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Última entrevista de Dercy Gonçalves, aos 102 anos

Por Maya Santana

A artista, 102, deu esta entrevista ao Jornal Copacabana 9 dias antes de morrer

A artista, 102, deu esta entrevista ao Jornal Copacabana 9 dias antes de morrer

Há muito queria publicar aqui no 50emais esta que foi a última entrevista de uma das maiores artistas que o Brasil produziu: Dercy Gonçalves. Como Dona Canô e Oscar Niemeyer, ela foi um símbolo de longevidade: morreu aos 102 anos, nove dias depois de dar esta entrevista imperdível a Renata Moreira Lima, do Jornal Copacabana. “Tenho motivação e uma vida linda. Nunca sofri, nunca passei fome! Vivi de tudo e tive uma sorte arreganhada! Eu esqueci do passado. Vivo o hoje e o amanhã. Antes e depois, não quero nem saber”,disse ela à repórter.

Leia a entrevista:

Em entrevista realizada no dia 10 de julho Dercy estava vigorosa e plena em sua vontade de viver. Em 19 do mesmo mês ela morreu, vítima de uma pneumonia, deixando nas páginas do Jornal Copacabana, suas últimas palavras. Não se trata de uma figura qualquer, estamos falando de Dercy Gonçalves! Atriz versátil, cantora, humorista, irreverente, espontânea, talentosa e, como ela mesma diz: “com o cú pra lua!”. Dercy abriu as portas do apartamento em Copacabana para uma conversa sobre os 102 anos que completou no final de junho, a carreira, o DVD comemorativo dos 100 anos, a entrada no Guiness Book, a vida difícil em Madalena e, como não poderia faltar, o amor à Copacabana.

Renata Moreira Lima (Jornal Copacabana): Elaborei algumas perguntas e roteirizei para a nossa entrevista, mas temo que não vá segui-lo, uma vez que é uma “expert” em improviso!
Dercy Gonçalves: Realmente não sigo roteiros, gosto do improviso, mas você pode seguir o seu. Se eu não quiser responder alguma pergunta… eu pulo ela! (risos)

Renata: Há um erro no seu registro, seu pai o fez com atraso. Mas você nasceu em 1906 e completou, recentemente, 102 anos. Pensou em viver tanto tempo e fazer não só uma vida artística, mas tornar-se um exemplo social de longevidade? Qual é o segredo?
Dercy: Nunca pensei que fosse viver tanto tempo! 102 anos é muita coisa, está bom demais! Sinto-me bem. Estou viva e cheia de saúde. Faço alongamento todos os dias, ando dentro de casa, faço massagem nos pés, como muita pimenta e tomo soro (água, sal e açúcar) diariamente. Não tenho, nem tive vícios. Nunca bebi, fumei ou usei drogas. Minha avó viveu até os 113 anos… Outra coisa que contribuiu muito para a minha permanência foi a ajuda de Ademar Martins, o pai da minha filha. Ele se dedicou muito a mim quando tive câncer. Na verdade não sei como estou aqui até hoje! Quando era criança eu tive uma incandescência de sangue, eu evacuava sangue. Nessa época papai cuidava de mim. E fiquei boa.

Renata: Se considera um exemplo em um bairro que tem um alto índice ( %) de idosos?
Dercy: Que idosos?! Copacabana é tudo! É o que há de mais lindo! Não só Copacabana, mas o Rio de Janeiro! Olha que eu conheço mais da metade do mundo! Tem que saber viver! Por causa da profissão tive que ver muita coisa que não sabia que existia. A Rede Globo sempre me mandava para lugares lindos, que nunca imaginei. Eu não tinha cultura, adquiri conhecimento. Copacabana é o mais lindo de todos! É abençoado!

Renata: Vamos falar um pouco da sua história. Fugiu de casa com uma Companhia que esteve em Madalena?
Dercy: Venho de uma família humilde. Minha avó era negra, africana. Papai era alfaiate. Meu avô, português de Coimbra, coveiro. Ele plantava e criava porcos, galinhas, assim não nos faltava para viver. Fugi de casa aos 14 anos. Fui encontrar a Companhia da Ana Maria Castro, que tinha ido à Madalena. Fui até Macaé. Pedi para ela me deixar fazer parte e entrei como duetista.
Antes de fugir eu trabalhava na bilheteria do cinema de Madalena e adorava pintar os olhos como as atrizes dos filmes, papai ficava enfurecido. Mais do que pintar, eu queria fazer aquilo que elas faziam. Queria estar lá na tela. Por isso eu fugi para a Companhia.

Renata: Foi cantora durante anos… Inclusive cantando no Teatro João Caetano.
Dercy: Muitos anos. Um dia César Ladeira fez um teste comigo para a rádio Tupi. Eu cantava músicas tristes, profundas e ele mandou eu parar com isso. Pensei: será que eu estou ruim? Então fiz um pupurri de músicas animadas de Carmem Miranda, Orlando Silva, Aracy de Almeida. Comecei a fazer sátiras das músicas. Era um poupurri de esculhambação, fiz pornográfico. Agradei muito. Fiz a vida inteira! Foi um sucesso danado! Ganhei muito dinheiro! Muito!

Renata: Mas você não começou a falar palavrões, influenciada por um ator português que se apresentou no Teatro Municipal?
Dercy: As pessoas insistem! “Cú” não é palavrão! É uma coisa que você tem, eu tenho, todos nós temos! “Puta que Pariu” é um nome comum! As pessoas falam assim por aí… Palavrão é gente esnobe, isso é feio. O pedante é que inventa o palavrão! Isso é palavrão! A falta de arroz, de educação, de cultura, roubar do pobre… Isso é palavrão! Os animais estão sendo alimentados à base de ração! Nós estamos comendo ração! Isso é palavrão para mim! Isso é feio! O boi não come mais capim! Tenho certeza que não é feio falar! Eu tenho dignidade nata e me orgulho disso! Não tive educação, mas sei falar, reagir, viver!

Renata: Sofreu com discriminação em uma época em que as atrizes eram consideradas prostitutas?
Dercy: Como eu não era “puta”, isso nunca me ofendeu. Fui. Por um dia! Precisava de “cinco mirreis”, um cara me chamou e eu fui. Foi horrível! Ali tive a compreensão da luta que é ser uma “puta”! Beijar a boca fedida, de quem você não ama, sentir um sovaco fedorento, um pé de chulé… Não há mulher que agüente! Não há uma que resista a esse “pecado”! Eu achava que marido era deitar na cama e dormir com um homem. Ao contrário do que pensam, eu era uma moça ingênua e essa característica me valeu muito. Por isso nunca me atingiu. Clique aqui para ler mais.

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4 Comentários

Elza Cataldo
Elza Cataldo 23 de julho de 2014 - 09:05

É incrível como Dercy organizou sua vida a partir do trabalho que ela sempre amou. Motivada e focada no presente, ela viveu muito bem seus 102 anos. Ótima entrevista, Maya.
Abraços!

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lisa santana 23 de julho de 2014 - 23:25

Maravilhosa Dercy! Uma mulher e tanto que viveu da sabedoria.

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Antonio reis 23 de junho de 2016 - 19:42

Vida Dercy !!!!!!!! Sem duvida a rainha da comedia brasileira,vale a pena ler sobre esta grande mulher……..bem lembrado Maya ,, abç…….

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Uyara 18 de junho de 2020 - 15:41

Ola obrigada meu dEUS pour exister Dercy Gonçalves uma inspira à pra todos nos Uyara N aglis autobigrafia Lembrancas Filhas de Zumbi youtube procurem pra Voves me conhecerem

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