fbpx

Vendo refugiado ser maltratado sinto vergonha de ser humana

Por Maya Santana

Número de refugiados da Síria, país em guerra, supera os quatro milhões

Número de refugiados da Síria, país em guerra, supera os quatro milhões

Cora Rónai, O Globo

Cada vez que sei de um haitiano sendo humilhado aqui no Brasil, tenho vontade de abraçá-lo e de pedir desculpas.

Como todo mundo, eu também não tenho encontrado muitos motivos de alegria no noticiário: está difícil ler o jornal, ligar a televisão, surfar pelas redes sociais. A imagem do menino morto me assombra, a maldade da cinegrafista me revolta, a cerca que a Hungria constrói me envergonha. Em cada foto e em cada relato dos refugiados vejo um pouco da minha família, deixando tudo para trás e fugindo mais uma vez dos assassinos.

Meus pais fizeram este caminho há mais de 70 anos, embarcados na última viagem de um navio que estava prestes a ser desmanchado. Vieram para o Brasil porque ninguém os queria em outro lugar, como ninguém quer hoje os refugiados sírios.

Meu pai, que era tradutor e, já naquela época, tinha ligações com escritores brasileiros, foi salvo pelo seu ofício, mas deixou para trás a família inteira. Recomeçou a vida angustiado. As poucas cartas que conseguiam cruzar o Atlântico chegavam aqui mutiladas e riscadas pela censura; as notícias que furavam o cerco eram terríveis, dando conta do desaparecimento ou da morte de parentes e amigos.

 Corpo do menino Aylan  Kurdi, 3 anos: símbolo da insanidade humana

Corpo do menino Aylan Kurdi, 3 anos: símbolo da insanidade humana

A família da minha mãe teve a sorte de escapar junta. Meus avós compraram do Vaticano, a peso de ouro, alguns vistos que o Brasil havia dado ao Papa para que fossem distribuídos, de graça, a famílias católicas atingidas pela guerra. Minha mãe e meu tio pertenciam a essa categoria porque, quando nasceram, meu avô estava brigado com a comunidade judaica e, de birra, mandou batizar os filhos. Quando saíram da Itália, só havia dois lugares no avião que os levaria a Lisboa. Os filhos queriam que os pais fossem na frente, os pais insistiram para que os filhos viajassem primeiro. No fim, Mamãe e tio Giorgio pegaram o precário teco-teco que os deixou a salvo em Portugal. Meus avós conseguiram lugar num outro voo, dias depois.

Em Budapeste, a família do meu pai se desmanchava. Um irmão foi para a Turquia, onde acabou se suicidando, outro desapareceu. Seu pai morreu, os tios foram mortos, a primeira mulher foi fuzilada pelos nazistas às margens do Danúbio — aquele mesmo rio romântico da valsa de Strauss. Minha avó e minhas tias passaram os anos da guerra escondidas nos armários da cozinha da embaixada sueca, onde a sogra de uma delas trabalhava como cozinheira, e nunca conseguiram superar esse trauma.

Cresci com essas histórias e com essas ausências. Meus amigos tinham tios, primos, famílias enormes. Nós éramos só nós, uns pouquinhos de nós, que mal enchíamos uma casa. Tínhamos álbuns de fotografias cheios de gente, mas eram na maioria fantasmas, gente desaparecida no inferno, a multidão que não povoou as nossas festas e encontros familiares: o tio que foi entregue aos alemães pelos padres que o acolheram, o primo que sumiu, a avó que não resistiu à marcha forçada. Cada um deles é um espinho no meu coração. Às vezes os imagino todos juntos, na Europa aparentemente civilizada dos anos 1930, conversando em torno da mesa, e ntre pratarias e cristais; sei como eram, sei o que faziam, sei o que gostavam de comer.

Refugiados, principalmente mulheres e criaças,  na Turquia

Refugiados, principalmente mulheres e criaças, na Turquia

A guerra faz isso com a gente. Quando não mata todo mundo, deixa cicatrizes que atravessam gerações. Olho para as crianças refugiadas no colo dos pais e para a barriga das mulheres grávidas e me vejo ali. Sei exatamente como essas crianças vão se sentir ao longo da vida, sei a saudade que vão ter de lugares e de pessoas que sequer chegaram a conhecer. Vão morar em Berlim, na Grécia ou em Southampton, mas parte delas permanecerá para sempre em Mosul, Homs ou Damasco. Vão sonhar com reuniões de família imensas, com casas de parentes que não existem mais, com frutas e comidas que provavelmente jamais experimentarão.

Cada vez que sei de um haitiano sendo humilhado aqui no Brasil, tenho vontade de abraçá-lo e de pedir desculpas, muitas desculpas; cada vez que vejo um refugiado sendo maltratado em qualquer lugar do mundo vejo também meu pai, minha mãe, meus avós, e sinto vergonha de ser humana.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

dez + 2 =

2 Comentários

Avatar
Débora Lahtermaher 20 de setembro de 2015 - 09:17

Cora, o sentimento é o mesmo…meus avós também vieram da Europa para o Brasil em busca de refúgio e esperança. Sempre repetiam o quanto eram gratos a oportunidade que tiveram de recomeçar suas vidas aqui.
Crescemos todos valorizando a solidariedade e o respeito pelo diferente.
As imagens que vemos são angustiantes e revoltantes.

Responder
Avatar
Norma 19 de setembro de 2015 - 07:43

Sinto e penso igual a voce. O que podemos fazer para mudar essa situacao alem de nos sentirmos profundamente frustrados, decepcionados e compadecidos?

Responder