
50emais
A beleza está na voz grave, na forma de ocupar o palco, na maneira como fala de racismo, envelhecimento e liberdade, sem transformar nada em espetáculo. Existe uma serenidade muito particular em algumas pessoas maduras. Não a serenidade resignada, mas a de quem já não negocia tanto a própria identidade. Zezé parece ter chegado há muito tempo nesse lugar.
Talvez por isso ela desperte algo tão forte em mulheres acima dos 50. Não apenas admiração. Mas identificação e reconhecimento de alguém que atravessou o tempo sem se apagar, lutando pelo que acredita.
Diante de nós
Um dado que explica muito da admiração dos brasileiros por Zezé Motta é que ela pertence a uma geração de artistas que envelheceu diante do público, diante de nós. O Brasil viu sua juventude, seus grandes papéis, sua beleza exuberante, suas fases difíceis e sua maturidade. Zezé permanece contemporânea.
Não porque tente acompanhar tendências. Mas porque autenticidade não envelhece. Em tempos dominados por filtros, harmonizações, personagens cuidadosamente fabricados para redes sociais e uma exaustiva obrigação de parecer feliz o tempo inteiro, há algo profundamente elegante numa mulher que apenas continua sendo ela mesma.
Cultura brasileira
Sua homenagem no Prêmio Shell, em março, “em reconhecimento à sua trajetória e contribuição para a cultura brasileira.” acontece num momento em que o Brasil começa muito lentamente a rever a maneira como olha para a velhice, especialmente a feminina. Ainda há muita invisibilidade, preconceito e redução. Mas algumas mulheres abriram caminho para outra narrativa.
Zezé Motta é uma delas. Sua permanência não é apenas artística. É simbólica. Ela representa mulheres que continuam desejando, criando, trabalhando, aprendendo, amando e ocupando espaço muito depois da idade em que a sociedade esperava que elas se tornassem invisíveis.
E talvez seja essa a maior beleza de Zezé Motta. Ela nunca pareceu interessada em lutar contra o tempo. Preferiu algo muito mais difícil. Continuar inteira dentro dele.
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