Velhos Dopados

Por Maya Santana
Você conhece algum idoso no Brasil que não tome antidepressivo?

Você conhece algum velho no Brasil que não tome antidepressivo?

Déa Januzzi

“Já tomei os meus remédios hoje?”, ela pergunta insistentemente, depois do café da manhã e da batelada de remédios que incluem um antidepressivo, um hipertensivo, outro para deficiência de memória, outro para dor nas articulações, e de passar um gel contra artrose nos joelhos. A filha diz para ela que já tomou, a cuidadora de idosos confirma, mas ela quer mais algum antídoto contra a idade avançada, pois tenta, por meio de remédios, espichar a vida e escapar da angústia de envelhecer. Você conhece algum velho (a) neste país chamado Brasil, que não toma antidepressivos? Eu não, afinal a solidão da velhice tem que ser mascarada, drogada, entorpecida. Os velhos deste país chamado Brasil estão todos drogados. São prisioneiros dos medicamentos de última geração e da enorme conta nas drogarias, que cobram caro pelo envelhecer.

Muitos estão chegando aos 100 anos, graças aos medicamentos, exames de diagnóstico, mas, ninguém da família, da área médica ou da sociedade sabe o que fazer com seus centenários, a não ser aprisioná-los em cápsulas protetoras, ou, melhor ainda, em casas com o pomposo nome de “longa permanência”, que pode ser traduzida com uma única palavra: asilo.  Os laboratórios, a cada dia, lançam remédios contra os distúrbios de memória, ou melhor, contra a degeneração do corpo, contra a decadência física. Ninguém fala mais em caduquice, hoje, todo velho tem doença de Alzheimer, o preço do envelhecer.

Ela grita lá de dentro: “Já tomei os meus remédios hoje?” Não adianta dizer que sim, porque ela quer mais. Remédio para tristeza, para solidão, para velhice, para abandono dos filhos. Ela tem uma gaveta cheia de drogas contra dores do corpo e da alma. Tem remédio de todas as cores e tamanhos e quando o efeito passa, ela se lembra de que está vivendo demais, de lucro, começa a se lamentar, se lembra da realidade do envelhecer num país chamado Brasil, em que os velhos são rejeitados, tripudiados, e têm que enfrentar o tempo de não ter nada que fazer. Os velhos vivem de lembranças de um passado distante.

É remédio para tudo

Todo tipo de remédio contra dores no corpo e na alma

Ela, então, grita de dentro do quarto: “Estou com dor no corpo todo”, até que alguém corre para dizer que ela está assim, porque não tomou o remédio para dormir e já são mais de 22h. Os habitantes da casa buscam sofregamente na gaveta o remédio do sono, o torpor da noite, o terror da velhice.  Ninguém perguntou para a senhora por que ela toma tantos remédios. Ninguém pediu que ela ensinasse aos filhos e netos e bisnetos algo que eles não sabem. Não, à essa altura da vida, os filhos estão adultos e acham que já não têm nada a aprender com a mãe. Não querem nem mesmo cuidar dela, pois a velhice dá trabalho. A senhora, então, dorme até às 11 da manhã, porque não tem nada o que fazer o dia inteiro. A insistência para que ela levante é negada, afinal, está cada dia mais lenta, por causa dos remédios e do peso da idade.

Levantar de manhã, depois da química noturna da medicação contra depressão e para dormir, é um esforço sobrehumano. Exige muito dela, mais do que esticar os braços e as pernas. A cada tentativa, o corpo volta para trás, como se não obedecesse mais seus comandos. Ela, então, vira para o lado e cochila mais um pouco.  O banho é outro desafio diário: além das barras de proteção e do tapete antiderrapante dentro do boxe, ela tem que se ensaboar com uma mão só. Agarra-se às barras, escora o outro lado do corpo nos azulejos. É uma luta. Lavar o cabelo, então, leva tempo e paciência, pois ela ainda tenta conservar sua independência. É hora de tomar os primeiros cinco remédios, enquanto reclama da dor na coluna e nos joelhos, enquanto tateia o chão com a bengala trôpega.

O neto, que vê a avó entupir-se de remédios, pede que ela o ensine a fazer cocadinha branca com coco ralado e leite condensado. Ela se anima, pede assessoria para ralar o coco, mas se lembra da receita toda, sem erros e sem consultar os cadernos. Afinal, passou a vida inteira nutrindo a família de doces, bolos, biscoitos e almoços diários.
Terminada a tarefa, ela saboreia o doce com o neto, mas logo, logo não tem nada para fazer e volta a pedir os remédios que entopem a gaveta. Ela toma, fica dopada para não ter que encarar seus 90 anos, dias longos demais e uma noite sem perspectivas diante da televisão, do terço da libertação e do livro de orações, entre uma novela e outra.

Déa Januzzi é jornalista e escritora. Publicou esta crônica originalmente no jornal Estado de Minas.


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5 Comentários

Déa Januzzi 21 de janeiro de 2014 - 01:39

Ieda, obrigada, estou me movimentando pra isso, viu? Beijos

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leda maria soares cunha bello 20 de janeiro de 2014 - 03:17

Dea,escreva um livro sobre viver na velhice. e chamo de velhice a partir dos 50.vc tem uma bagagem de vida, amigos, interpretação de fatos,riqueza de sentimentos.Não um livro para idosos. Um livro para todos, como os seus textos universais, que expresse as necessidades dos mais velhos, apenas como seres humanos, pois elas são as mesmas:atenção, mobilidade, sonhos, e não apenas a prisão da solidão e do rótulo hipócrita de idosos, terceira idade,melhor idade.
Use blogs, jornais de outros estados,rádio,faça palestras…precisamos de vc.

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nenez 16 de janeiro de 2014 - 16:23

´´

É triste mas é verdade!!!!!

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beatriz lima 16 de janeiro de 2014 - 03:07

Déa, lembrei das sábias falas de Antônio Carlos. O cuidado não pode ser sinônimo de aprisionamento e as dores da alma não se contém com pílulas valiosas, Excelente crônica. Beijo

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déa januzzi 15 de janeiro de 2014 - 20:01

Ai, ai, Maya, você sempre me surpreende. Saudade da minha mãe e hoje é a minha caixa de remédios que está cada diia maior. Beijos

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