Comportamento

O que há de errado com mulheres livres? Por que são penalizadas?

Mariana Ferrer foi humilhada pelo advogado do empresário acusado de tê-la estuprado

Esta crônica, de autoria de Ruth Aquino, foi publicada em O Globo no final de uma semana de muito barulho, por causa da forma como terminou o julgamento de um empresário de Florianópolis acusado de estupro: o advogado de defesa não só conseguiu que seu cliente, André de Camargo Aranha, saísse livre, como destruiu, literalmente, a honra de Mariana Ferrer, autora da acusação. Mais um daqueles julgamentos absurdos em que o réu é tratado como vítima. E a verdadeira vítima, totalmente desmoralizada. Os protestos contra a injustiça se multiplicaram. Uma das que se mostraram inconformadas com o desfecho do caso foi a atriz Cida Mendes que, através da cômica Concessa, fala em seu vídeo sobre o “Acúmulo da injustiça”. O vídeo você pode ver no pé dessa crônica.

Leia:

Está cheio de homem fácil por aí. Homens oferecidos. Às vezes ficam bêbados. Metem em qualquer lugar, nem sabem onde. Como se chama um homem assim? No português nobre, “mulherengo”. No idioma dos machos empoderados, “garanhão”. Na língua do deboche, “galinha”, porque cisca. Nem por isso eles merecem ser estuprados ou assassinados. Precisam ser condenados quando cometem crime. 

De Ângela Diniz, a ‘Pantera de Minas’ morta a tiros por Doca Street, a Mari (Mariana) Ferrer, a blogueira que acusa o empresário André de Camargo Aranha de estupro, passaram-se mais de 40 anos. O que esses casos têm em comum? Julgamentos humilhantes que absolvem os réus e questionam a integridade moral da vítima. A visão da sociedade ainda é distorcida. A mulher morta ou abusada passa de vítima a vilã. Foi ela quem levou o cara a matar. Foi ela quem levou o cara a estuprar. O réu vira vítima.

Homicídio culposo. Estupro culposo. Sem intenção de matar, sem intenção de estuprar. Somos levados a crer que o sexo fraco é o masculino. O vulnerável é o homem. Tão fraco que seus crimes se tornam legítimos. Em defesa da honra, por não se conformar com a traição ou com o abandono puro e simples. Tão vulnerável que não controla o desejo. Impõe sua virilidade diante de um não. Ou penetra em corpos desacordados. Qual prazer se extrai disso? 

Ouvi em dois dias o podcast “Praia dos Ossos”, que reconstitui o assassinato da mineira Ângela Diniz em Búzios com quatro tiros em 1976. Oito episódios, cada um com cerca de uma hora. O podcast é um thriller hipnotizante. A realizadora Branca Vianna entrevista mais de 50 pessoas e reproduz a atmosfera da época. O ponto alto é a defesa de Doca Street pelo criminalista Evandro Lins e Silva. Ou seria o ponto baixo?

“Ela queria a vida livre, libertina, depravada”, exclamava Evandro no tribunal, com reprovação. Ângela seduzia homens e, às vezes, mulheres. Era mulher pecado, mulher fatal. Doca, que acabou um casamento por ela, poderia ser tachado de corno. A pantera merecia, portanto, morrer. Era tão bonita e envolvente que provocava “misto de fascínio e medo”. Deixava os homens inseguros. Doca foi absolvido e aplaudido no primeiro julgamento, em 1979, em Cabo Frio.

Veja também: O crime da Praia dos Ossos, sobre o assassinato de Ângela Diniz

Corta. Quatro décadas depois, no julgamento do empresário acusado de estuprar Mari Ferrer, virgem aos 21 anos, numa festa em Florianópolis, o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho se exalta. Exibe fotos “sensuais” de Mari nas redes: “Essa com dedinho na boca foi manipulada ou não?” Dedo na boca nada tem a ver com a acusação e é constrangedor precisar explicar isso a um advogado. Quando Mari diz para “ele se ater aos fatos”, o advogado perde a linha. “Nunca vou ter uma filha com o teu nível, graças a Deus”. “E também peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher que nem você”. 

Mari alega ter sido dopada, mas exames toxicológicos não apontaram álcool ou droga. Sumiram as imagens das 37 câmeras de segurança. Mari chora. Pede “respeito” ao juiz. Ninguém a escuta ou suspende a sessão. O ministro Gilmar Mendes, do STF, comparou o julgamento a “tortura” e chamou as cenas de “estarrecedoras”. O réu foi absolvido por falta de provas. A expressão “estupro culposo” foi criada pelo site ‘The Intercept’ para classificar a denúncia de “sexo forçado sem intenção”. Uma petição de justiça por Mari já reuniu mais de 4 milhões de assinaturas nas redes.

Enquanto o homem for tachado de “pegador” e a mulher de “vagabunda” pelos mesmos atos, veremos epidemias de feminicídios e estupros. Inadmissíveis. Mulher que sabe se comportar não é estuprada ou morta, ainda se pensa assim em 2020. Liberdade é devassidão só para nós, mulheres. Basta.

Veja o “Acúmulo do Absurdo”, protesto, através da comédia, da atriz Cida Mendes contra o julgamento de Florianópolis:

Veja também: Em Minas, “defesa da honra” ainda é argumento que livra agressor

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