor, que não pode sair correndo de um lugar tão feio, tão obsceno, tão escuro como esse.

Chore, Roberto, chore por sua mãe que já não tem palavras para expressar tanto horror, que já tem marcas perpétuas no corpo e na alma, que já tem um hematoma no coração. Chore, Roberto, mas reaja, porque você ainda tem tempo de dar colo, de desmanchar-se de ternura diante de uma mulher que sobreviveu aos séculos e à tortura diária de estar velha e só.

Não posso dizer que o caso de sua mãe é único. Os velhos são roubados, espancados, aturdidos emocional e fisicamente. Os velhos, todos os dias, recebem doses cavalares de medicamentos para ficarem mais quietos e sem voz, para que não deem trabalho aos filhos.

Os velhos do Brasil, Roberto, estão condenados ao exílio eterno. Vivem na pátria dos marginalizados, dos abandonados, dos excluídos. Os casos de violência contra idosos representam uma enxurrada de agressões. Como  o caso da senhora de 80 anos, já em estado avançado de Alzheimer, que tinha medo de tomar banho. O que fazia a mulher que tomava conta dela? Apertava o nariz dela, para que ficasse sem ar e se aquietasse; para que ela pudesse tomar banho no silêncio asfixiante da própria existência.

Déa Januzzi é jornalista e escritora. Esta crônica foi publicada originalmente pelo jornal Estado de Minas.


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2 Comentários

SHM 30 de agosto de 2015 - 03:34

Tenho 63 anos.
Sou jovial, produtiva, alegre e feliz.
De fato em nada aparento a idade que minha certidão diz, que tenho.
Trabalhe, muito venci. Quando eu for embora o mundo ficará mais feio, as plantas morrerão.
Não haverá equilíbrio, limpeza, flores nem beleza.
Disso eu ja sei tem algum tempo.
Vc conhece a cria.
Ela grita, que é diferente de mim, que é outro ser, e de fato é mesmo.
Frauda a si própria.
Não é melhor que eu e nunca será.
Eu poderia ir embora agora. São 3:12 da manhã.
Tenho condições físicas, mentais, financeira para isso.
Nas, tolinha você ainda precisa de mim ! Pode ser que aches que seja só o dinheiro, mas não é !
Você ainda precisa de mim !
Vou te dar um tempo. Você ainda precisa de mim.
Certo, que não vou morrer antes de resolver algumas coisas.
Uma delas é que não quero morrer infeliz.
Ninguem nasceu pra ser infeliz. Eu sempre tentei viver em paz.
Quando achei problemas, eu os contornei e segui em frente.
Mas, eles eram terceiros. marido, namorado, amores, podia deixar.
Afinal sempre gostei e amei, e fui apaixonada, primeiro por mim, em Deus !
Por isso fiz muito bem minha vida. Embora digas que eu gosto de viver só, vc está enganada.
As vezes é preciso viver só. Mas, me conta quantos amigos de verdade eu tenho ?
De verdade, dezenas, e os venho trazendo lá de muito tempo ! Pões tempo nisso ! Os que ontem aqui estiveram, esbarram ha 40 exatos anos…..
Tola…punhaladas doe…mas não deprime.
Eu sei disso, não posso me conformar com isso, nem esquecer, quando amanhã vc ficar boazinha…
Não é justo m atacares do nada…hoje gravei seus gritos, sua violência, herdadas de seu pai….
Eu nunca entendi persistência de desentendimento…hoje tenho que viver com isso.
Dormir de portas trancadas, ter medo…
Eu posso ir embora…meu Deus a hora que eu quiser ! Como fiz em outros relacionamentos….
Mas, você sua tola….o que terás ? pra onde irás ???
Por um tempo terás esta casa linda…mas esta casa sou eu ! Você não dá conta de nada !
Você sabe que és um caos….talvez esta seja também um fato de desordem emocional: nunca será parecida comigo ! Será que toda essa raiva, é porque comprei sapatos ??? Porque recebi meus amigos aqui…Aqui é seu espaço… é isso ?? E o meu onde estará ?
Há muito tempo já sei… se eu perder a locomoção, a razão…puxa, sei que vou sofrer muito nas suas mãos…
Se hoje, esperta, lúcida, equilibrada, bem relacionada, inteira, esbanjando fartura e conforto, ja atrapalho sua vida….imagina mais pra frente ?? E nesse futuro, ainda terá mais um agravante: eu serei culpada de ser improdutiva, pois inútil, imprestável nunca fui ! Como nunca fui desorientada, descontrolada e agressiva. ofensiva…e nunca maltratei minha mãe.
Hoje,eu desminto o ditado que diz, que você colhe o que planta ! A gente planta flores e cores, mas há no meio da semeadura, erva daninha !
Tenha certeza, eu vou todos dias a partir de hoje, cuidar de não atrapalhar sua vida !

Responder
Mirian 6 de abril de 2014 - 13:39

Criancas e idosos sempre me emcionam.
Devemos denunciar sempre.
Crueldade sem fim.
Por que não tratam mal pessoas mais velhas, da própria idade e com a saúde perfeita?
Covardia, este eh o nome.
Triste, muito triste.

Responder

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