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Crônica de uma filha que perdeu a mãe para o alzheimer

Por Maya Santana

Leila Ferreira é jornalista e escritora

Leila Ferreira, nascida em Minas Gerais, é jornalista e escritora

Leila Ferreira

Virar mãe de nossas mães talvez seja uma das experiências mais dolorosas da vida. Nada, mas nada mesmo, nos prepara pra isso. Passar a ser a protetora de quem nos protegia, assumir a tutela de quem nos amparava: é todo um script que tem de ser refeito, todo um roteiro a ser recriado. Você acompanhou a doença de sua mãe. Eu acompanhei a perda gradual de lucidez da minha. São dores diferentes, mas vividas com a mesma intensidade. E quantas mulheres passam por essa orfandade precoce, esse ensaio da perda, ou essa morte antes da morte, quando tudo em nós diz que ainda somos filhas.

Nunca vou me esquecer de uma tarde em que eu estava lendo no quarto da minha mãe e ela pediu que buscasse um café na cozinha. Quando voltei com a xícara de café, ela estava chorando, aquele choro que faz sacudir o corpo todo, e começou a me perguntar repetidamente onde é que a gente estava, que lugar era aquele que ela não conhecia, e me pedia, com uma tristeza tão profunda que parecia uma dor física: “Me leva para a minha casa, minha filha… Me tira daqui…”. Eu explicava que ali era a casa dela, mas não adiantava.

Aí, tentei dizer que mais tarde eu levaria, mas, com a tristeza cortante na voz, ela voltava a pedir: “Me leva agora…Eu não agüento mais ficar aqui”. Ela queria uma casa que já não existia. Eu queria a mãe que já não havia. E ficamos ali chorando,as duas, desconsertadas e impotentes diante do que não fazia sentido, ensaiando palavras que não diziam nada e depois nos encontrando no silêncio.

Na crônica que você cita, eu descrevo nosso cotidiano: pentear seus cabelos, convencê-la a trocar o vestido com manchas de café, lembrar a hora de tomar o remédio, lembrá-la de sentir sede, lembrar o aniversário dos filhos e o próprio aniversário, lembrar, lembrar… E eu me obrigava a esquecer que ainda precisava tanto dela, que suas palavras, sempre precisas e justas, tinham deixado de pontuar minha vida e que sem elas eu me via sem mapa e sem rumo.

Ah, Cris, que falta ela já me fazia então e que falta que ela me faz hoje… Não consegui desaprender o papel de filha a tempo e hoje tenho saudades de ser, a um só tempo, sua filha e sua mãe. Já peguei o telefone tantas vezes para falar com ela depois que ela se foi. Já entrei numa loja de aeroporto para comprar um presente para ela e saí atordoada quando me lembrei que já não haveria presentes. Penso em contar tantas coisas para ela, penso em fazer uma mágica qualquer e dar a ela a neta (minha filha) que ela não teve. Seria tão bom estarmos as três juntas… Esta mãe que eu amava tanto e esta filha que não houve, mas que eu sei que amaria mais que tudo… conversando, rindo, tomando café, falando de alegrias, de perdas, de amores…Porque a gente falava de tudo. A gente sentia, ria e chorava juntas. E com a minha filha também seria assim.

Ah, Cris, as perdas nos deixam sem ar, sem ter onde pisar – e dói o mesmo tanto perder o que tivemos e o que nunca chegamos a ter. Uma perda nos arranca o passado. A outra nos rouba o que viria. Resta o presente, claro, e é nele que temos que viver, como o Gui fazia. Aproveitar o momento, como a Erma Bombeck aconselhava. Raspar o prato da sobremesa no jantar do Titanic.

Continue sonhando desavergonhadamente com o amor. Há sonhos que são delírios. Este não. Você ainda vai encontrar mãos que passearão sem pressa por suas tatuagens, segurar amorosamente as mãos do seu filho e envelhecer juntinho das suas.

Eu vou continuar sonhando com a leveza que vem da ausência do medo.
Nossas mães estão nos olhando, de onde estiverem. Voltaram a ser mães, tenho certeza, e vão nos ajudar a encontrar o caminho.

Trecho do livro “Que ninguém nos ouça”, de Leila Ferreira e Chris Guerra, Editora Planeta.

