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Um ser extraordinário chamado Ana Ostrovsky

Por Maya Santana

Com a neta Flora, com quem tinha relação toda especial

Com a neta Flora, com quem tinha relação toda especial

No sábado, 22 de junho, a polonesa-brasileira Ana Ostrovsky, 90 anos, partiu para a sua derradeira viagem. Algum tempo antes, a jornalista Ana Maria Cavalcanti havia conversado com ela, pois queria registrar em um artigo um pouco da vida dessa mulher extraordinária.  Aqui está o resumo do que Dona Ana contou:

“Fazer 90 anos é uma consagração. É como se eu olhasse em um  caleidoscópio o que se passou na minha vida: a II Guerra Mundial, a bomba de Hiroshima, a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, o desenvolvimento do Estado de Israel.

Cheguei ao Brasil  com 16 anos. Meu irmão veio primeiro e, depois, o resto da família. Em 1930, a Polônia vivia uma crise econômica, não havia trabalho e resolvemos vir para o Brasil em busca de novas oportunidades. Os irmãos que ficaram para trás desapareceram. Eles eram judeus e militantes comunistas, ou seja, foram duplamente perseguidos por Hitler.

Livro contando a saga da família polonesa

Livro contando a saga da família polonesa

Na casa de minha mãe, na cidade de Luck, havia sempre muita discussão política. Cresci neste ambiente e até hoje leio o Estadão todos os dias, para saber o que vai pelo mundo.

Meu irmão José, que chegou no Brasil antes de mim, em 1934, sempre dizia que aprender português deveria ser minha prioridade número um. Levei as palavras dele a sério. Em 2004, escrevi um livro contando a história de nossa família: “Peço Licença para contar”. Eu estava, então, com 82 anos. Com a ajuda das netas, usei o computador para escrever.

Acho que o que mais marca a vida da gente são as pessoas com quem convivemos. Cada um de meus amigos marcou minha vida de forma diferente. Esta semana, Claire ligou de Israel para me cumprimentar pela Páscoa. Ela me disse: “Você marcou a minha vida”. Eu sempre achei que ela é quem tinha marcado a minha vida, por ser uma pessoa tão inteligente e atuante.

Com Francis, em pé atrás dela, as netas Luisa, Isadora e Laura, e o filho Silvio

Com Francis, em pé atrás dela, as netas Luiza, Isadora e Laura, e o filho Silvio

O carinho e o afeto é o que une as pessoas, acima de tudo. Minha amiga Paula, eu a conheço há quase 60 anos. Já viajamos juntas, saímos juntas, partilhamos nossas alegrias e preocupações. Ela é uma dádiva em minha vida. Isso para não falar na Francis, a mulher de meu filho Silvio, que faz por mim o que talvez nem uma filha fizesse.

Eu conheci meu marido, Isaac Ostrovsky, na casa de meu irmão que era muito movimentada. Ficamos casados por 43 anos. Ele morreu em 1987. Só conheceu um neto, Fernando. Eu sinto enormemente que Isaac não tenha conhecido Renata, Flora, Julia, Luiza, Laura, Isadora e Antonio.

Nesta foto está toda a família, com exceção do filho Sílvio

Nesta foto está toda a família, com exceção do filho Sílvio

Repito, fazer 90 anos é uma consagração. É claro que o organismo envelhece, o coração já não trabalha como antes: coloquei um marca-passo, ano passado, e ando devagarinho, com bengala. Apesar da sáude ficar cada vez mais precária, nunca perdi meus interesses: cinema, política internacional, concertos. Fui abençoada pela boa memória. Minha letra continua igual e minha assinatura é a mesma desde que tinha 18 anos.

Quando olho pra trás, só tenho orgulho. Consegui muita coisa na vida. Fiz Madureza e, com 40 anos, com os filhos já grandes, entrei na USP para fazer Letras. Minha casa vivia cheia de jovens e meu marido sempre me apoiou.

Rodeada pelos sete netos:Fernando, Renata, Flora, Julia, Luisa, Laura e Antônio

Rodeada pelos 8 netos:, , Julia, Luiza, Flora, Fernando, Renata, Antônio, Laura eIsadora

Vivi muitas emoções ao longo dos meus 90 anos. A maior de todas foi quando meus filhos, Ingo e Silvio, nasceram. Este ano, minha neta Luiza entrou na USP e a emoção foi enorme.

