Um outro caminho

Por Maya Santana
"Hoje vou exorcizar as culpas católicas que a religião me incutiu"

“Hoje vou exorcizar as culpas católicas que a religião me incutiu”

Déa Januzzi

Hoje, vou me despir de todas as culpas, inclusive, as que carrego dos meus antepassados há séculos, como se fosse uma cruz. Vou me livrar desse sofrimento ancestral que me atordoa no presente, como se fosse uma lança abrindo o meu peito, num incômodo eterno que transfigura o presente, apesar de tão antigo.

Hoje vou exorcizar as culpas católicas que a religião me incutiu, vou me livrar do medo de a hóstia sangrar se, por acaso, ela escapulir da minha boca. Vou me livrar dos pecados cometidos, dos que ainda vou cometer, vou expulsar a palavra pecado do meu dicionário e também da minha vida. Hoje, vou me desnudar dos erros que não quis cometer, mas que acabei por cometê-los em outras épocas da vida. Não prometo nunca mais errar, mas vou prestar mais atenção na hora de repeti-los e, quem sabe, possa evitar aqueles que mais me impediram de ser eu mesma.

Se, por acaso, errar assim mesmo, vou sepultar cada um deles nas gretas de um muro de pedras, para que eles se petrifiquem e purifiquem o meu ser. Como fez a personagem May, uma das três irmãs apicultoras, da Carolina do Sul, Estados Unidos, no livro A vida secreta das abelhas, de Sue Monk Kidd. Para não enlouquecer de vez com as dores da vida, May escrevia cada uma delas num papel e enfiava no muro. Ou como propôs a psiquiatra Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que correm com os lobos. Cada mulher deveria confeccionar o seu manto com todas as cicatrizes da alma. Em seguida colocá-lo num lugar alto, que desse para esbarrar na hora de passar. Assim, as cicatrizes femininas seriam banidas de vez, a cada passagem.

Vou expurgar as lamentações sem fim, herança de outras épocas e de outras mulheres que estiveram na minha vida sem que eu soubesse ou as conhecesse. No meu manto de cicatrizes, vou deixar todas as culpas, inclusive, as de filha, de irmã, de mulher e de mãe. Vou escrever com todas as letras para nunca mais esquecer ou, quem sabe, bordar com linhas coloridas, em caprichados pontos de cruz: “Livrai-me de todas as culpas.”

Hoje, vou pedir à terapeuta Solange Rolla para fazer a minha constelação familiar para que eu possa entender que o sofrimento atual vem de longe, de pessoas que tiveram de se sacrificar para que eu pudesse estar aqui agora.Vou riscar da minha existência a culpa católica de achar que não sei educar e vou pedir ao pai do meu filho que ocupe o seu lugar de vez, para que eu possa ser apenas mãe. Vou dizer a ele obrigado por ter permitido uma outra vida, ou quem sabe, vou fazer um novo exercício. Pedir ao filho que liste as qualidades do pai e não apenas os defeitos.

Vou mudar a sintonia para ver se há música e poesia além da dor. Vou agradecer por ser mulher e ter gerado uma outra pessoa e vou tirar as culpas do meu coração, para que eu possa continuar nessa constelação sagrada, nesse círculo místico da vida. À Josefina Ferrarezi, que faz acupuntura enquanto chama os anjos, vou pedir que continue a me contar histórias de mulheres – e de homens – que se livraram da culpa. Se for preciso, vou pedir a ela um floral de quaresmeira roxa, para que possa me concentrar em mim mesma e deixar essa Via-crúcis para trás. Vou dizer sinto muito às minhas irmãs terrenas e pedir que elas também não se culpem por nada e me deixem aos cuidados da minha família cósmica, porque estou exausta de tanto sentir culpa.

Culpa de ser independente, de ter nascido com culpas que não são nem nunca foram minhas, de ter crescido entre grilhões, de amadurecer a beira da forca, num pelotão de fuzilamento, sem chance de salvação. Culpa pela impermanência da vida, por não conseguir impedir o envelhecimento e a morte dos pais, por não conseguir a mágica de ter o irmão ao meu lado por muito mais tempo. Culpa pelos meus próprios surtos, de não abrir a porta de frente da minha casa para os presentes que chegam como dádivas.

Vou continuar constelando, mas a partir de agora quero uma história de amor, seja ela por um homem, um filho, um projeto de vida que me tire desse lugar escuro da culpa, dessa ressaca moral, desse peso na consciência que não sei de onde vem. Nesse novo universo, vou pintar estrelas que tenham luz própria e me indiquem o verdadeiro caminho.

Esta crônica de Déa Januzzi foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas.


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5 Comentários

Graciana Januzzi 9 de março de 2014 - 18:56

Déa, a cada crônica sua lida, mais encantada fico com o seu trabalho, parabéns!

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leda maria soares cunha bello 9 de março de 2014 - 16:24

Reler é um prazer. Muitas das suas cronicas, foram recortadas por mim e usadas em cursos e encontros de reflexão. Ao encarar suas possíveis fragilidades, vc nos torna fortes, porque vemos o reflexo de nossos próprios e inconfessáveis desmoronamentos.Deus não nos quer culpados. Conscientes sim, contritos, reparadores,mas benevolentes conosco.A culpa e o medo são péssimas companhias e ELE não nos quer assim. ELE nos chama,aos tristes e sobrecarregados, AFIRMANDO QUE O SEU PESO é LEVE E O SEU JUGO É SUAVE.
Déa, continue presente em nossa vidas de leitoras e amigas de longa data,( em tantos encontros de domingo, ao abrirmos o jornal. Que falta vc nos faz.) Continue presente e nos presenteando.Ps:Inesquecível aquela sobre A pasta do irmão, tempos depois eu perdi o meu, aquele que era o protetor
-mor de todos.

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Ana 9 de março de 2014 - 14:16

Dea, estudei 10 anos em colégio de freiras católicas, apostólicas, romanas. Aprendemos a falar não apenas Inquisição mas sim, a Santa Inquisição. Criança, tinha q me confessar sem saber exatamente o que era pecado.

Hoje me livrei de muitas culpas, e tento me livrar de algumas, ainda. Mas já não sofro com elas, não me amarguro mais. Quando alguma coisa acontece, temos q levar em contas as circunstâncias. Eu não existo isoladamente: sou eu e minhas circunstâncias.
Parabéns pelo artigo.

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nenez 9 de março de 2014 - 12:27

Há sempre um outro caminho!

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Déa Januzzi 9 de março de 2014 - 01:37

A foto está linda e a edição também. Obrigada!!!!!

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