fbpx

Lya Luft: “Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz”

Por Maya Santana

A escritora e tradutora gaúcha prestes a completar 80 anos de vida

Maya Santana, 50emais

Mais uma crônica de Lya Luft tratando da passagem do tempo, do envelhecer, um de seus temas preferidos. A escritora e tradutora gaúcha, a prestes a completar 80 anos – 15 de setembro -, escreveu durante anos para a revista Veja. Já há um tempo publica suas crônicas no Zero Hora, o principal jornal do Rio Grande do Sul. Neste texto, cujo título original é “O Rio do Tempo e Nós”, ela escreve que a passagem do tempo não apenas significa transformação e novidades, mas também perdas, e para muitos o terror do fim da juventude.

Leia:

No mês de setembro, ocorre a maioria dos aniversários de minha família: eu mesma, netas, filho, irmão, além dos que já se foram, como mãe e avó materna, sem contar os amigos. Suponho que tenhamos sido inventados nos cálidos meses de verão. Tenho, em relação ao correr do tempo, não amargura ou medo real, mas curiosidade – desde quando, menina mimada, bati o pé porque queria alguma coisa “agora”. Algum adulto presente achou graça e resolveu liquidar a minha manha:
“Deixa de ser boba, o agora nem existe”.

Iniciou-se um diálogo surreal: a menina curiosa e teimosa insistia em saber que história era aquela. Explicaram que o tempo passa constantemente, de modo que, quando pronunciamos a última letra da palavra “agora”, esse agora já é passado. Obstinada, várias vezes tentei pensar a palavra “agora” empilhando as letras numa coisa só – mas desisti.

Então, a cada momento, tudo passava, mudava e já era outro? Eu já era outra? Comecei a me angustiar, eu me angustiava com coisas que pouco tinham a ver com crianças, que, segundo adultos de então, deviam brincar, comer, dormir e se portar bem. Ainda por cima, alguém com humor macabro me alertou: “O tempo só para de passar quando a gente morre”.(Assunto para outra crônica.)

Sempre tive vontade de ser adulta: achava a vida e os assuntos dos “grandes” muito mais interessantes do que os infantis. Detestava ser comandada, numa época de educação bastante severa: por que ir para a cama às sete e meia? Por que só comer comidinha inocente, como purê de batata e carne de frango?
Por que não falar muito à mesa? Por que ter de aprender prendas domésticas como toda boa menina? Eu não queria ser uma boa menina: queria ser a Emília do Monteiro Lobato.

Aí fui vendo que a passagem do tempo não apenas significava transformação e novidades (parte boa para quem facilmente se entediava), mas também perdas, e para muitos o terror da perda da juventude. Tornou-se uma epidemia a busca desesperada por deter a qualquer custo os sinais do tempo: parecer trinta aos sessenta, ter lábios sensuais aos setenta – vale a pena?

A velhice (desde que não com o detestável nome de melhor idade) é uma fase natural da vida – um dom a ser curtido. Dor e doença não escolhem idade. Nem sempre a juventude é linda. No avançar do tempo, importa preservar certa elegância (quando dá…) e cultivar o bom humor (quando possível…). Tônia Carrero, ao fazer oitenta, respondeu a uma jovem jornalista que lhe perguntava como encarava a velhice: “Velhice? Eu acho ótimo! Porque a alternativa é morrer jovem”. E minha amada comadre Mafalda Verissimo, que sempre me faz falta, contou, fingindo-se indignada, que alguém ao telefone, sabendo que era ela, exclamou: “Dona Mafalda! A senhora, ainda tão lúcida!”.

Que se arrume o que nos incomoda, mas dentro de alguma normalidade. Deixem a gente ter o privilégio de envelhecer em paz, que a gente vai tentar não ficar ainda por cima rabugenta. E quem sabe o rio do tempo desemboca em algum mistério mais interessante do que nossas trapalhadas de agora?

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

7 − quatro =

21 Comentários

Avatar
Kátia Maria tonette 22 de janeiro de 2018 - 08:42

PERFEITO !!!!!

Responder
Avatar
Luciana Ferreira 3 de outubro de 2017 - 12:59

Adorei. Nem todos tem a nobreza e arte de envelhecer!
Tenho 48 anos e cultivo a juventude no meu interior, mantendo sonhos sempre!

Responder
Avatar
Marlene Madalena Possan Foschiera 3 de outubro de 2017 - 10:54

Sinto-me inteiramente contemplada, quero viver e fazer o que puder até o tempo parar.

Responder
Avatar
Carmira Theodozina Pereira 3 de outubro de 2017 - 08:14

Simples assim e pronto.

Responder
Avatar
ARMINDA MARIA PINHEIRO BORLIDO 2 de outubro de 2017 - 19:04

O viver é simplismente isto aí!!!Viver e sonhar sem preocupar com a idade…Enfrentar os obstáculos que são muitos e seguir em frente;;;Deixar tudo nas mãos de Deus Ele é quem sabe a hora de parar!!!

