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Psicanalista fala da difícil passagem de filha para mãe da mãe

Por Maya Santana

"As pessoas não toleram conviver com os velhos porque não suportam a imagem da decadência" - Pedro Kirilos / Agência O Globo

Betty Milan com a mãe, Rosa: “As pessoas não toleram conviver com os velhos porque não suportam a imagem da decadência” – Pedro Kirilos / Agência O Globo

Quando li este artigo escrito por Mauro Ventura para a Revista O Globo, eu me identifiquei imediatamente com a psicanalista e escritora Betty Milan. Morei muitos anos no exterior. Retornei ao Brasil quando a minha mãe estava com 81 anos. Fui morar na casa dela e, nos anos seguintes, até que se despediu da vida, eu realmente me tornei a mãe da minha mãe. Era um privilégio estar com ela e usufruir de sua imensa sabedoria. Ao mesmo tempo, perturbava ver sua energia se escoando com o passar do tempo. Em seu livro A Mãe Eterna, a psicanalista fala exatamente dessa profunda mudança na relação entre mãe-filha/filha-mãe.

Leia:

Há três anos, a psicanalista e escritora Betty Milan lançou um livro autobiográfico, “Carta ao filho”. Ali, abordava de maneira franca com o cineasta Mathias Mangin temas como o triângulo amoroso que manteve e o aborto que fez. Agora é a vez de “A mãe eterna” (Editora Record), em que a narradora trata da convivência com a mãe de 98 anos. Apesar de ser um romance, a inspiração é a própria relação de Betty com dona Rosa, que fará 99 anos em dezembro. Segundo a atriz Fernanda Torres, o livro é “um relato espantoso pela delicadeza e também pela franqueza com a qual a autora narra a passagem de filha para mãe da mãe”. Aqui Betty também toca em temas polêmicos, como suicídio assistido. Dona Rosa não leu o livro porque não consegue mais ler. “Mas, após o lançamento (quinta, 19h, na Travessa do Leblon), eu e as cuidadoras vamos ler fragmentos para ela. Mamãe gostou de saber que agora há um livro inspirado na nossa relação que se chama ‘A mãe eterna’”, diz essa paulistana de 71 anos, que fundou em 1975 o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, junto com o psicanalista MD Magno, e que fez análise com Jacques Lacan, de quem se tornou tradutora, assistente e uma das pioneiras na divulgação de sua obra no Brasil.

Revista O Globo: Por que escrever para o filho e agora para a mãe?

Betty Milan: Para me desapegar. No caso do filho, para aceitar a separação. Ou seja, liberá-lo e me separar da posição em que ficava como mãe, querendo controlar sua vida e não deixando que corresse os riscos que precisava correr para trilhar um caminho próprio. Talvez por ter um filho único, temia excessivamente a perda. No caso da mãe, escrevi para suportar a devastação física e a falta de comunicação e para elaborar a perda antes mesmo da sua morte. Quando você se separa do filho, fica tão só quanto quando perde a mãe. São as ligações mais viscerais. Nos dois casos tive que superar o meu egoísmo. Não é fácil, mas é possível. Eu e meu filho somos bons parceiros, e foi também graças ao filme que ele fez, “Dona Rosa”, premiado pelo MIS, que eu me debrucei sobre minha história com minha mãe.

Revista – O que você mostra nos dois livros?

BM – Que não existe mãe modelo nem modelo de mãe a ser seguido. É uma função que precisa ser aprendida diariamente, segundo as características e personalidades de cada um. Nenhum filho é igual a outro e nenhuma mãe é igual a outra. Cada pessoa é um ser único. A pior coisa é dizer: na minha idade não posso mais fazer isso, tenho que ser assim. Deve-se fugir da armadilha de que por causa da idade cronológica temos que nos comportar de determinada maneira. É uma imagem antiga a de que a cada idade corresponde um padrão. Há que levar em conta questões como genética e estado de espírito.

Revista – Você toca no tema tabu do suicídio assistido em “Mãe eterna”.

BM – Há duas posições na Medicina. Uma é a obsessão terapêutica de querer vencer a morte a todo custo. Nesse movimento de prolongamento indefinido da vida, há um grande sadismo. Também sou médica, vi doentes terminais, como meu marido, e sei o quão penosa a morte natural pode ser. A outra posição é discutida no livro: por que não assistir pessoas que desejam morrer depois que a vida se tornou um tormento, mas que não têm condições de fazer isso sozinhas?

