Uma casa para Elizabeth Bishop

Por Maya Santana
A poeta americana que se apaixonou pela idealizadora do aterro do Flamengo

A poeta americana que se apaixonou pela idealizadora do Aterro do Flamengo

Na próxima sexta-feira, dia 16, entra em cartaz no Brasil “Flores Raras”, o badalado filme de Bruno Barreto, premiado em Los Angeles, que conta a história do amor entre Lota de Macedo Soares, idealizadora do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, e a grande poeta americana Elizabeth Bishop. Para quem quiser saber melhor quem foi esta mulher, escritora brilhante, que saiu dos Estados Unidos para viajar e acabou vindo parar no Brasil, onde morou por muito tempo no Rio e em Ouro Preto, em Minas Gerais, aqui está o excelente artigo do excelente Roberto Pompeu de Toledo, escrito para a revista piauí:

“José Alberto Nemer calculou em 70 anos, talvez mais, a idade daquela senhora miúda, cabelos grisalhos penteados para trás, contraída como bicho torcido para dentro de si mesmo. O ano era 1968, a cidade Ouro Preto, a ocasião um dos almoços que aos sábados o pintor Carlos Scliar costumava oferecer em sua casa. A senhora era americana, o sotaque não deixava mentir. Quem era? Uma poeta famosa, Elizabeth Bishop, não conhece? Não, ele nunca tinha ouvido falar. Aproximou-se dela. A conversa fluiu como costuma ocorrer com pessoas sintonizadas na mesma faixa existencial de ondas. E tal era a ágilidade mental daquela mulher, tal o senso de humor e capacidade de observação que, à medida que a conversa progredia, Nemer ia lhe abatendo os anos. Sessenta talvez? Cinquenta? Quarenta e alguma coisa? A certa altura, ela até parecia uma companheira da mesma idade – e, no entanto, Elizabeth Bishop contava 57 anos, contra os tenros 23 de Nemer.

Lota Macedo Soares: paixão fulminante que levou até o fim

Lota Macedo Soares: paixão fulminante que levou até o fim

Ao término do almoço de Scliar ainda sobrava vontade de conversar. Bishop convidou-o para uma esticada em sua casa. Ela morava, na época, numa casa alugada da amiga Lili Correia de Araújo. Ficava na mesma rua, só um pouco mais adiante. Foram a pé Nemer, Bishop e a companheira da poeta,uma jovem americana de longos cabelos louros. Chegaram e Bishop recolheu-se à cozinha para fazer um café. Nemer ficou só na sala. Ou melhor, na companhia dos dois gatos da casa, Suzuki e Tobias. Quando a poeta voltou, os gatos estavam aninhados em seu colo. “Você gosta de gatos?”, ela perguntou. Ele hesitou: “Não especialmente.” Ela comentou: “Esses gatos sempre gostam de experimentar o colo de certas visitas.”

Leia também: “Há 60 anos Elizabeth Bishop chegava a Minas Gerais”

José Alberto Nemer e, um pouco depois, sua irmã Linda iriam se tornar os melhores amigos de Elizabeth Bishop, em Ouro Preto. Ouro Preto é, digamos, a fase dois da permanência de Bishop no Brasil. A fase um desenvolve-se entre Rio de Janeiro e Petrópolis. É o período entre 1951 e 1967 em que a poeta viveu com Lota Macedo Soares, conhecida primeiro por ser de ilustre família, em seguida por ter emprestado seu talento de arquiteta e urbanista sem diploma à montagem do Parque do Flamengo, e hoje em dia, sobretudo, por ter sido amante de Bishop. O romance entre as duas, que começa com arrebatamento duplicado pela voraz carência de uma e outra, alimenta-se da coincidência dos temperamentos artísticos, entra em declínio com as recíprocas crises de insegurança e depressão, e termina em tragédia, com o suicídio de Lota em Nova York, já suscitou livros (o mais recente dos quais a ficção A Arte de Perder, do americano Michael Sledge), peças de teatro (Um Porto para Elizabeth Bishop, de Marta Góes, monólogo interpretado por Regina Braga) e filme (do diretor Bruno Barreto, em preparação). E mais ainda continua a suscitar nos simpósios e publicações que vêm se sucedendo este ano, o do centenário do nascimento da poeta.”  Clique aqui para ler mais.


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