O que é bom e o que é ruim no envelhecer

Por Maya Santana

Lya Luft: A dádiva especial é ficarmos lúcidos, podendo usufruir afetos, objetos, paisagens, música, as memórias melhores

Já escrevi aqui não sei quantas vezes que, se alguém me perguntasse o que é bom no envelhecimento, eu responderia que é a liberdade que se adquire para ser quem realmente somos. O ruim do envelhecer, as perdas, sobretudo, das pessoas que amamos. Nesses dois pontos concordo plenamente com a escritora Lia Luft, 82, que enumera nesta crônica o que ela acha vantajoso e o que considera desvantajoso no avançar da idade. Envelhecimento é um dos temas sobre o qual essa octogenária escreve com frequência. “velhice é natural como infância e juventude. Tem mais problemas? Talvez,” escreve ela.

Leia a crônica, publicada pelo jornal Zero Hora:

Muito já escrevi sobre o assunto, seja em colunas seja em personagens de romances ou contos, muito refleti sobre isso – mais porque me perguntam do que por curiosidade minha.

Pois digo, e acredito: velhice é natural como infância e juventude. Tem mais problemas? Talvez. Mas há velhos saudáveis e crianças enfermiças, morrem velhos, jovens e crianças, a vida é um privilégio desde que de qualidade boa, então a idolatria da juventude pode acabar sendo um tiro no pé.

Primeiro, porque disfarçamos o tempo por alguns anos, mas não sempre. Muitas vezes o excesso de cirurgias plásticas provoca um desmoronamento cruel e repentino do que de outro modo poderia mudar lenta e docemente. Não sou contra plásticas: aos 50 anos, depois de um momento difícil, eu tinha ar de 70 mal vividos, e o lifting, discreto e por ótimo cirurgião, me deixou com cara de 50 anos normais.

Coisas boas de envelhecer? Curtir mais a família, a vida, a arte, a natureza, as amizades, observar o aumento da família, o crescimento de netos e bisnetos, acompanhar tantas vidas e destinos. Eventualmente sofrendo perdas, sentimos o tempo em seus misteriosos ciclos.

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Outra vantagem: a gente pode ficar mais livre. Não precisamos dar satisfação de nossas ideias e atos, não há mais pai, mãe, professor, para nos criticar tentando nos educar… aprendemos que a opinião alheia não importa – a não ser poucas pessoas cuja opinião, sim, nos vale muito.

Posso ler quanto quiser, caminhar ou preguiçar, tomar minha taça de vinho mesmo depois dos 80 anos se o médico permite, ficar horas contemplando a natureza ou vendo bons filmes na TV, posso conversar com netos e netas, filhos e filhas, exercitando ternura e alegria, além das naturais preocupações.

Posso curtir amizades novas e outras antigas, de anos, de décadas atrás, que com o tempo não se esvaziaram nem se perturbaram mas continuam como esteios da minha alma. Uma ou outra some, se desinteressa, se atrapalha com alguma coisa que não entendo nem pretendi, mas as especiais permanecem e são uma companhia incrível, mesmo que não nos vejamos muitas vezes: temos internet, e-mail, Whats, Skype e tantos recursos para curtir nosso convívio.

Coisas ruins de envelhecer? Primeiro, morrem pessoas amadas, mais do que quando somos jovens, e isso abre feridas que podem cicatrizar na superfície, mas nunca saram: a dor corre como um riozinho silencioso e triste, para sempre. Em compensação, acho que ficamos mais tranquilos quanto à nossa própria finitude: ela vai parecendo mais natural.

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Problemas de saúde são inevitáveis numa vida longa. Boa ocasião de aprender a não ficarmos queixosos, nem obcecados com doenças e receitas. A dádiva especial é ficarmos lúcidos, podendo usufruir afetos, objetos, paisagens, música, as memórias melhores, e algum projeto ainda: o bisneto, a visita, o telefonema, o livro, o quadro, o sono, o sol e a doce chuva.

No meio dos dramas, dilemas, desconfortos que possam acontecer e ocorrem em todas as idades, há esse privilégio de poder, ainda, observar, curtir e amar todas essas coisas a que chamamos vida.

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