Revista – Como é conviver com a mãe nessa fase de velhice extrema?

BM – É muito duro esse momento da vida em que sua mãe tem sérias limitações. Qualquer um na condição de mãe da mãe sofre, como diz a narradora no livro: “Me sinto tão encarcerada pela missão atual quanto você pela sua idade. Somos reféns do tempo, as duas”. Ela é ambivalente, quer e não quer a morte da mãe, assim como a própria mãe quer e não quer morrer. Tem hora em que a narradora escreve frases como: “De repente, a melhor das mães não pode mais nada” e “Não suporto a imagem de sua decrepitude”. Mas tem hora que diz: “Apesar dos seus 98 anos, não suporto te perder”. As pessoas não toleram conviver com os velhos porque não suportam a imagem da decadência. Mas quem se dispuser a aprender com o velho vai se tornar mais humano e se aproximar mais de si mesmo. Aprendi com minha mãe o quanto a velhice pode ensinar se estivermos dispostos a escutar. A gente se surpreende com o que o velho tem a dizer. Ele tem uma experiência que não temos. Se por um lado a vista e a audição estão falhando, por outro ele vê e escuta com o coração.

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34 Comentários

Helvia Amorim 3 de março de 2019 - 02:59

Tenho 79 anos e me sinto uma privilegiada. Moro sozinha e o que mais gosto de fazer é bater perna Trabalhei até os 70 anos, tendo saído na compulsória.Faço academia de ginástica e vou para Búzios com meus dois cachorrinhos sempre que posso.Recebo visitas de filhos e netos e tenho grupos sociais. Fazemos encontros e passeios.Navego muito na Internet.Enfim, ainda não sinto as limitações da idade e me assusto até quando a comprovo.

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Rosilani 25 de fevereiro de 2019 - 23:27

Maravilhoso relato.Invertemos nossos papéis!passo por está situação.Cuidamos de nossa mãezinha com todo carinho e amor de filhos que se orgulham da mãe que tem ,apesar de agora ter duas limitações.somos agora sua mãe.Agradeco sempre o que ela foi para nós .nos incentivava para tudo.Agora eu e minha irmã que fazemos este papel para com ela.

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Elyne Guimarães de Almeida 25 de fevereiro de 2019 - 19:17

Elyne Guimarães de Almeida [email protected]
Tenho 60 anos, solteira e sem filhos. Tenho mais 2 irmãs casadas. Moro com meu pai de 83 anos. No último ano se debitou bastante em termos físicos. A cabeça ótima, usa computadores, celular, toma banho sozinho, come sozinho, mas já não possue aquele vigor de antes. É muito dependente de mim. As vezes me sufoca. As vezes tenho dó e outras fico brava com ele. Eles se tornam uma criança de novo. Mas morre de medo de morrer. Peço que qdo chegar o dia de partir, que seja dormindo. E vamos indo até qdo Deus quiser.

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Marieli Borba de Medeiros 25 de fevereiro de 2019 - 14:42

Há 20 e poucos anos atrás me vi Mãe do meu Pai, aos poucos o enfisema pulmonar foi debilitando Ele e não estávamos preparados, 6 filhos. Quando ele faleceu, ja fui me tornando Mae de minha Mãe, hoje eu com 55 e ela com 81, uma das maiores dificuldades é a falta de aceitação as limitacoes da idade, moramos juntas. Me sinto privada de viver minha vida por me sentir responsável por ela, mas também tenho medo da perda. Falta apoio familiar, acho que familias com mais irmãos devem dividir responsabilidades.

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Maria Aparecida Barbosa Nogueira 27 de agosto de 2018 - 22:27

Sou Aparecida Nogueira e passei de filha para ser Mãe do Meu Pai até quando Deus quiser.

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Vera Blank 7 de fevereiro de 2018 - 22:05

De repente, assim sem aviso prévio, o inesperado acontece. Sua mãe adoece, ou seu pai, ou os dois envelhecendo ao mesmo tempo… Eles estão ali, vivos, mas não são mais aqueles pais protetores, que nos dão segurança e proteção.Aquela visitinha semanal, quando rapidamente nos falávamos, pondo as notícias em dia, pedindo conselhos, nem que fosse para fazer tudo à nossa moda! teimosia de filho! Em vão buscamos negar a ausência em vida, os esquecimentos, a dependência, a decrepitude…
Até que a necessidade nos coloca à frente da real situação: já não somos mais filhos!

