Velho é Lindo

Por Maya Santana
É uma questão de democracia: todos seremos velhos

É uma questão de democracia: todos seremos velhos

Mirian Goldemberg

Durante anos tive o hábito de anotar os meus sonhos. Acordava de madrugada e escrevia tudo o que havia sonhado. Depois de registrar o sonho, tentava voltar a dormir –o que não era nada fácil. Como tenho muitas noites de insônia, decidi parar de escrever durante as madrugadas.

No entanto, recentemente tive dois sonhos que me pareceram muito especiais. Enquanto sonhava, dizia para mim mesma: “Este sonho eu preciso anotar, é importante para as minhas reflexões sobre homens e mulheres”. O primeiro foi com dois amigos que conversavam sobre suas dificuldades amorosas. Um deles pergunta: “Por que as mulheres nunca dizem diretamente o que querem?”

E o outro, com um sorriso irônico, responde o que lhe parece óbvio: “Porque o que as mulheres querem é que você adivinhe o que elas querem sem que elas digam nada”. Acordei com a sensação de que se as mulheres aprendessem a dizer o que querem as relações amorosas seriam muito mais simples, prazerosas e felizes. E escrevi: “No Brasil, mesmo dentro da mulher mais poderosa, sobrevive uma Barbie cor-de-rosa”.

No segundo sonho eu estava dando aula e dizia para os meus alunos: “A única categoria social que inclui todo mundo é velho. Somos classificados como homem ou mulher, homo ou heterossexual, negro ou branco. Mas velho todo mundo é. O jovem de hoje é o velho de amanhã. Por isso, como nos movimentos libertários do século passado do tipo “black is beautiful”, deveríamos vestir uma camiseta com as ideias “eu também sou velho!” ou, melhor ainda, “velho é lindo!”.”

Fomos em passeata até Copacabana, todos unidos, os velhos de hoje e os velhos de amanhã, vestindo camisetas e levando cartazes. Na manifestação, inspirada em Martin Luther King, fiz um discurso apaixonado: “Eu tenho um sonho que um dia o velho será considerado lindo e que poderemos viver em uma nação em que as pessoas não serão julgadas pelas rugas da sua pele, e sim pela beleza do seu caráter. Livres! Somos livres, enfim!”

Acordei de madrugada repetindo alegremente a frase: “Somos livres, enfim!”. E com vontade de ir para Copacabana me manifestar gritando: “Eu também sou velha!” e “Velho é lindo!” (Fonte: Folha de São Paulo)

 


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