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Historiadora: velhice é palavra carregada de inquietação e angústia

Por Maya Santana

Mary Del Priory, 64, é historiadora e tem vários livro publicados

Mary Del Priory, 64, é historiadora e tem vários livros publicados

Maya Santana, 50emais

A autora desse artigo instigante, publicado originalmente no Estadão, é a historiadora Mary Del Priory, 64. As considerações que ela faz aqui servem para uma boa reflexão sobre o envelhecimento, um tema cada vez mais relevante, já que o mundo – e o Brasil, claro – está envelhecendo a passos largos. Segundo a ONU, em 2050, pela primeira vez, o mundo terá mais idosos que crianças menores de 15 anos. O número de pessoas com mais de 60 anos no planeta atingirá dois bilhões. No Brasil, temos 26 milhões de pessoas acima dos 60. E dados oficiais mostram que já somos 75 milhões com idade superior aos 40 anos. Muita coisa, não?

Leia o artigo da historiadora:

A velhice é um tema que provoca arrepios. Palavra carregada de inquietação e angústia, ela também representa Uma realidade difícil de capturar. Quando é que se fica velho? Aos 60, 65 ou 70 anos? Nada mais flutuante do que os contornos da velhice, vista como um conjunto complexo fisiológico-psicológico e social. Temos a idade de nossas artérias, de nosso coração, de nosso comportamento? Ou bem, é no olhar dos outros que enxergamos nossa idade? Enfim, a única certeza é que desde que nascemos começamos a envelhecer. Mas o fazemos em velocidades diferentes. O modo de vida, o ambiente, a situação social aceleram ou retardam a evolução biopsicológica e entramos na velhice em idade muito diferentes.

Digo tudo isso, pois o Brasil está envelhecendo. Uma boa razão para começarmos a nos aproximar do tema é a mudança de relação com nossos membros da terceira idade. Antes marginais, eles hoje são a espécie mais comum de cidadãos. O idoso e a idosa em boa forma, sábios e experientes, cada vez mais fazem parte da publicidade: oferecem máquinas de lavar, passeios turísticos, seguro de vida e outros produtos. A medicina se debruça sobre problemas específicos dessa clientela, os economistas se inquietam com o aumento de aposentadorias e os demógrafos se desolam com uma pirâmide de idades invertida – mais velhos, menos jovens – que aponta, a médio prazo, para um Brasil cheio de rugas. O Estado também vai tomando consciência da amplitude da situação e, com a lentidão habitual, vai começando a pensar nela. E os historiadores também.

Um deles, George Minois, fez um estudo interessante sobre idosos na sociedade inca, no Peru. Ele descobriu informações relevantes que aqui reproduzo. O Estado inca, que funcionava como espécie de grande família do chefe inca, procurou atribuir um papel preciso aos idosos. Sociedade extremamente organizada, cada um tinha o seu papel, como as formigas no formigueiro. Antes do século 12, os indígenas matavam e comiam os velhos. Mas a partir da conquista do chefe Mano Capac, no século 12, uma nova organização foi estabelecida, oferecendo aos idosos toda a segurança. Recenseados a cada cinco anos, eles eram repartidos por idade: dos 50 aos 70, dos 70 aos 80 e mais, demonstrando que a longevidade era normal. Havia a classe “dos que andavam com facilidade”, dos desdentados, e dos que só queriam comer e dormir. Registros da Igreja Católica, em certos vilarejos, a partir de 1840, comprovam que havia uma forte proporção de centenários que fumavam, bebiam e tinham uma surpreendente atividade sexual. Clique aqui para ler mais.

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