Um Dia Internacional para as mulheres anônimas

Por Maya Santana
Sônia Maria sobrevive do que cata no lixo

Sônia Maria sobrevivo do que cata no lixo

Déa Januzzi

De onde vem a força dessas mulheres que entram nos ônibus carregando quatro, cinco sacolas de uma vez? Sempre me pergunto como é que elas aguentam o peso do mundo em apenas duas mãos. Como é que essas mulheres conseguem andar quilômetros, num sobe e desce de ruas, ladeiras e ônibus, só para conseguir alguns quilos de frango em oferta?
Uma dessas mulheres acaba de entrar no ônibus. Ela parece mais velha do que na verdade é: o rosto marcado pela peregrinação, pelo martírio, como se as rugas tivessem sido moldadas a ferro e fogo. Sempre me pergunto por que essas guerreiras não aparecem nos jornais, porque não são condecoradas, não recebem faixas, troféus nem homenagens. Elas suportam tudo em silêncio, no mais absoluto anonimato. E vão carregando a cruz dos seus dias.

Às vezes, tenho vontade de oferecer ajuda, mas todas as pessoas no ônibus parecem alheias à via-crúcis dessas mulheres. Ou já se acostumaram com a cena? É tão constrangedor e, ao mesmo tempo, tão sagrado ver essas mulheres altivas, campeãs de peso, no ringue das ruas, ladeiras e dos ônibus! O rosto não muda uma vírgula, quando elas sobem os degraus dos ônibus, com pacotes de arroz de cinco quilos e as cestas básicas da miséria que hoje parecem travestidas em plataformas eleitorais.

Elas deveriam ganhar o pódio, pois dão a volta olímpica em buscas das melhores ofertas. Descem a ladeira dos aglomerados e despencam lá embaixo no asfalto atrás de uma única pechincha. E conseguem levar nas costas até o colchão usado, mas em bom estado que encontraram no lixo. Ou conseguem suportar, com orgulho e alegria, um novo eletrodoméstico comprado numa loja em eternas prestações. Essas mulheres são mestres de obra, a levar nos braços toneladas de esperança, a argamassa da vida.

Sempre imagino onde é que essas mulheres ganharam tanta força muscular, para suportar tanto peso. Eu me pergunto em que academia elas conseguiram tanta flexibilidade. Vejo cada uma delas carregando pacotes de fubá e farinha. Vejo cada uma delas voando em direção ao ninho, lá no alto do morro, como se fossem formigas a estocar alimento para o inverno. Mas sinto que elas também não se esquecem de cantar como as cigarras.

Sempre penso em homenageá-las no Dia Internacional das Mulheres, com um texto, onde eu diria: Ensinem-me o segredo de não sucumbir ou como é viver com salário mínimo e dormir num mesmo cômodo com seis filhos. Ensinem-me como é manter o calor, bendizer a vida, mesmo com tantos percalços. Ensinem-me a matemática de entrar num supermercado com R$100,00 e sair com os braços pesados de compras. Como viver no limite. Ensinem-me a lavar, passar, cozinhar, costurar, a fazer parte do clã dos humilhados e ofendidos. Ensinem-me como passar um camelo pelo buraco da agulha, como tecer à luz de velas, como acender o último fósforo na escuridão. Como chegar ao reino dos céus, como transformar o inferno em paraíso. Como dedilhar o rosário do sacrifício. Como viver sem ostentação.

Preciso tirar o chapéu para essas mulheres que esfregam o chão que o diabo cuspiu. E para uma mulher em especial, que nem sei bem o nome nem o endereço certo, mas é lá para os lados de Ribeirão das Neves, um dos bairros mais violentos e tumultuados da periferia da cidade, onde não há saneamento básico nem calçamento, as ruas de terra, na verdade, são enormes crateras.

Um dia pedi informação e um copo de água para essa mulher que me convidou a entrar em seu barraco. Ao colocar o pé dentro da casa, descobri Deus: vasos de flores nas janelas, cortinas de chita, piso de vermelhão encerado. Uma panela no fogo despertou os meus sentidos: carne cozida de segunda, mas com cheiro de alta gastronomia. No quintal, ela colheu folhas de taioba para o jantar que estava preparando e colocou perto das vasilhas que brilhavam. Ainda conseguiu me presentear com molhos de taioba, ramos de salsinha e cebolinha. E temperou a minha vida com a força da delicadeza.

Déa Januzzi é jornalista e escritora


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1 Comentários

Lourdes Spádoa 8 de março de 2015 - 18:39

Lindo texto… – porque… ?

é tão real, tão corriqueira, banal e tão numerosas as Marias desse texto que o mesmo só se torna belo pela incrível capacidade de “alguns privilegiados” perceberem a existência delas…
A beleza das Mulheres, em geral, não se encontra na roupa que veste, na forma como arrumam seus cabelos, no corpo que sua alma habita… Mas, SIM, na maneira singular que cada uma enfrenta os problemas… e coloca em prática a ARTE DE VIVER.

Sim, algumas Gladiadoras da Arte de Viver têm leveza de alma… – Eis a grande descoberta – Outras não… porque carregar pedras, além de deixar as mãos calejadas, calejam também suas almas.

Constatar leveza de alma em pessoas que “matam um leão por dia para sobreviver” dá origem a textos lindos, sensíveis como este… – O “normal”, convencional é encontrar apenas Força Bruta, como a vida que estas MARIAS aguentam.

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