
Márcia Lage
50emais
O filme “Uma Bela Vida”, do cineasta franco-grego Costa-Gavras, dá substância e cor ao último tabu que os velhos da atualidade tentam quebrar: o de como enfrentar a morte que se aproxima, tanto para quem viveu bem, quanto para os que desperdiçaram o tempo nas conquistas e turbulências do século XX, e dessas duas décadas do século XXI que mais parecem reprise do anterior.
Paralelamente às guerras e suas consequências, a humanidade avançou em todas as áreas das pesquisas científicas e tecnológicas. Mas, continuamos sem resposta para a questão filosófica que nos inquieta desde que começamos a andar sobre as duas pernas: para onde vamos quando essa jornada terminar? E como encarar com serenidade o fim inexorável?
É dessa angústia que o filme trata. Ele abre um debate sobre a forma ocidental de lidar com a morte; sobre uma medicina instigada a vencê-la doa a quem doer (normalmente no bolso e na integridade emocional do moribundo); num campo de batalha em que medo, desespero, crenças religiosas e incapacidade racional de lidar com a finitude aumentam a angústia da família e retardam a partida de quem já cumpriu seu tempo de vida.
Costa-Gavras, um cineasta de obras político-sociais impactantes, une dois personagens fundamentais para aprofundar esse debate: um médico especializado em tratamentos paliativos, num hospital que se preocupa sinceramente em proporcionar a melhor despedida a seus pacientes terminais, e um filósofo que ainda não sabe que vai morrer, e que é levado a acompanhar o trabalho do médico para entender o processo e escrever sobre ele.
Assim, enquanto os dois atores principais se empenham em deixar uma obra conjunta sobre o tema, vamos sendo apresentados aos personagens desenganados e suas reações diante do inevitável.
Uma caravana inteira de ciganos segue a líder em seu tratamento. Ela logo entende que não tem cura e se prepara para a morte junto aos seus. Cantando, dançando e tocando instrumentos eles deixam o hospital com reverência, carinho e devoção àquela mulher sábia, que os conduz com alegria à sua passagem, de acordo com suas crenças e seus costumes.

Um outro está confuso com a reação da esposa, que exige do hospital tratamentos que não vão resgatá-lo para a vida. Ele sente falta do cachorro ao seu lado, e o hospital permite a presença do animal em seus últimos momentos. Entre afagos no cão e o carinho dos seus familiares, o paciente finalmente se deixa ir, embalado pelos afetos.
A cena que mais me comoveu foi a de um motociclista que é levado ao jardim do hospital, enquanto seus companheiros de vida off-road aceleram as Harley Davidson à sua volta, como se fossem acompanhá-los em sua última aventura pela estrada da morte.
É um filme para velhos. Ou para as pessoas que já se preocupam com a morte e querem aceitá-la, antes de mais nada. Conscientes de que, chegada a hora, seja possível vivenciá-la como um ritual de passagem.
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