Violência contra a mulher, não vê quem não quer

Por Maya Santana
Os números são alarmantes: só em 2013, mais de 500 mil estupros

Os números são alarmantes: só em 2013, centenas de milhares de estupros

A violência contra a mulher no Brasil está chegando a níveis alarmantes. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estima que em 2013 aconteceram 527 mil tentativas ou casos de estupros consumados no país. Os assassinatos de mulheres ocorrem com mais frequência do que imaginamos e, apesar da criação de medidas de amparo legais, como as delegacias da mulher, o número de agressões sofridas de maridos, namorados, irmãos só cresce. É disso que trata este artigo ” Não vê quem não quer”,  de Flávia  Oliveira, publicado em O Globo. O desrespeito à mulher é incentivado até nas letras das músicas.

Leia o artigo:

Violência contra a mulher no Brasil é real e banal. Está na música, nas ruas e nos boletins de ocorrência das delegacias de polícia. Se o  Brasil voltasse duas semanas no tempo e os resultados da pesquisa “Tolerância social à violência contra a mulher” ganhassem as ruas sem traço de erro. Se recuasse um ano no calendário e os questionários do Sistema de Indicadores de Percepção Social não tivessem chegado aos 3.810 entrevistados. Se viajasse meio século na história, quando nem o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada existia. Ainda que qualquer das três hipóteses se materializasse, o Brasil seria um país em que a violência contra a mulher é real. E banal.

O teste, sem amostra estatística, formulários ou percentuais tabulados, está ao alcance de quem estiver disposto a enxergar um palmo adiante. Para começar, ouça a canção. Melhor dizendo, as canções. Para-raios de fenômenos sociais, compositores brasileiros eternizaram ameaças e maus-tratos em suas obras. Rosa Maria Araujo, presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio, tem exemplo secular. Heitor dos Prazeres compôs “Mulher de malandro”, na primeira metade do século XX. A letra, de 1932, ensinava: “Ela vive com tanto prazer/ Quanto mais apanha/ A ele tem amizade”.

O mestre João Bosco, em 1976, deu voz a “Gol anulado”, que Elis Regina gravou oito anos depois. A música, parceria com Aldir Blanc, outro deus da MPB, começava explicando: “Quando você gritou mengo /No segundo gol do Zico /Tirei sem pensar o cinto /E bati até cansar”. Ali, a violência é impulso, detonado pela decepção. Zeca Pagodinho, em 1997, tratou da banalidade das agressões de gênero em “Faixa amarela”. Lá pelo terço final do samba, a declaração de amor se torna ameaça de espancamento e execração pública: “Mas, se ela vacilar, vou dar um castigo nela/ Vou lhe dar uma banda de frente/ Quebrar cinco dentes e quatro costelas/ Vou pegar a tal faixa amarela/ Gravada com o nome dela/ E mandar incendiar/Na entrada da favela”.

Num pré-Mercosul macabro, Sidney Magal, lá nos anos 70, cantou “Se te agarro com outro te mato”, versão de Sebastião Ferreira para a canção do argentino Cacho Castaña. O refrão começa com o título, autoexplicativo, e continua com o verso “Te mando algumas flores e depois escapo”, numa evidente certeza de impunidade. Clique aqui para ler mais.


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