Mulheres Históricas

Hipólita Jacinta, a única mulher entre os inconfidentes mineiros

Jornada dos Mártires, de 1928, pintura de Antônio Parreiras (1860-1937)

O espaço Mulheres Históricas é destinado a figuras femininas que marcaram e marcam seu tempo. Algumas mais conhecidas, outras nem tanto. A cineasta e pesquisadora Elza Cataldo lançará sobre suas trajetórias inspiradoras um olhar atento e amoroso para compartilhar com você em texto e áudio. A cada 15 dias, sempre às quartas-feiras, será apresentado o perfil de uma dessas mulheres extraordinárias. Iniciando a série, Hipólita Jacinta.

Elza Cataldo – 50emais

Podcast: Hipólita Jacinta, a única mulher entre os inconfidentes mineiros

Paradoxalmente, ao pesquisar a trajetória de uma mulher temos que recorrer aos registros sobre os homens. E quase sempre temosque lidar com ruínas: frágeis vestígios de memória. No caso de Hipólita não é diferente. Embora considerada a única mulher que teve participação no movimento libertário do século XVIII, conhecido como Inconfidência Mineira, ela ficou praticamente esquecida ,na historiografia.

Ao iniciar a preparação do filme Vinho de Rosas, percorri as ruínas da sua história. Primeiro, concretamente, ao visitar o que restou da sua fazenda em Prados, em Minas Gerais, e depois ao tentar entender o seu papel como inconfidente.

Confesso que na época ela não me impressionou muito. Como os indícios da vida de uma mulher muitas vezes se apresentam diluídos e quase invisíveis, temos que ser persistentes e revisitar sua memória várias vezes. É o que eu faço agora junto com você. Mas tenho uma razão para me redimir por não ter olhado antes com mais justiça para a figura da Hipólita.

A protagonista do filme Vinho de Rosas é Joaquina, filha de Tiradentes, e suas vidas não se cruzaram ou não poderiam terem se cruzado factualmente. Ao trabalhar a abordagem ficcional de uma personagem, procuro me ater ao reino do possível. Mesmo um fato que não tenha sido registrado historicamente vai fazer parte da minha narrativa cinematográfica se for crível e verossímil. Sendo assim, não era o caso de unir as personagens Joaquina e Hipólita.

Entretanto, posso agora afirmar que ela é realmente uma mulher histórica. Hipólita Jacinta Teixeira de Melo – registrada inicialmente como Theodozia – nasceu no ano de 1748 em Prados, onde morreu em 1828. Era filha de portugueses abastados de quem herdou duas fazendas, lavras minerais, mais de trezentas cabeças de gado, uma casa no Rio de Janeiro, móveis, objetos requintados e sessenta e seis escravizados. Ou seja, era uma mulher rica antes mesmo de se casar com Francisco Antônio de Oliveira Lopes. Um homem grande e obtuso. Sobre sua aparência física não temos muitos detalhes. Os retratos pictóricos ainda não tinham florescido em Minas, mais fértil em arte sacra. Era culta, educada, mais sagaz e corajosa do que Francisco Antônio, ele sim um inconfidente reconhecido.

Na Fazenda da Ponta do Morro, onde Hipólita morava com o marido, foram feitas várias reuniões dos inconfidentes. Ele conheceu Tiradentes em razão de terem “assentado praça juntos” (expressão curiosa). O alferes Joaquim José da Silva Xavier e Francisco Antônio serviram no Regimento dos Dragões de Minas, na então Vila Rica, hoje Ouro Preto.

Foi da fazenda que Hipólita enviou um bilhete para o Padre Carlos Corrêa de Toledo e Mello destinado aos conjurados mineiros. No bilhete, Hipólita alertava os revoltosos da ação de perseguição do governoportuguês.

Bilhetes e cartas são citados como sendo de sua autoria sempre preocupada em fazer circular acontecimentos importantes para a segurança de todos, alertando os envolvidos sobre a delação do traidorJoaquim Silvério dos Reis (um sobrinho por afinidade de Francisco Antônio) e a prisão de Tiradentesou procurando organizar uma estratégia para a continuidade do movimento.

Ela tentou impedir que o marido se tornasse um delator e destruiu documentos comprometedores para os revoltosos. Como era rica, teria financiado ações do movimento. Demonstrando, assim, uma personalidade destemida e generosa.Em um desses bilhetes, escreve Hipólita: “Dou-vos parte, com certeza, de que se acham presos, no Rio de Janeiro, Joaquim Silvério dos Reis e o alferes Tiradentes, para que vos sirva ou se ponham em cautela; e quem não é capaz para as coisas, não se meta nelas; e mais vale morrer com honra que viver com desonra”.

Da Fazenda da Ponta do Morro, onde Hipólita morava com o marido e foram feitas várias reuniões dos inconfidentes, restaram somente ruínas

É irresistível ressaltar a sabedoria do seu conselho, válido ainda hoje“quem não é capaz para as coisas, não se meta nelas”. Quão diferente seria o Brasil se um outro dos seus conselhos tivesse ecoado desde o século XVIII “mais vale morrer com honra que viver com desonra”.

Ela tinha plena consciência da importância dos ideais pelos quais eles lutavam, ou seja, melhoria das condições de vida e trabalho em Minas Gerais. Assim como tinha consciência dos riscos que corriam.

Hipólita tentou obter o perdão do seu marido que, preso, acabou sendo o inconfidente que mais revelou aos seus algozes informações sobre a conspiração e seus valorosos companheiros. Chegou mesmo a enviar um cacho de banana feito de ouro maciço para D. Maria I, Rainha de Portugal, que nunca chegou até ela. O tesouro tropical suplicante foi interceptado pelo Visconde de Barbacena, então governador da Capitania da Minas Gerais. (Dois exemplos de práticas tristemente atuais).

Hipólita acabou sendo também condenada por Lisboa e perdeu todos os seus bens. Com exceção de “algumas joias”que foram requisitadas “para seu decente ornato” (uma das poucas menções ao seu nome nos textos dos historiadores da Conjuração). Mais tarde, em mais uma demonstração de atitude e determinação, lutou pelos seus bens e acabou por conseguir recuperar parte deles muitos anos depois, em 1808, data em que D. Maria I já se encontrava exilada no Brasil. (O encontro plausível entre elas daria uma linda cena de filme).

Francisco Antônio e os outros inconfidentes presos foram degredados para a África, onde morreram. Tiradentes foi o único a receber a pena de morte em um ritual macabro que incluiu a execução na forca, o esquartejamento do seu corpo e a exposição da sua cabeça em praça pública.

Hipólita não teve filhos biológicos, porém adotou e criou dois meninos: um deles era filho ilegítimo de uma irmã de Bárbara Heliodora, mulher do inconfidente Alvarenga Peixoto, o que demonstra no mínimo alguma relação entre elas. Sobre isso também nada ficou registrado. #50emaismulhereshistoricas

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Elza Cataldo

Cineasta e Pesquisadora

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