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Aos 40, ela é velha para estudar? Preconceito puro

Estudantes universitárias debocham de colega por iniciar curso de biomedicina aos 40 anos

17/03/2023
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Patrícia Linares, 40, vítima do preconceito, virou notícia, Foto: Reprodução/Internet

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A universitária Patrícia Lunares jamais imaginou que ganharia notoriedade como aluna do curso de biomedicina da Unisagrado, em Bauru, interior de São Paulo. Muito menos que o motivo de sua fama seria os seus 40 anos.

Os comentários  preconceituosos de três jovens colegas de Patricia em relação à sua idade – ” “Mano, ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada” – ganharam as redes sociais e continuam causando muita indignação.

A mídia não deixou passar e denunciou esse caso explícito de preconceito de idade – etarismo, idadismo, ageismo – protagonizado por estudantes de curso superior. A atitude das jovens ganhou tamanha repercussão que, pelo menos uma delas pediu desculpas a Patrícia. E, no final, as três desistiram de fazer o curso de biomedicina.

Além do apoio dos outros colegas, Patrícia também recebeu a solidariedade de outras universitárias com mais de 40 anos, de várias partes do Brasil.

Leia a reportagem de Luís Ricardo da Silva e Heytor Campezz para o portal G1:

Universitários com mais de 40 anos de várias partes do país decidiram criar uma “corrente do bem” na internet após o caso de etarismo contra uma estudante em Bauru, no interior de São Paulo.

A ação começou depois que uma caloura de engenharia, de 42 anos, natural de Minas Gerais, publicou um relato pessoal no Twitter sobre o episódio. A postagem, feita no domingo (12), já soma quatro milhões de visualizações e quase três mil comentários até a manhã desta quarta-feira (15).

Ao G1 , Laura Cerqueira disse que fez a publicação porque ficou revoltada com a hostilização de Patrícia Linares, a universitária que foi debochada, em um vídeo, por três colegas de turma pelo fato de ter mais de 40 anos.

“Imagino como tenha sido desagradável [o caso da Patrícia]. Dizer que uma pessoa de 40 anos deveria estar aposentada e não em uma escola é uma mistura de preconceito com falta de empatia”, diz.

Na publicação, a mineira escreveu: “Para as pirralhas da faculdade de Bauru que debocharam do colega de 40 anos. Prazer! Laura, 42 anos, arquiteta, cursando 2ª faculdade”.

Laura Cequeira, 42, se mostrou indignada com o preconceito das “pirralhas”. Foto: Laura Cerqueira/Twitter/Reprodução

Laura é de Muriaé, cidade com pouco mais de 100 mil habitantes que fica no sudoeste de MG. Aos 20 anos, ela se mudou para Belo Horizonte para estudar arquitetura em uma universidade privada, só que, ao longo do caminho, teve que interromper a graduação em vários momentos.

“Quando eu estava no 8º período, totalmente insatisfeita, resolvi pedir transferência para outra universidade. Perdi tudo que tinha cursado e voltei para o 1º período. Então, naturalmente, eu já tinha uma idade diferente da dos demais. Mas isso nunca foi problema para mim”, diz.

Mais de 20 anos depois, por motivação profissional, Laura decidiu iniciar a segunda graduação, desta vez em engenharia. E apesar da disparidade de idades entre os alunos da turma, o clima é de respeito, segundo ela. “Temos diferenças, mas isso nunca foi um problema. Temos alunos de 20, 30, 40. Todos se respeitam. E uns aprendem muito com os outros. Cada fase traz suas características”, conta.

“A idade não me define fisicamente, mas na maturidade, sim. A diferença de estar em um novo curso aos 42 anos me faz absorver muito mais conteúdo do que antes. Hoje, já tenho uma bagagem de conhecimento e experiências que só contribuem”, diz.

‘A vida é o agora’

Na esteira de Laura, vários estudantes aproveitaram a oportunidade para contar suas histórias de vida. Nos comentários da thread, como é chamada uma sequência de publicações na rede social, um dos relatos com mais interações é o de Ana Rubia Freitas, de 41 anos.

Ana Rubia Freitas, 41, é professora e também se indignou com o preconceito das novatas. Foto: Twitter/Reprodução

Ela decidiu se juntar à mineira poucas horas depois do relato da mulher. “Comentei aquela postagem por achar absurdo uma mulher sofrer por ‘não’ estar na faixa etária que a sociedade definiu para alunos universitários”, diz.

Ana é natural de Brasília e trabalha como professora na rede pública há 20 anos. Formada em história e pedagogia, ela decidiu retornar ao ensino superior durante a pandemia, momento em que passou a refletir sobre a carreira.

“Comecei a reavaliar a minha vida. Decidi fazer um curso que me fosse prazeroso e pudesse me render uma nova profissão pós-aposentadoria. Escolhi a psicologia. É algo próximo ao meu trabalho e talvez até complementar”, explica.

Segundo a estudante, desde a última graduação, ela esteve longe da universidade por cerca de 12 anos. “Não foi fácil retomar os estudos depois de tantos anos. A vida universitária é penosa, e quando temos que conciliar uma rotina de 40h semanais com estudos fica complicado.”

Enquanto caminha para o 4º semestre do curso, Ana pondera sobre a experiência do retorno à graduação. “Não me senti excluída, mas também não me senti pertencente diante de jovens universitários. Precisei me convencer algumas vezes que ali também era meu lugar”, diz.

“De alguma maneira, estamos todos dentro de uma caixa que nos limita e nos diz o que devemos fazer em determinada etapa da vida. Venci um câncer de mama ano passado e aprendi que a vida é o agora. Não tem idade para se fazer nada que se tenha vontade.”

‘Não quero morrer na ignorância’

Nestor Marques, da cidade paranaense de Cianorte, formou-se em letras aos 61 anos. “Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, ele descreve a experiência.

“Na minha época, era difícil a escolha por uma faculdade ou manter o sustento. Sempre procurei dar o meu melhor. É uma missão cumprida”, diz o graduado, hoje com 63 anos.

Patrícia ganhou flores e a solidariedade dos outros colegas. Foto: Arquivo pessoal

Ele também ficou indignado com o vídeo de deboche à universitária de Bauru e publicou um relato na corrente criada por Laura no Twitter. Na mensagem, diz que não quer “morrer na ignorância”.

“No caso das garotas, eu levo em consideração a teoria de Vygotsky: ‘O ser humano não nasce humano, ele se humaniza’. Não existe idade ou tempo certo. A vida é contínua”, diz.

Nestor decidiu entrar na universidade graças à esposa, que se formou em pedagogia aos 57 anos. Isso porque ele teve que ajudá-la com as tarefas da graduação.

“Ela passou em um concurso público para professora e teve que fazer pedagogia. Resolvi dar uma força. Assisti todas as aulas, palestras e ajudei nas pesquisas. Foi aí que percebi o quanto eu estava preparado para realizar o meu tão sonhado diploma do curso superior”, conta.

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Iniciei minhas atividades como jornalista na década de 70. Trabalhei em alguns dos principais veículos nacionais, como O Estado de S. Paulo e Jornal de Brasil. Mas a maior parte da minha carreira foi construída no exterior, trabalhando para a emissora britânica BBC, em Londres, onde vivi durante mais de 16 anos. No retorno ao Brasil, criei um jornal, do qual fui editora até me voltar para a internet. O 50emais ganhou vida em agosto de 2010. Escolhi o Rio de Janeiro para viver esta terceira fase da existência.

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