
Ana Helena Gomes
50emais
Estava de boa em casa, manhã nublada e quente, quando caio no vício de atender o celular, sem checar se é alguém conhecido. A foto é de um homem de terno e a marca de uma empresa de investimentos, a XP. O nome que aparece é Paulo Roberto.
Inadvertidamente falo com ele, ignorando que até a voz a IA é capaz de simular como sendo minha.
O cara me diz que está numa investigação junto à Polícia Federal, ao setor de Inteligência do governo, à Polícia Civil e escambau a quatro, para checar o que está sendo feito com as vinte e sete vítimas, inclusive eu, que estão tendo as contas do Itaú fraudadas.
– A senhora incluiu prefixos 11 na sua conta? Consta que a senhora adicionou dois números deste prefixo. Estou aqui ao lado com a sua gerente, (disse o nome). Vou precisar checar alguns dados para continuarmos o nosso trabalho.
Pede data de nascimento, nome da mãe, confirma o CPF, e solicita minha colaboração. O acusado da fraude é o meu gerente do Banco Itaú, ( disse o nome ), vou omitir. . São vinte e sete pessoas lesadas, todas gerenciadas por ele.
-Preciso que senhora vá ao Itaú e peça um empréstimo pessoal de 80 mil reais e faça um TED para a pessoa que vou indicar. Diz que ela é sua amiga, tem 45 anos, precisa do dinheiro porque vai fazer um procedimento de emergência médica. Não importa em quantas parcelas a senhora vai dividir, nós restituiremos tão logo a senhora envie a foto do documento para juntarmos ao processo sigiloso de investigação.
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Obedeço. Ele diz que continuará comigo na linha, para eu deixar o celular ligado na bolsa e não permitir que ninguém no banco veja. Faço o empréstimo, passo o TED para a pessoa com o número do CNPJ enviado por ele e volto para casa. O banco recusou-se a enviar, não faz parte do meu perfil tal valor. Ele me orienta a voltar ao Itaú e refazer a operação.
– Para a senhora ver como são diabólicos, comenta, quando percebem que estamos agindo, bloqueiam.
Volto ao Itaú e insisto com o gerente de atendimento para refazer o TED. Inútil, ele esclarece que o sistema de segurança do banco identificou como fraude e demora muito a responder se vai me atender ou não, liberando o dinheiro. Não aceito tal explicação, ficarei no banco quantas horas forem necessárias. Ele me sugere esperar sentada. Sem comer nada desde às nove da manhã sigo enchendo o saco do gerente até às quatro da tarde. A voz do celular diz que é para eu ir ao restaurante, eles pagam. São muito gentis. Gentis Não me resta nada a fazer, vou-me embora, o celular continua ligado e ele passa a chamar, incessantemente, o triimmm, triiimmmm…. Quando atravesso a rua me vem um lampejo – quem é quem? Quem é quem?
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Abduzida. Prestando vassalagem àquela voz. Indignada, insistindo no envio dinheiro. Bocó. Deixo o celular chamar até cansar. Bocó.
No dia seguinte volto ao Itaú para agradecer a proteção. Ouço que muitos clientes caem nessa, é comuníssimo, tem gente que dá faniquito e leva até advogado.
-Não se culpe, acontece até com as melhores famílias inglesas, não se sinta culpada.
Estou no meio dessa conversa quando o celular chama mais uma outra vez. É o bandido outra vez? E o desmascaro.
Bloqueio o número, que agora já é outro e só então leio o que o cara escrevia enquanto eu estava refém – muitos erros de português, mexer com ch, entre outros.
Tão simples e tão complexo.
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