Responder
Avatar
Carmira 3 de outubro de 2017 - 08:12

Simples assim, pronto!!!!!

Responder
Avatar
Lucia Mutz 2 de outubro de 2017 - 17:29

Eu também faço 79 em Dezembro e me sinto normal, nem velha ,nem nova, mas vivida.
Vi muita coisa chegar e passar, e com elas várias mudanças, umas boas, outras nem tanto.
Vi que não adianta fazer birra, nem manha, porque certas coisas, mesmo que vc não tenha previsto, acontecem e vc tem que enfreta-las.
E, feliz é aquele que, pode enfim dizer depois de muito amar e sofrer, vivi.

Responder
Avatar
Maria de Fátima Lima de Holanda 2 de outubro de 2017 - 08:21

A vida é assim! Simples.

Responder
Avatar
Julia Maria Gonçalves 2 de outubro de 2017 - 16:38

Nos meus 85 anos de vida, adorei seu artigo e entre linhas me encontrei com saúde, atenta às notícias global procuro me vestir com certa elegância e pronta para o agora.um abraço.

Responder
Avatar
Meire Theophilo 2 de outubro de 2017 - 01:17

Parabéns Lya, sempre fui sua fã e tenho sentido muito a falta dos seus artigos na revista Veja! Por coincidência temos a mesma idade, completo 79 em novembro. Obrigada por tudo que aprendi com seus artigos durante todos estes anos e espero que continue nos agraciando com sua sabedoria por muito tempo.

Responder
Avatar
SIDÉREA CAMARGO. 1 de outubro de 2017 - 22:01

Eu considero que a “idade” está na mente. Não me adequo à expressão velhice…. particularmente, acredito que ñ envelhecerei !SÓ PASSAREI P/OUTRO PLANO QDO CHEGAR A HORA .

Responder
Avatar
Vera prolo 1 de outubro de 2017 - 18:07

Boa Tarde!
Impossível deixar de escrever. Preciso aprender a ser livre dos meus próprios tabus que percistem a me incomodar, porém com vc Lya tendo a coragem de ser vc mesma através de textos tão llindos e verdadeiros me permito sair do meu casulo e ser feliz.
Obrigado por tua coragem de escrever sobre velhos ou não velhos? Tudo questão de tempo ou não existe tempo, apenas questão de amor.

Responder
Avatar
Elaine Macedo 1 de outubro de 2017 - 16:13

Vdd.

Responder
Avatar
Marilene do Carmo Doberstein 1 de outubro de 2017 - 14:49

Ser velha é pra quem deixou de sonhar. Conheço muita gente velha com 20 anos.
E não me venham com aquelas de “senhoras devem ser recatadas e só apreciar o baile” … precisamos nos libertar de antigos padrões … afinal, todos queremos ser felizes e alegres, até os cento e tantos. Porque só quem está na faixa dos 20,30,40 e 50 pode sair pra dançar sem ser julgada? Vejo muita gente jovem julgar os demais muitoa … mas muitos mais que os mais adultos. Não servir de palhaços para outros, curtir uma boa música, dançar a música preferida quando toca, abraçar de verdade, amar sem cobranças nem julgamentos … porque amar interessa sim pra quem busca ser feliz … e felicidade é a busca desde que abrimos os olhos pra vida, até fecharmos eles para outro plano.

Responder
Avatar
Sônia 1 de outubro de 2017 - 12:34

Fantástico!!! Adorei! Completei 70 em 14/08/2017 e me refugiei nas lindas praias de Porto Seguro! E foi muito bom, era tudo o que eu queria! Longe de tudo do cotidiano que seria nesse dia como, cumprimentos, etc., E aí meus setenta entrou silenciosamente, de mancinho, sem alardes hahaha, agradeço a Deus pela minha jovialidade interna e externa, sem extremos, claro, odeio falta de bom senso! Rsrs.

Responder
Avatar
Leonardo Jose de Araujo 1 de outubro de 2017 - 12:10

Uma grande lição de vida

Responder
Avatar
Rose barcha 1 de outubro de 2017 - 11:17

Me identifico muito com seu modo de pensar!…
Feliz por tê-la como tradutora dos meus sentimentos!

Responder
Avatar
Sonia Santos 1 de outubro de 2017 - 09:50

E.S.P.E.T.A.C.U.L.A.R. !!!!!!

Responder
Avatar
Solange 1 de outubro de 2017 - 09:30

Sábias palavras

Responder
Avatar
Elisabeth 1 de outubro de 2017 - 09:27

DIDÁTICO E TRANSPARENTE
PONTO PARA ESCRITORA.

Responder
Avatar
Solange 1 de outubro de 2017 - 09:22

Nada mais nada menos do que palavras sinceras de uma pura realidade das nossas vidas….

Responder