Uma sensação de aconchego, de colo de mãe

Por Maya Santana
Amélia tecia colchas de crochê para cada uma das quatro filhas

Amélia tecia colchas de crochê para cada uma das quatro filhas

Déa Januzzi


Sempre que ela sai com a blusa de crochê, tecida por Rosângela com todo o esmero, as pessoas a param na rua, elogiam, ressuscitam memórias afetivas de tias e avós que teceram o fio de uma longa e doce história. Nada como remexer o baú e reencontrar sentimentos vivos, ainda mornos, dentro do peito.

Ela se lembra da mãe com o nome de Amélia que tecia colchas de crochê para cada uma das quatro filhas. Ficava horas juntando os fios, tecendo franjas, sempre em tons pastéis, até que uma delas surpreendeu pedindo uma colcha vermelha. Uma cor inusitada para época tão tradicional.

A colcha vermelha a acompanha até hoje. Depois da morte da mãe, ela mandou a colcha para a lavanderia, enrolou-a carinhosamente para ocasiões especiais e teve a oportunidade de estendê-la na cama outra vez, no dia do aniversário dela.

Todos os convidados se encantaram com a colcha, queriam uma igual. Se pudesse, ela enviaria o pedido para o universo, quem sabe a mãe continue tecendo colchas incríveis, ajeitando as mãos entre as nuvens e distribuindo-as entre os anjos.

O fato é que o feito à mão tem despertado a emoção das pessoas, que se tingem de lembranças. Até o arquiteto Carlos Solano, autor das oficinas sobre a casa natural, aconselha que as pessoas tenham produtos feitos à mão para harmonizar o ambiente. Ela mesma queria uma colcha que estava na cama da casa de Solano, feita pelas bordadeiras de Tiradentes. É algo mágico: colcha feita à mão produz uma sensação de aconchego, de colo de mãe, de café coado na hora.

Colcha feita à mão desperta a vontade de rezar diante de um altar improvisado no canto do quarto, de pedir à mãe para fazer bolinhos de chuva enrolados no açúcar. Dá vontade de voltar a ser criança e ter mais tempo para curtir a mãe enquanto ela está entre nós.

Colcha de crochê sempre a leva até Barão de Cocais, na Região Central, onde a prima Beatriz ainda tece bicos de crochê para os panos de prato. Beatriz aprendeu com a mãe, Juracy, exímia doceira e bordadeira que também teceu para toda a família, inclusive para os enxovais das sobrinhas que iam se casar.

Beatriz conserva a tradição do fazer à mão, tanto que outro dia bordou em ponto de cruz alguns tecidos com as palavras amor e gratidão. Ela é assim: está sempre pronta para atender um pedido das primas de BH. Não se furta em mostrar seus dotes, sejam culinários ou feitos à mão. Mas Beatriz também tem suas modernidades. Não é que outro dia ela surpreendeu pedindo para ser amiga no Facebook? Ou convidando para vê-la cantar no coral?

Beatriz acompanha o tempo. Afinal, tem seis filhos e netos para puxá-la para o mundo de hoje. Ela é uma mulher especial, que borda, cozinha, cuida da casa, do marido, dos filhos, dos netos, mas também faz pilates, anda de bicicleta, toca violão, viaja para a casa da filha nos Estados Unidos e ainda consegue ter o jardim mais bem cuidado de Barão de Cocais.

Ela sempre liga para dar notícia de que uma flor-de-seda acaba de nascer ou que uma exótica orquídea está enfeitando o vaso perto da sua janela. Ela tem loucura por flores e plantas e ainda acha tempo para bordar a própria vida.

Esta crônica de Déa Januzzi foi publicada originalmente pelo Estado de Minas, com o titulo de “Blusa de Crochê”.


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