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Velhos são os outros, nunca nós mesmos

Por Maya Santana

O nosso inconsciente ignora a velhice. Daí a incredulidade

O nosso inconsciente ignora a velhice. Daí a incredulidade, o escândalo

Helena Albuquerque

É a escritora Simone de Beauvoir que faz essa observação. No seu livro “A velhice”, relata como grandes escritores pensavam sobre esse tema. Goethe afirmava: “A idade se apodera de nós de surpresa”. O poeta Louis Aragon constata: “O que foi mesmo que se passou? A vida, e eu estou velho”. Não percebemos o nosso próprio envelhecimento, pois já que ‘hoje somos como ontem’ e ‘amanhã seremos como hoje’, o tempo vai avançando sem nos darmos conta. “Tenho que fazer um grande esforço para me convencer de ter hoje a idade daqueles que me pareciam tão velhos quando eu era jovem”, afirma Gide.

A verdade da nossa idade, do número de anos exatos que já se passaram, continua sendo mera aparência, enquanto o sentimento interno de juventude permanece muito vivo. É ao nos depararmos com o olhar alheio, do outro que nos vê pela aparência física, que nos chocamos diante do inevitável do nosso próprio envelhecimento.Uma residente de um lar de idosos declara: “Não me sinto de modo algum velha. Às vezes ajudo as vovózinhas e depois digo para mim mesma: mas você também é uma vovózinha!” Ou seja, diante das outras idosas, espontaneamente ela não acha que tem a mesma idade, precisa fazer um esforço de reflexão para se incluir no grupo das “vovózinhas” e mesmo assim, não deixa de se surpreender com a revelação!

Alimentamos a ilusão da eterna juventude. O nosso inconsciente ignora a velhice. Daí a incredulidade, o escândalo e a revolta provocados no idoso pela revelação de sua idade. Quem não se lembra da primeira e dolorosa vez em que deixou de ser endereçado como “você”, ou viu alguém se levantar para lhe oferecer o lugar.

Ser chamado de ‘velho’ ou ‘velha’ soa, na nossa cultura, como um insulto. Alguns o vivenciam dessa forma com mais intensidade que outros. Flaubert, que, na contramão, desde sempre parece ter se sentido velho, comenta: “Na minha idade, não se recomeça: acaba-se, ou melhor, descamba-se.” Entre achar que ao entrar na velhice é inevitável “descambar” e, na outra ponta, achar que é obrigatório permanecer eternamente jovem, há um caminho do meio.

Aceitar a própria idade nunca é fácil. Há sempre um descompasso e um algum conflito entre nós mesmos e a nossa idade. No entanto, ter a sensação de que “o tempo não passa” e que a noção exata da nossa idade não se impõe no dia a dia depende da vida que levamos. Se ela for interessante e fizer sentido, teremos sempre uma jovialidade na disposição e vontade de viver e o escândalo do número de anos que carregamos nas costas não nos afetará tanto. Somos sustentados, subjetivamente, pelos nossos projetos de vida. Ter um “projeto de velhice”, isto é, um projeto para as últimos capítulos da nossa vida é fundamental para não “descambar”.

Simone de Beauvoir, cujas ideias e citações são a base desse texto, afirma que a vida é uma incessante transformação na qual se perde e reconquista o equilíbrio a cada instante: “A lei da vida é mudar.” O envelhecimento é um processo de mudança e é o termino de uma fase da vida e a continuação para outra. Dar um sentido para a vida, em todas as idades, importa para poder vivê-la bem e é um desafio para todos nós! (Fonte: Senhoras e Senhores)

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1 Comentários

Heliana Marques 18 de setembro de 2015 - 10:07

Amei o texto! Simone sempre será Diva!!
Viver sempre foi e será um grande desafio!
Obrigada pela refexão a que o texto me levou.
Heliana

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