
50emais
Na sala, a novela ligada. Na cozinha, o barulho do copo. No celular, a frase que parece pequena e vem com ameaça embutida: “Você vai sair mesmo assim?”.
“Eu tinha 57 anos quando entendi que não era ciúme, era vigilância”, conta Marta, nome fictício, administradora, moradora São Paulo. Ela descreve um casamento longo que, por fora, parecia estável. Por dentro, o controle foi fechando as saídas: cobrança por horários, críticas que viravam humilhações, brigas por dinheiro, pressão para reduzir contato com amigas. “Quando eu falava em me separar, ele dizia que eu não ia conseguir me sustentar e que ia ‘resolver do jeito dele’. Passei a dormir com o celular na mão.”
Marta não foi para a delegacia no primeiro episódio, nem no quinto. Foi quando percebeu que a casa tinha virado um lugar de medo. Ela ligou para o 180, entendeu quais serviços existiam na cidade, registrou ocorrência e pediu medida protetiva. “Eu não queria vingança. Eu queria paz e segurança.”
O que os dados dizem
O Brasil fechou 2025 com 1.518 feminicídios, uma médica de quatro assassinatos por dia, o maior número da série histórica, segundo a Agência Brasil, com base em dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública,
A violência sexual também avançou: o país registrou 1.492 feminicídios e 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024, outro recorde segundo o mesmo anuário.
Para além desses números assustadores, que só crescem, a mensagem é direta: o risco está perto. Muitas vezes, dentro de casa, em relações íntimas.
Leia também: Violência contra a mulher: até quando haverá tanta impunidade?
Dependência financeira
“Eu só fui perceber o tamanho do buraco quando comecei a procurar apartamento”, diz Marta. O salário dela pagava as contas do mês, mas não sustentava uma mudança com tranquilidade. Ela tinha parado de investir em cursos, abriu mão de oportunidades e, com o tempo, foi ficando mais isolada. “Eu tinha renda, mas não tinha autonomia.”
Dependência financeira nem sempre é ausência de dinheiro. Pode ser impedimento de acesso a contas, cartões, documentos, senhas, investimentos. Pode ser também a chantagem explícita: “Sem mim você não vive”. Esse tipo de violência patrimonial e psicológica aparece com frequência nos relatos de mulheres maduras, porque envolve casamento longo, patrimônio compartilhado e, muitas vezes, anos de desequilíbrio na tomada de decisões.
O recomeço, quando acontece com proteção, costuma seguir um roteiro parecido:
- reorganização da rede de apoio, com uma ou duas pessoas de confiança;
- orientação jurídica para separar o que é medo do que é direito;
- plano financeiro do básico para os primeiros meses, com corte de riscos e prioridades claras;
- retomada de trabalho, renda complementar, ou reentrada planejada no mercado.
Leia também: Violência contra a mulher depois dos 50 tende a ser menos visível
E aqui entra um dado que conversa com a vida real: em 2024, o Ligue 180 atendeu 691.444 ligações, alta de 21,6% em relação a 2023, segundo o governo federal. É sinal de procura por informação, caminho e acolhimento.
Canais e documentos úteis, se houver risco imediato
- 190 (Polícia Militar), emergência.
Orientação e encaminhamento
- 180 (Central de Atendimento à Mulher), gratuito e 24 horas. Orienta, registra e encaminha denúncias para a rede de atendimento.
- Providências que você pode pedir
- Registro de ocorrência na Delegacia da Mulher, quando houver, ou em qualquer delegacia.
- Medida protetiva de urgência (Lei Maria da Penha), que pode incluir afastamento do agressor e proibição de contato e aproximação. Em geral, é possível solicitar a medida já no registro da ocorrência, sem precisar de advogado para fazer o pedido inicial.
Leia também: O silêncio mata. Não se cale. Ajude a conter a violência contra a mulher
Documentos e itens que ajudam
- Documento de identidade e CPF.
- Comprovante de endereço, se tiver.
- Qualquer prova disponível com segurança: prints de mensagens, áudios, e-mails, registros de ligações, fotos de danos, nomes e contatos de testemunhas.
- Informações sobre filhos, dependentes e bens comuns, quando o caso envolver separação e proteção patrimonial.
Onde buscar apoio jurídico e social
- Defensoria Pública do seu estado, para orientação jurídica gratuita, especialmente se houver risco e necessidade de medida protetiva. (defensoria.df.gov.br)
- Serviços locais de atendimento a mulheres, como centros de referência e estruturas de acolhimento, quando existirem. O 180 orienta sobre a rede disponível. (Serviços e Informações do Brasil)