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26 Comentários

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Nisia Menezes 23 de junho de 2019 - 08:14

Também passei pelo alzeihmer de minha mãe. Digo que foram tempos muito difíceis mas que nos uniu muito mais ainda. Tempo em que eu, sua única filha, foi se tornando sua mãe. E para ela foi um momento muito feliz, pois como não pode conhecer sua mãe, que faleceu quando ainda era muito novinha, teve sua mãe de volta! Mas a doença foi muito cruel para ela, quando sentiu que estava perdendo a memória, ver seu desespero, foram os momentos mais difíceis de nossas vidas!! Só superados pela sua partida! Triste demais…

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Marli Bleinroth 22 de junho de 2019 - 10:56

O Halzeimer nos obriga a perder nossos queridos cada dia um pouco mais. Trata-se de um longo adeus.

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Lilian j m lopes 13 de julho de 2018 - 22:49

A crônica é muito emocionante pois toca no mais profundo sentimento de quem passa ou já passou pela mesma situação. É um misto de tristeza imensa com preocupação e responsabilidade de quem cuida de uma criança. É sentir saudades de quem está ali fisicamente , mas espiritualmente já partiu. É o sentimento de indignação e logo em seguida de abnegação. É uma luta interna de resistência à aceitação do mal que avança devagar e leva embora aquela mais amamos .

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Lilian Janete Moraes Lopes 13 de julho de 2018 - 22:38

A crônica é muito emocionante pois toca no mais profundo sentimento de quem passa ou já passou pela mesma situação. É um misto de tristeza imensa com preocupação e responsabilidade de quem cuida de uma criança. É sentir saudades de quem está ali fisicamente , mas espiritualmente já partiu. É o sentimento de indignação e logo em seguida de abnegação. É uma luta interna de resistência à aceitação do mal que avança devagar e leva embora aquela mais amamos .

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ANGELA CRISTINA RIBEIRO NOGUEIRA 11 de julho de 2018 - 00:28

Lindo e verdadeiro texto! Descreve com delicadeza muito do que cada um de nós passamos ou esta passando …
Eu já sentia saudade da minha mãe em vida , da nossas conversas, da nossa convivência,pois eramos muito amigas …Mas de uma forma ou de outra ela ainda estava ali, podia toca-la, fazer um carinho, dizer que a amava, rezar com ela , sentir aquele cheirinho de mãe, abraçá-la … Agora nem isso… É realmente muito dolorido perder a mãe
Mas ao mesmo tempo eu sei que foi melhor para ela e sinto que ela esta em paz e isto me conforta muito.

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bárbara 30 de junho de 2018 - 22:05

É triste…essa é minha realidade no momento….é um sentimento de impotência…não há solução…é como se tudo o que vivi…foi um nada…só restou lembranças minha parte.

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Márcia Clotilde de Góes 27 de junho de 2018 - 03:28

Há 11 anos cuido literalmente de minha mãe com Alzheimer, sou filha única, casada, uma filha de trinta anos, solteira e nos reversamos nas atribuições pertinentes a uma família pequena de classe média baixa. Não tem sido fácil para nós (como não é para ninguém), mas de todas as fases vivenciadas em momento de solidão (como agora), não sei como sobrevivi a tamanha impotência. Quando eu chamava “mainha e ela respondia ” SENHORA” doía a alma. Ouvir daquela mulher forte, determinada, que em 1959 comunicou aos pais que viria para Natal/RN estudar. Sinceramente é demais. Todos os familiares que cuidam de pais com Alzheimer são guerreiros.
Parabéns Leila pelo rico texto.

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Mercia 30 de abril de 2018 - 22:27

Como não se emocionar .vivendo a mesma história

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Maria do Rosário 29 de abril de 2018 - 18:38

Passei por essa situação , uma época que ainda não tínhamos acesso às literaturas e orientações com infinitos debates . Foi doloroso pra ela e pra nós que não compreendíamos o porquê dela travar a boca, não conseguir tomar a medicação e para isso tínhamos que triturar . . . etc. Com o tempo fomos compreendendo que a paciência e a perseverança era fundamental. O mais doloroso de tudo foi vê-la definhando, pouco a pouco, perdendo o interesse pelo que estava ao seu redor e por ai vai. Também vamos chegando a conclusão que dependendo do envolvimento e comprometimento no cuidado àquela que nos gerou, deu sua vida, passou noites e noites de sono velando por nós, se pudéssemos transferiríamos nossa vida para ela. Tudo que é feito, tem sempre algo a realizar mais . Digo-lhes que em muitos momentos, principalmente na sua última internação hospitalar, quem me socorreu foi a busca em Deus, a oração e a humildade diante dessa ralidade que nunca deixaremos de enfrentar – a morte. A partida desse ente querido que nos deu a vida.

