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O direito a uma morte com dignidade é tão elementar quanto o direito à vida

Por Maya Santana

A Eutanásia é um procedimento de abreviação do sofrimento de um paciente terminal, com consentimento dele próprio ou da família, caso não esteja em condições de se manifestar

*Márcia Lage, 50emais

Nunca a morte zombou tanto de nossas vidas como agora: Desfile de caixões e covas rasas; pessoas entubadas e filas de espera; artistas, amigos, parentes, todos se indo. E nós no aguardo da chamada: Quem é o próximo?

Não é só a Covid que está levando. Também os enfartes, aneurismas, cânceres e demências. Começam a se extinguir os que nasceram até meados do século XX. Isso seria normal, se não encarássemos a morte como uma derrota. Para a medicina e para o doente. Há culpa de ambas as partes: Eu não deveria ter adoecido; você deveria ter me salvado.

Morrer não é fácil. Mesmo os que vivem vida miserável preferem ficar por aqui mais um pouco, na esperança de um milagre ou de um revertério. A possibilidade de uma morte assistida nem é cogitada no Brasil, país no qual assassinato à bala e a facadas são vistos como mais naturais do que a Eutanásia, aprovada recentemente em Portugal e já em vigor em vários países da Europa.

A Eutanásia é um procedimento de abreviação do sofrimento de um paciente terminal, com consentimento dele próprio ou da família, se ele não estiver em condições de se manifestar. Já existe na Holanda há mais de 20 anos. Tenho uma amiga holandesa que se despediu da irmã e da mãe, num intervalo de dois anos, com a utilização da eutanásia. Foi bonito, ela contou. A irmã, com 76 anos, já não vivia sem morfina por causa de um câncer e sofria muito.

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Dores físicas e emocionais provocadas pelo avanço incontrolável da doença. Por fim ela pediu a morte assistida. A família esteve junto dela enquanto as drogas que a libertariam eram administradas. Tiveram tempo de dizer que a amavam. De agradecer pela existência dela na vida deles. Tudo foi carinhoso, delicado. Até que ela adormecesse para não mais acordar no mundo de dor e de desesperança no qual estava. Foi triste e, ao mesmo tempo, um alívio.

A mãe, que já tinha 96 anos e estava saudável, começou a dar sinais de falência dos órgãos um ano depois. Os filhos acompanharam e cuidaram dela até os médicos dizerem que não haveria volta. Nesse caso, os medicamentos e aparelhos foram sendo retirados aos poucos, deu-se o processo de despedida e a matriarca se apagou suavemente, como uma vela sem mais pavio ou cera.

Nem isso é aceito no Brasil. A não ser que a pessoa passe a conversar sobre a morte com seus familiares e registre em cartório um documento desautorizando qualquer tipo de tratamento inócuo em caso de não poder, ela própria, comunicar aos médicos este último desejo – é o Testamento Vital.

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Ainda assim o procedimento é velado, para evitar acusações de assassinato. Não há rituais de partida. O doente vai sozinho, no frio de uma UTI, o que não ameniza em nada a dor da perda e o luto dos familiares. É uma morte clandestina como o aborto, outra prática que nunca é regulamentada no país.

Pesquisei no site da Câmara dos Deputados e não existe nenhuma proposta de regulamentação da Eutanásia no Brasil. É um assunto tabu, que alimenta o terror da morte, a negação da nossa finitude e o desespero com que a perda de um ente querido é vivenciado aqui.

Tratamos qualquer morte como a tragédia de um assassinato ou de um acidente, o que, nestes casos, se justifica, pois a vida é interrompida sem aviso prévio, deixando em quem fica a sensação de que muito ainda podia se esperar de quem partiu.

Mas, na velhice, com doenças degenerativas se instalando, demências, descontrole das funções físicas, cuidados paliativos cada vez maiores e mais caros, ou nos casos em que a possibilidade de vida saudável e independente já deixou de existir, a questão da Eutanásia deveria ser considerada.

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Uma médica que cuida de pacientes cuja morte está próxima

O direito à uma morte digna é tão elementar quanto o direito à vida. Porque vida é mais que um coração batendo. É um conjunto de atividades, emoções, sonhos, esperança de futuro e possibilidade concreta de torná-lo real. Se isso tudo já não existe, o tempo de permanência na terra também se esgotou. Só crendices e masoquismo religioso podem levar uma pessoa a querer prolongar o sofrimento e a decrepitude. Se a morte assistida fosse legalizada, essa culpa cristã acabaria. E pessoas sem expectativa de cura poderiam deixar-se morrer com mais alegria e aceitação.

*Márcia Lage é jornalista e viajante. Leia outros artigos de sua autoria:

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