Um país que envelhece sem se aceitar com rugas

Por Maya Santana
A velhice vai se instalando

Me vejo na fila desse País que envelhece sem se preparar

Déa Januzzi

Os meus olhos estão viciados. Só veem a velhice pelas ruas do Brasil. Os cabelos brancos me perseguem, as rugas marcam os meus sentimentos, procuram abrigo na bengala imaginária dos meus braços. Descubro nas esquinas, nos restaurantes, nos ônibus, nos teatros, cinemas e nos prédios onde moro, a velhice se instalando em cada andar, nas casas deste País que se acha eternamente jovem.

Na porta da padaria conheci Ida, que todos chamam de “Nen”, uma mulher de 60 anos, mas com aparência de mais de 70. Maltratada pela vida, ela mendiga, pede esmola, estende a mão. Os cabelos brancos e ralos estão bem ajeitados num coque. As roupas simples, mas muito limpas roubam a minha atenção e me aproximo para saber mais sobre ela. Ida mora no Aglomerado da Serra, uma comunidade que reúne mais de 14 vilas morro acima. Todos os dias, ela desce para pedir mantimentos, dinheiro, pois criou os seis filhos do irmão “e mais os que vão aparecendo.” Um deles está preso por tráfico de drogas, mas Ida precisa tratar dos outros. “Prefiro pedir do que ficar devendo no armazém da comunidade, porque eles ficam cobrando e xingando porque a gente não conseguiu pagar no fim do mês. É muita humilhação”, diz ela, abaixando a cabeça.

A três quarteirões de Ida está Luzia, de 74 anos, moradora de Contagem, um bairro distante de onde está vendendo panos de prato. Compro dois, mas ela vem com uma ladainha de reclamações. Uma das pernas não atende mais aos seus comandos, geograficamente tomada de vasos e veias arrebentadas. Ela fala em dor, mas o que dói mesmo é ver que aos 74 anos, Luzia tem que vender panos de prato na rua para sobreviver.

Do outro lado da cidade, Conceição, de 77 anos, tira da sacola produtos de beleza, como cremes, sabonetes, perfumes e tantos outros que não custam mais do que R$ 10,00. Animada, ela estende cada um deles na murada em frente, território livre dos que nada têm, bancada dos deserdados. Conceição sabe falar sobre as propriedades de cada produto e quer que eu fique sua freguesa. Os cabelos brancos denunciam uma velhice torturante.

Ida, Luzia e Conceição são sobreviventes de um mundo que não enxerga os velhos, ainda mais os que nunca tiveram acesso a um mínimo de dignidade. Nem no entardecer da vida. No céu desses velhos de rua, as estrelas se apagaram.

Enquanto penso nas três mulheres que já estão dentro do perfil do envelhecimento populacional do Brasil, que é eminentemente feminino, repasso as estatísticas de violência contra o idoso nos últimos três anos. Foram de pouco mais de oito mil em 2011 para mais de 23 mil em 2012 e quase 40 mil em 2013. E a violência financeira representou a terceira maior causa dessas denúncias, perdeu apenas para negligência e violência psicológica. Quase metade das vítimas tem mais de 76 anos e a maioria é mulher. Os estados que registraram a maioria de queixas foram São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Os números não falam na violência sofrida pelos velhos de rua, aqueles que têm que mendigar ou estão informalmente no mercado vendendo tralhas para custear a sobrevivência de cada dia. Eles não conhecem o Estatuto do Idoso, nem os seus direitos. Nunca ouviram falar em envelhecimento ativo, mas mesmo se quisessem não conseguiriam deixar de trabalhar noite e dia. Eles não sabem dos seus direitos. Não podem se aposentar. Não têm voz nem visibilidade, mas se multiplicam pelas ruas e avenidas deste País. Vivem na desesperança de todo dia.

Me vejo na fila desse País que envelhece sem pedir licença, sem se preparar, sem se ver e se aceitar com rugas, cabelos brancos, dores e impedimentos que a idade traz. Me vejo em Ida, Luzia e Conceição, mulheres que tiveram o privilégio de vencer o tempo, mesmo contra todas as estatísticas.

Déa Januzzi é jornalista e escritora


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2 Comentários

MARINEZ MARAVALHAS 13 de setembro de 2014 - 01:08

Belo artigo. Nunca havia visto a velhice como o privilégio de vencer o tempo. Já venci 76 anos! Oba.

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lisa santana 30 de agosto de 2014 - 23:56

Déa, seu texto é de uma realidade desconcertante. Sim, somos um país no qual envelhecer é considerado quase um pecado. Esta é mais uma das muitas mudanças que temos que nos atentar em fazer. Daqui a pouco seremos um país onde grande parte da população será de velhos. E aí?

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