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Hérida Salgado 1 de fevereiro de 2018 - 13:42

Lindo. Triste. Infelizmente estamos vivendo isto. É muito triste.

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Marta Morais 1 de dezembro de 2017 - 17:53

O que você passou eu também passei. È triste ir perdendo aos poucos aquela que a gente tanto ama! Eu sinto saudades demais , mas ao mesmo tempo já não queria vê-la sofrendo tanto; sem falar, sem comer, sem andar, sem viver!!!!!No ano de 2016 fui convidada para encenar uma peça”Pelos caminhos das rosas vermelhas”, que trata sobre esta doença e o comportamento da família diante dela. Achei que não conseguiria , mas valeu! Emocionante e levou a todos tristeza ao mesmo tempo uma reflexão: Só o AMOR é capaz de fazer alguém cuidar de uma pessoa com Alzheimer. Agora eu é que procuro a “casa dela”………….

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Dalva Justina Garcia 30 de novembro de 2017 - 00:59

Muito bonito esse testo e ao mesmo tempo triste. Já disse certa vez um neurologista, uma das piores doenças é o mal de Alzheimer, a pessoa morre estando viva. Convive por 6 anos com meu pai com essa doença, acaba com a pessoa e sua família.

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Luciana 29 de novembro de 2017 - 20:29

Lindo!! Triste, e lindo. Real…

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Rosana Neves 29 de novembro de 2017 - 13:43

Parabéns pela crônica! Me identifiquei e me emocionei muito.

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Sandra Helena Meyer Izidoro 28 de novembro de 2017 - 17:24

Adorei! Lindo! Gostaria de adquirir o livro.

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Vanda 28 de novembro de 2017 - 16:00

Lindo o texto. Cada palavra comoveu meu coração, também passei a.3 anos e 4 meses atrás pelo processo da separação. Vivo de.lembrancas e saudade da.minha mãezinha.

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Ilca Braga 28 de novembro de 2017 - 15:28

Perder a mãe é como perder um pedaço de nós , um pedaço que nunca mais vamos encontrar. É exatamente o tamanho da minha dor.Um abraço bem apertado p você.

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Anette 28 de novembro de 2017 - 11:21

Senti exatamente o que vc escreveu: a morte antes da morte. Ser órfã vendo minha mãe ali na minha frente sem me reconhecer . Triste, dolorido, impotente. Sinto muita falta dela. Mas a vida nos faz crescer com as dores.

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Eliane Covo 28 de novembro de 2017 - 09:40

Passando por isso…. mãe da mãe…. tarefa difícil…. não me ensinaram na vida como seria isso…. mas cá estou lutando dia após dia…. com a força que jamais imaginei que tivesse….

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Dulcina Schievelbein 27 de novembro de 2017 - 18:25

Uma dor semelhante e perder o companheiro, 51 anos de casados. Sentir a auséncia de amigos e parentes. Muito linda tua cronica, pretendo adquir o livro. Abracos.
.

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Nilda Bueno Fernandes 27 de novembro de 2017 - 17:28

Nossa amo essa escritora; estou lendo Viver não doi maravilhoso!

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Maria odete 20 de julho de 2017 - 18:33

Nossa emocionante! Lembrei de meu pai, bem assim mesmo!

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nenez 24 de novembro de 2016 - 13:39

Adooro Leila e as coisas que ela escreve…..

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Marcos Bethonico Muniz 23 de novembro de 2016 - 23:51

Tem um livro do renomado ARTUR DA TAVORA ”ALGUÉM QUE JÁ NÃO FUI” Se vc encontrá-lo,faço aqui minha singela sugestão. Esta questão do SENTIMENTO DE PERDA seja ele qual for,é complicado. Mas ele descreve de uma maneira muito simples. Posso lhe dizer que me ajudou e muito,quando perdi minha mãe. Leila eu te acho uma mulher incrivelmente pura de seus sentimentos e frágil. Por isso vc é uma pessoa linda. Vai daqui um grande Abraço Apertado.

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Heloísa Dallanhol 26 de julho de 2019 - 14:17

Li até o final e gostei.

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Neusa 20 de setembro de 2016 - 18:32

nossa me emocionei

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