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maria triers 5 de fevereiro de 2018 - 23:17

É uma experiência extremamente dolorosa, assistir o definhamento de nossos pais ou pessoas que amamos, como irmãos, marido… já passei por tudo isso e é muito doído, contudo não deixa de ser um aprendizado que nos fortalece e nos ajuda a aceitar a passagem como algo natural, que é!

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Hérida 29 de novembro de 2017 - 10:57

Eu e meus irmãos (somos 4) passamos por esta fase. Dificílima. Uma pessoa fisicamente irreconhecível. O que fica é o amor que sentimos. Mas, admito o egoísmo: não quero perdê-la.

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Vera ligia luzzi 22 de julho de 2017 - 08:45

Chorei ao ler esta reportagem. Não tive a experiência de ver minga mãe envelhecer. Muito cedo nos deixou e eu sinto que pra compensar,me apego demais às minhas tres filhas… que dificil. Vou ker os dois livros. Obrigada por comoartilharem suas experiências.

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Elza Marques de França 20 de julho de 2017 - 08:24

Sou Elza, a segunda filha de seis, tenho 57 anos e felizmente desde sempre há uma enorme cumplicidade com minha mãe hoje com 86 anos, extremamente ativa até 1,5 ano quando teve um AVC e deixou algumas limitações que na maioria delas com toda sua força e determinação foi vencendo mas no entanto, algumas se juntam à idade e vamos convivendo com tudo o que vem. Ela morava sozinha em São Paulo e não deixei que retornasse mais. Sou muito feliz por tê-la comigo, na verdade somos, me filho cuida muito bem dela, nos adaptamos bem a todas as situações que surgem e ela sempre bem humorada e feliz agradece a cada novo dia, começou a ler um livro da terceira idade, não lembro o nome, aprecia os pássaros, não faz atividade alguma e vive com uma pureza impressionante. Me surpreende ela ser tão feliz e não fazer nada. Isto é o que mais me intriga pois sou muito ativa e o meu maior desafio é aceitar deixar ela “fazendo nada” pois se sente bem assim. Ser tolerante também um grande desafio pra mim, e saber que esta velinha vai se apagar um dia é muito doloroso, mas enfim faz parte da vida e vou procurando aceitar isto!!!

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Maria Cristina 20 de julho de 2017 - 19:59

Você é linda sem eu mesma conhece la. Cuide de sua mãe do seu jeitinho e quando ela ” for embora , terás apenas saudades, não arrependimentos . Bj

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José Carlos G. Ribeiro 19 de julho de 2017 - 20:44

Temos um grande problema, nós, seres humanos ’sapiens’…
A evolução da inteligência nos permitiu entender que, façamos o que fizermos, um dia morreremos.
Não importa que a natureza (?) tenha criado a vida e, como primeira Lei, que ela deva continuar e a mesma inteligência que nos diferencia dos outros animais se recusa a, de repente, ’acabar’!
Como? ’EU’!!! Acabar? Tudo isso que sou, aprendi, gosto, odeio, amo… não
pode acabar!
Passamos a vida tentando evitar que nossa vida termine, buscando a felicidade, acumulando bens e poder, esperando que, com isso, nos tornaremos eternos.
No entanto, a natureza é sábia.
Ao promulgar a primeira lei, implantou também o sistema para resolver o impasse.
Envelhecer é fazer com que a balança penda para o outro lado.
Pode se tornar tão penoso viver que o ser vivente prefira desistir de obedecer à lei primeira.

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Marcos 19 de julho de 2017 - 12:17

Vivo essa experiência, neste momento. Como é difícil aceitar e administrar a limitação física e mental da minha mãe. É um exercício constante, porque a tendência é o filho esperar uma saída às questões. Quando você percebe que o automático não funciona mais e é você, filho, que terá que ser o tomador das decisões.

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gilsa 19 de julho de 2017 - 10:09

Passo por isso, e confesso que é muito dificil, conviver com uma flor que você muchando a cada dia

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Claudia Rocha 19 de julho de 2017 - 08:27

Muito bom texto!!! E é a verdade desta relação Mãe da Mãe.
Será minha próxima leitura.