Quando ia fazer noventa anos, meus filhos e netos queriam dar uma grande festa. Não foi possível, porque fui hospitalizada. Sei que meu prazo de validade está acabando. Mas não sei quando vai chegar a minha hora. Seja quando for, vou tranquila, pois tenho oito netos maravilhosos e eles vão me dar continuidade.”

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11 Comentários

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Etejane Hepner Coin 4 de julho de 2016 - 19:46

A sede da Organização Feminina WIZO teve a honra de ter sido escolhida para o lançamento do livro, da querida Ana. Nesta ocasião tivemos uma visão ampliada de quanto ela era benquista na família, por amigos e voluntárias.
Os seus dotes literários e cultura haviam abrilhantado, por muitos anos , o periódico da entidade, a Revista “Corrente”. Cessando esta função, Ana não parou de se aprimorar, participando de aulas de atualização,
fazendo programas culturais acompanhada da querida amiga Paula. Tinha a habilidade de aproximar e integrar as pessoas trocando idéias sobre os mais variados assuntos. Uma das amigas, também fora de série, foi Bluma Fleks. Através dos seus relatos, plenos de admiração, pude conhecer ainda mais a grandeza de alma de Ana Ostrovsky. Pessoas assim são marcantes porque são pontos de referência para uma vida significativa.

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Renée A. Castelo Branco 5 de julho de 2013 - 23:14

obrigada, Mainha por partilhar conosco estas histórias de D. Ana, nossa tão querida amiga, que sempre nos acolheu com tanto carinho. Vou aprender a fazer flüden e aquela compota maravilhosa de frutas secas, como aprendi a receita de vatá da minha avó piauiense.

Obrigada Ana Maria e Ingo, por ter partilhado conosco um pouco de sua mãe tão querida, inteligente e arguta.

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Luís Carlos Cabral 4 de julho de 2013 - 00:40

Não conheci Ana pessoalmente, mas trocamos uma ligeira correspondência e li seu
magnífico livro. Grande mulher, grande pessoa, belos filhos, lindos netos.
Com certeza viver valeu a pena.
O que dizer? Que um dia acaba mas se perpetua? Outras platitudes?
Forte abraço em todos que a amaram.

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lisa santana 1 de julho de 2013 - 15:32

Que linda a dona Ana!É bom ouvir histórias de quem viveu tanto e bem. Ganha-se forças com elas.

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Margaret da Mata 1 de julho de 2013 - 00:58

Querido Ingo;
Convivemos uns anos em Londres mas não conheci a sua mãe. Sempre o considerei um amigo interessante, teve a quem puxar.
Beijo,
Margaret

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Flora Ostrovsky 30 de junho de 2013 - 22:29

A vovó Ana era uma mulher a frente de seu tempo, inteligente, interessante, viva, amorosa – com certeza um exemplo para todos que a conheceram.
Realmente é um belo depoimento, que mostra muito dela – linda homenagem, Maya!

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admin 1 de julho de 2013 - 01:14

Flora, querida, admirava profundamente Dona Ana, pela inteligência, pela memória prodigiosa e, sobretudo, pela força interior. Todas as vezes que ia a São Paulo, fazia questão de visitá-la. Conversávamos muito sobre história, como fizemos da última vez em que estive com ela, há cerca de um mês. A sua avó era um verdadeiro Livro de História. E isso me fascinava. É um privilégio abrir espaço no 50emais para homenagear – publicando o texto de Ana Maria Cavalcanti – alguém que me inspirou tanto! Um beijo carinhoso pra você! Maya.

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Tinda Costa 30 de junho de 2013 - 19:03

Dona Ana foi realmente uma grande mulher. Infelizmente, não tive a chance de conhece-la, mas tenho a sorte de conviver com um dos filhos dela, Ingo, que é um amigo muito querido.

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Elza Cataldo
Elza Cataldo 30 de junho de 2013 - 18:43

O amor pela vida é o mais importante dos legados. Gostaria de conhecer o livro da Dona Ana. A história de imigrantes sempre me interessou: pessoas de duas pátrias e coragem única.

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admin 30 de junho de 2013 - 18:31

Anne Hardoon
Our condolences to all the family. Ana was a remarkable lady and she will always be remembered by our family. Good to see the photo of her surrounded by all her grand children. Best regards

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Ingo Ostrovsky 30 de junho de 2013 - 15:23

Sou suspeito para falar da minha mãe. É um belo depoimento. Realmente planejamos uma festa de 90 anos e ela chegou a fazer a lista de convidados, com os familiares e os amigos mais chegados. Seguiremos celebrando o que ela nos ensinou, principalmente o amor pela vida.

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