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Lembranças de um tempo em que o mundo não mudava tão depressa

Por Maya Santana

Jabuticaba surge nos pés no mês de novembro

Nos novembros da minha infância, jabuticaba era a fruta

Elisa Santana*

A chuva começou a chover e queria entrar e molhar minha sala. Não deixei. Fechei o vidro e fiquei espiando pela janela. Quase que ela me convence e eu deixo. Tem chovido tão pouco e eu gosto tanto de chuva. Mas resisti porque pensei que se eu deixasse que ela entrasse, ia estragar meu piso de madeira. Deixei ela lá fora mesmo. Mas, aliviada e agradecida, não tirei o olhos dela.

Eu me lembrei de outros dezembros no interior, quando, a esta altura do ano, chovia a cântaros. As roupas, ruas e árvores já tinham cheiro de mofo, e a gente ficava doida pra chegar janeiro, época de veranico, de um sol forte que pedia nadar em lagoas e cachoeiras. E nós esquecíamos a chuva para curtir o verão. Tempo de férias que duravam até Março, quando outras águas fechavam o verão. Tempo de manga, goiaba, milho verde… É engraçado, né? As frutas tinham época. Não se comia manga em julho, como não se comia côco Macaúba em janeiro. E assim, fruta nenhuma fora de seu tempo.

Eu sabia a época de todas. Meu calendário escolar era marcado pelo tempo delas. Por exemplo, jabuticaba era em novembro, mês do Dia da bandeira, Todos os Santos e Finados, quando pegávamos as florzinhas do mato e íamos levar ao cemitério, para nossos mortos – que eu, menina, tinha tanto medo. Quase chegando Dezembro. Tempo de férias escolares.

Tempo de só alegria. De buscar milho verde plantado no inicinho de outubro e colhido em Janeiro, para cozinhar, fazer mingau, assar no fogão à lenha…Tempo de goiabas vermelhas, brancas, de fazer goiabada no tacho de cobre, para ela ficar bem vermelhinha e depois, a meninada toda junta pegar a colher para “raspar o tacho”… Às vezes, a gente achava algumas goiabas ”temporonas”. As mais gostosas desta vida! Acho que no mês de setembro, no dia de São José, quando caíam as primeiras chuvas, ou então, na quaresma, logo depois da semana santa.

Eu me lembro bem: eu de vestido novo de vestir só para dia de procissão, no meio do quintal, procurando goiaba e minha mãe “ralhando” para eu não estragar o vestido colocando “nódoa”. Os vestidos novos num instante rasgavam, ou ficavam sujos da nódoa das bananeiras. Nós adorávamos brincar no meio delas, procurar cacho de banana prata madura antes de passarinho comer.

Eu me lembro também que gostávamos demais de brincar de pegador em cima dos abacateiros. Passávamos de um pé para o outro com uma agilidade surpreendente. Era mágico. Éramos crianças do ar, de brincarmos no alto dos pés de manga, do bambuzal, da alegria de correr atrás de borboletas, de cigarras, na primavera.

A s minhas irmãs tinham o hábito horrível de caçá-las pela tardinha, amarrá-las pelas patas com uma linha bem grande e, à noitinha. ir para o alpendre ficar rodando as pobrezinhas, para ver qual cantava mais alto. Terrível, mas naquele tempo, eram só brincadeiras de crianças que não haviam sido educadas para serem gentis com os insetos. Ninguém havia dito que não podia, e a gente nem pensava que as pobrezinhas sofriam.

A gente também gostava de deitar na grama, à noite, em frente a casa de Rosinha, e ficar contemplando o céu, olhando as estrelas sem poder apontá-las, porque, senão, nasciam verrugas nas pontas dos dedos. Mesmo assim, eu apontava e dizia: – As Três Marias são minhas. O resto é de quem quiser. E naquele tempo havia estrelas no céu até o infinito. Alguém sabe me dizer se hoje ainda tem?