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Jussara Dal Castel 18 de julho de 2017 - 22:37

Ótimo texto quero muito ler este livro Amei!!!

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Márcia Maria Rosada 15 de julho de 2017 - 22:50

Vivi a morte de minha mãe…vivo o nascimento de minha mãe…sou filha-mae …inversão de papéis…difícil …muitas vezes cruel…indeciso…incerto…frágil….outras vezes…certo…sublime e até mesmo Divino!

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Sebastião A. De L. Andrade 3 de junho de 2017 - 19:34

triste realidade porém necessaria :NASCER crescer e morrer.Subi presta co trás com DEUS e deixar espaços para quem tá chegando. ( e tem é gente fazendo folho) ANORMAL insuportável medonho é os pais enterrar um filho.Mesmo assim nos dois casos e preferível,doque vê-los envolvidos com drogas e com a lava-jato . Que seja sempre à vontade de DEUS. Sou admirador da ALTANASIA para livrar os velhos incapazes do sofrimentos.

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Elizabeth 30 de maio de 2017 - 12:34

Traduzir essa experiência em palavras é difícil… Estou vivendo as duas relações: mãe com a filha e mãe com a mãe. Vou procurar o livro.

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maria auxiliadora costa 29 de maio de 2017 - 15:37

Profundo e sensível!

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Umbelina 28 de maio de 2017 - 22:50

Verdadeiro

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Leni Pires 28 de maio de 2017 - 16:52

Estou com 54 e minha mama 80, somos muito amigas, sou filha única, meu pai já falecido. Porém não está sendo fácil ver as limitacoes de minha mãezinha.

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Izilda Senteio 28 de maio de 2017 - 16:22

As duas situações são terríveis. Tenho 63 anos com sérios problemas de saúde, dificuldades de movimentos, locomoções, moro só, tenho uma filha de 44 anos solteira, mora também só…porém nosso relacionamento é complicado. Gostaria de tê-la ao meu lado, mas o fato dela nunca ter sido mãe, não aceita minhas manias, meus conselhos nem mesmo meus pedidos de ajuda. Acha que ela tem mais é que aproveitar a vida dela, que ficar cuidando de uma velha doente.

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nara 30 de maio de 2017 - 18:41

Izilda você não é velha não, 63 anos, muita vida para ser vivida. Moro nos Estados Unidos, aqui as pessoas não se importam com números e sim com a sabedoria , qualidade de vida e muito respeito com as pessoas
Tenho 65 anos, faço Zumba, bicicleta, paddle board, Pilates , e me sinto uma jovem
Se o seu problema de saúde não é sério , exercício, comer saudável e viver a vida

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regina sales 15 de julho de 2017 - 17:09

Izilda concordo com a Nara! Vc não e velha…eu tenho 67 anos. Moro só tbm…claro que nessa idade os problemas de saúde querem ” nos passar a perna”. Mas vou tentando driblar tudo isso…faço musculação diáriamente! Gosto de viver… procuro ter uma alimentação saudável. E vamos que vamos…

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Luciana 28 de maio de 2017 - 14:40

Estamos vivendo esse momento….
Nossa mãe se despede aos poucos a cada dia.
É muito triste…mas…..

Responder
lisa santana 28 de maio de 2017 - 13:12

Muito bom. Este artigo vai ajudando a desmistificar a vida, mostrando a dor e alegria natural das coisas.

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Mara Moraes 28 de maio de 2017 - 11:55

Muito verdadeiro e emocionante o relato desta Filha para com sua Mãe! Amei

Responder
leonidia maria 27 de agosto de 2018 - 16:42

Belissimo confesso que me emcionei .

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Izabel Cordeiro 14 de outubro de 2016 - 15:12

Maravilhoso!

Responder
jairo oliveira 3 de maio de 2016 - 22:24

Tenho 52 anos e minha mãe 85 e tudo que foi dito e verdade. .. Vou ler este livro…. O mais difícil de tudo é assumir a vida adulta e ver nossos pais frágeis.

Responder
Maria Isabel dos santos 21 de julho de 2017 - 08:04

Estou passando pelo mesmo desafio estou a dois meses com minha mãe hoje com 82 anos com Alzheimer e Parkinson não desgrudo de minha mãezinha e faria tudo de novo

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Cely 2 de maio de 2016 - 21:43

Excelente

Responder
nenez rick 2 de maio de 2016 - 20:53

muito bom !

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