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“Voltamos a viver”: tratamento com cannabis medicinal devolve convivência familiar

Com melhora no humor, na socialização e na participação familiar, idosa de 86 anos retomou atividades que haviam desaparecido da rotina

09/05/2026
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Maria Isabel, 86, com a filha, Luciane, 49: uma nova vida após o uso da cannabis medicinal. Foto: Acervo familiar

 Gabriel Ramos Stellin Malagrino
 Schwab Comunicação

“Cannabis é vida, paz, amor e harmonia familiar. Cannabis é simplesmente voltar a viver.” É assim que a gestora de obras Luciane Csizmar de Oliveira Mariano, de 49 anos, define a transformação vivida por sua mãe, Maria Isabel, de 86 anos, desde o início do tratamento com medicamentos à base de cannabis medicinal, há quatro anos. Moradoras de Alfenas, no sul de Minas Gerais, elas encontraram no tratamento uma possibilidade de reconstruir a rotina da família após o avanço da demência.

Antes da cannabis, Maria Isabel utilizava cerca de 14 comprimidos diferentes para controlar sintomas como agressividade, alterações de humor, agitação e episódios severos de desorientação. A rotina da casa era marcada por tensão constante. Situações simples, como mudar de ambiente ou sair para um passeio, se tornavam difíceis e imprevisíveis.

Qualidade de vida

O primeiro contato com o tratamento surgiu de forma inesperada, durante uma conversa informal em um salão de beleza. A partir dali, Luciane decidiu procurar uma médica prescritora especializada, na cidade vizinha de Varginha, e iniciou uma jornada que mudaria completamente a dinâmica familiar.

“Hoje temos qualidade de vida. Não apenas para ela, mas para todos nós. Antes, não conseguíamos sair de casa. Qualquer mudança de ambiente gerava agitação, agressividade e muito mal-estar. Hoje conseguimos ir a restaurantes, festas, passeios e até viajamos para a praia no fim do ano passado”, conta.

Com a evolução do tratamento, Maria Isabel voltou a participar das conversas, demonstrar interesse pelos encontros em família e aproveitar momentos simples do cotidiano. “Ouvir nossa mãe perguntar o que faremos no final de semana nos traz muita alegria. Aos poucos, ela foi retomando parte da cognição e restabelecendo vínculos importantes com meu pai e com os 6 netos.”

Venceu preconceito

Luciane lembra que o preconceito foi um dos primeiros obstáculos enfrentados pela família. “No começo tivemos medo. Pensamos: ‘Será que ela vai ficar dopada?’. Mas aconteceu justamente o contrário. Dopada ela estava antes, com tantos medicamentos convencionais. Hoje ela vive, participa, passeia e convive.”

Leia também: Troquei um remédio tarja preta pela cannabis medicinal

Outro desafio inicial foi a adaptação ao sabor do medicamento, algo ainda mais delicado em pacientes com demência. A família precisou criar estratégias para facilitar a administração, diluindo o óleo em bebidas e alimentos.

Os impactos positivos também mudaram a relação da família com a comunidade ao redor. Durante as crises mais severas, vizinhos chegaram a chamar a polícia por suspeita de maus-tratos, diante dos episódios intensos de agressividade e descontrole. Com a estabilização dos sintomas, situações como essa deixaram de acontecer.

Sintomas sob controle

“Neste dia das mães vamos reunir a família toda em um animado almoço com mais de 40 pessoas. Mesmo enfrentando os desafios da demência, ela ama esses encontros e nos mostra que o amor continua presente e conduzindo tudo”, diz Luciane.

A família voltou a desfrutar de momento bons, como esse na praia. Foto: Acervo familiar

A médica Mariana Maciel, fundadora da Thronus Medical, explica que a redução da polimedicação representa um dos pontos mais relevantes no cuidado de pacientes neurológicos e idosos. “É comum encontrarmos pacientes com demência utilizando múltiplos medicamentos simultaneamente para controlar sintomas comportamentais, ansiedade, insônia e agitação. Em muitos casos, isso aumenta o risco de sedação excessiva, quedas, perda de autonomia e outros efeitos adversos importantes. A cannabis medicinal surge como uma alternativa terapêutica capaz de auxiliar no manejo desses sintomas de forma mais integrada e individualizada”, explica.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55 milhões de pessoas vivem atualmente com demência no mundo, com quase 10 milhões de novos casos registrados todos os anos. A condição figura entre as principais causas de incapacidade e dependência entre idosos, afetando não apenas os pacientes, mas também familiares e cuidadores.

Olhar humanizado

“Temos avançado muito na construção de evidências robustas sobre o uso da cannabis em doenças neurodegenerativas. Estudos recentes têm investigado o potencial dos canabinoides no manejo de sintomas comportamentais associados à demência, como agressividade, agitação, alterações de humor e distúrbios do sono”, afirma Dra. Mariana.

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Para a médica, o maior conhecimento dos pacientes sobre o uso da cannabis medicinal é importante para que o preconceito seja vencido. “O medicamento à base da planta não deve ser visto apenas como uma alternativa terapêutica, mas como parte de uma mudança na forma de olhar para o paciente de forma humanizada. Quando conseguimos devolver conforto, participação social, convivência familiar e dignidade, estamos falando de saúde em seu sentido mais amplo. Muitas vezes, o maior resultado não aparece em um exame, mas no momento em que uma família consegue voltar a viver junto”, finaliza a médica.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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