Estas são lembranças de um tempo que chovia muito e o mundo não mudava tão depressa. Um tempo em que nossas roupas molhadas, pela chuva ou não, secavam no calor da chama do fogão à lenha. Minha mãe fazia comida gostosa para a gente comer. Gostávamos de fumar talo de xuxu seco entre os bambus, bem escondidos e em paz, para ninguém ver a gente brincar de ser gente grande.

Pois é, mas aquele tempo foi um outro tempo, quando chovia muito e nós não tínhamos nenhum medo que a água acabasse.

Elisa Santana, 58,autora do livro de poesia “Os Peixes do Meu Pano de Prato”, é atriz e Professora de teatro da PUC/MG.

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6 Comentários

rosane 18 de dezembro de 2015 - 01:16

Bom dia, Elisa

Nem sei se o termo que tenho vontade de usar para elogiar sua crônica. Poética, lírica? Não sei…
O que sei é me fez tão bem…Saudades, muitas da minha infância feliz, junto aos meus 4 irmãos.
Lembrei-me do jambo! Ahhhh o pé de jambo…rosa-vermelhão, docinho,pé lotado. Nunca mais soube de um pé de jambo assim… Doces lembranças jambo.
Obrigada, Elisa.

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nenez rick 14 de dezembro de 2015 - 22:42

retrato do nosso mundo, já tão distante…..

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Márcio 14 de dezembro de 2015 - 16:59

Lisa,

Que lindeza a sua crônica! Tão doce, tão lírica, tão suave, tão afetiva.., tão, tão…!

Ela me leva de volta docemente, liricamente, suavemente, afetivamente à minha infância!

Na minha casa de quando eu era pequeno tinha dois quintais: um de cimento e um outro, de terra, localizado bem mais acima no grande terreno da casa.

Quando eu era bem pequeno e até não sei quanto anos, havia nesse quintal de terra, ao qual a gente chegava por uma escada de muitos degraus de cimento, um enorme, imenso abacateiro.

Desses de tronco liso e reto e com a copa lá longe no alto, muito alto, onde não dava para subir e brincar – como eu brincava, com meu amigo e vizinho Leonardo, no pé de azeitona que tinha na casa dele e a gente comia tanta azeitona docinha…!

O abacateiro, que eu achava belíssimo, grandioso, imponente, maravilhoso, uma árvore linda enchia o chão, no tempo certo – que eu não sei qual é, que mês – de abacates e mais abacates. Eu achava uma maravilha!

Um dia cortaram o abacateiro. Só ficou um toco.

Não sei se era em Outubro, devia ser, mamãe mandava plantar milho. Vinha um senhor que semeava todo o quintal de terra, que era muito grande e ia embora.

E quando dava milho, era uma beleza! Mamãe fazia, durante muito tempo seguido, três tipos diferentes de mingau de milho verde. Uma delícia. O meu preferido era o feito com a primeira extração do leite das espigas de milho!

Lisa, eu penso nisso de vez em quando mas nunca havia pensado nisso no papel. Você me fez escrever e gostar de lembrar de tudo isso, de re-viver tudo isso, de me emocionar com tudo isso!

Muito obrigado, Lisa! Um imenso, enorme abraço para você, com um doce beijo!

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lisa santana 14 de dezembro de 2015 - 17:48

Buniteza demais que os meus escrevinhados tenham te tocado assim, Marcinho. Quem tem a oportunidade de ter infância com quintal e estações ( mesmo hoje) tem riqueza guardada. Num é assim? Bom que, juntos, fomos à um lugar bom de nossa memória. Bjs com carinho demais. Ah!! E os abacates (qdo ainda tinham época) apareciam no verão.

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Ana 14 de dezembro de 2015 - 16:10

Lindo texto!!!! Parabéns, Lisa.

Responder
lisa santana 14 de dezembro de 2015 - 17:41

Bjs, bjs querida Ana.

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