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A meta do Ministério da Saúde é vacinar pelo menos 90% dos grupos prioritários, inclusive pessoas acima dos 60 anos. Mas, até agora, embora a vacinação contra a gripe tenha se iniciado em abril, o número de vacinados está abaixo do esperado.
Todo mundo sabe que estar com a caderneta de vacinação em dia é fundamental como prevenção contra a gripe e a covid. Agora, estudos mostram que as vacinas também protegem contra infarto e AVC ´- acidente vascular cerebral – reduzindo em 40% a possibilidade das doenças cardíacas vitimarem o vacinado.
Segundo este artigo, o efeito protetor das vacinas é explicado pela prevenção de processos inflamatórios no organismo. Estes podem desestabilizar placas de aterosclerose (depósitos de gordura, colesterol, cálcio e células inflamatórias que se acumulam na parede interna das artérias) e favorecer a formação de coágulos.
Leia o texto completo de Múcio Tavares de Oliveira Jr, do The Conversation*, traduzido por O Globo:
Vacinar-se contra gripe, Covid-19 e outros vírus respiratórios pode reduzir significativamente o risco de ter um infarto ou acidente vascular cerebral (AVC) e de vir a sofrer de insuficiência cardíaca. Essa proteção é ainda mais importante para as pessoas que já convivem com doenças cardiovasculares ou têm risco de desenvolvê-las.
Evidências de estudos europeus, norte-americanos e multicêntricos (feitos em diferentes países para alcançar grupos específicas) mostram que a imunização diminui eventos cardíacos fatais e hospitalizações, com reduções que chegam a 41% na mortalidade cardiovascular em um ano.
O efeito protetor é explicado pela prevenção de processos inflamatórios no organismo. Estes podem desestabilizar placas de aterosclerose (depósitos de gordura, colesterol, cálcio e células inflamatórias que se acumulam na parede interna das artérias) e favorecer a formação de coágulos.
O mecanismo começa com a resposta inflamatória do corpo a uma infecção respiratória. Durante episódios de gripe, Covid-19 ou outras viroses, como o vírus sincicial, infecções e herpes zoster, há aumento da produção de citocinas e mediadores imunológicos, maior agregação plaquetária e um estado pró trombótico.
Esses fatores elevam a chance de ruptura de placas ateroscleróticas, interferência de artérias coronárias e cerebrais e consequente ocorrência de infarto ou AVC. Pesquisas apontam que o risco de infarto é até seis vezes maior nos sete dias seguintes ao início de uma queixa solicitada por exame laboratorial, retornando aos níveis basais após esse período.
Redução de internações e risco de morte
Entre os estudos que eu, o cardiologista, e os infectologistas Mônica Levi e Renato Kfouri revisamos, posso destacar um trabalho multicêntrico com 2.500 pacientes que tiveram infarto. Aqueles que receberam a vacina contra influenza tiveram 41% menos mortes por causas cardiovasculares, no período de um ano, quando comparados aos não vacinados.
Outra pesquisa prospectiva, envolvendo 5.000 indivíduos com insuficiência cardíaca, mostrou reduções de 23% na mortalidade cardiovascular, 21% na mortalidade por todas as causas e 24% nas hospitalizações por agravamento ou complicações da insuficiência cardíaca em pacientes vacinados contra gripe.
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Os dados não se restringem ao vírus influenza, causador da gripe. Investigações sobre a Covid-19 indicam que pacientes vacinados têm até 37% menos necessidade de internação em UTI e redução de cerca de 30% na mortalidade, em um ano, em comparação aos não vacinados.
No caso do Vírus Sincicial Respiratório (VSR) , para o que também existe vacina, análises em mais de 6.000 adultos apontam aumento de até 18 vezes no risco de eventos cardiovasculares graves (como infarto, arritmia e descompensação de insuficiência cardíaca) nos seis meses seguintes à infecção. Esses achados reforçam que é relevante prevenir-se por meio da vacinação.
Estudos observacionais e populacionais também associam picos de hospitalização e mortalidade cardiovascular às temporadas de gripe. Um levantamento russo, com 35 mil mortes por doença coronariana ao longo de sete anos, mostrou que o risco de infarto era 30% maior durante os meses de maior circulação do vírus da influenza. A pesquisa europeia chegou a conclusões semelhantes, reproduzindo o aumento de risco nos primeiros sete dias após a infecção e a queda abrupta depois desse período.
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Os benefícios da vacinação vão além da prevenção de complicações como agravamento de gripe, pneumonia, morte por doenças respiratórias e instabilidade de eventos cardiovasculares ateroscleróticos agudos. Em pacientes com insuficiência cardíaca, dados de longo prazo indicam que receber três ou mais doses de vacinas contra gripe ao longo de 12 anos está associado a uma redução próxima de 30% na mortalidade por todas as causas. O percentual é semelhante ao uso de medicamentos para melhorar a sobrevida desses pacientes. Há, ainda, promessas de que imunizações contra outras infecções podem contribuir para reduzir riscos cardiovasculares, embora as evidências ainda sejam em menor número.
Recurso de prevenção cardiovascular
O conceito de imunização como estratégia de prevenção cardiovascular vem sendo incorporado por diretrizes internacionais. A Sociedade Europeia de Cardiologia incluiu a vacinação contra influenza e Covid-19 nas suas recomendações para prevenção secundária em cardiopatas e idosos. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações oferece, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), vacinas contra gripe, Covid-19 e outras doenças para grupos de risco, incluindo pessoas com doenças cardíacas e hipertensão.
Lamentavelmente, porém, a cobertura vacinal nessa população ainda é baixa. Ampliar a adesão à vacinação é um desafio médico e social. A resistência cultural à vacinação, a desinformação e a crescente circulação de mensagens antivacina têm impacto direto na busca pela vacinação. Ao mesmo tempo, a incorporação da imunização como parte da rotina de acompanhamento de pacientes com doença cardiovascular exige maior colaboração e integração entre cardiologistas, clínicos e equipes de atenção primária à saúde.
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* Múcio Tavares de Oliveira Jr. é professor Livre-Docente de Cardiologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP)
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original.





